Meu Papo com a Morte
por Isabel Fomm de Vasconcellos Caetano

Já que a morte, nos últimos tempos, resolveu caminhar frequentemente ao meu lado, converso com ela e digo:
-- Ah, o Céu deve estar repleto de gente legal, né?
-- É --responde ela meio circunspecta -- pois os maus ou estão no inferno ou no purgatório.
-- Lá no Céu estão meus maravilhosos pais e irmãos, meu único sobrinho, meu Grande Amor Mauro Caetano, alguns dos meus melhores amigos, como Tom, Pedro Paulo, Beth Krausz, Ledinha, os jornalistas Carlos Acuio e Tarcísio Machado Carvalhaes e, ainda, médicos queridos e amigos também como Alfredo Halpern, Romeu Meneghelo, Rosana Simões, Moacir Costa, Angelita Gama... Tanta gente amada! E quantos dos meus ídolos: a incansável lutadora e muito querida amiga, Amelinha Telles, isso sem contar os mais famosos, como João Gilberto, Gal, Erasmo Carlos e grandes ídolos escritores, Jorge Amado, Érico Veríssimo, Cassiano Ricardo, Clarice Lispector, Ligia Fagundes Telles... Ah, Dona Morte, é muita gente...
-- Esse é o problema de ser velha, de viver muito -- responde a Morte -- você acaba vendo partir aqueles que ama, antes de você.
-- E eu? -- pergunto curiosa -- quanto tempo será que ainda vou viver aqui na Terra? Considerando o marca passo cardíaco, todos os cigarros que fumei na vida, todos os santos whiskies de cada dia...
-- Ah, isso eu não posso dizer -- responde ela -- Não me é permitido revelar aos humanos a data de sua partida.
-- Mas, levando em conta a frequência com que você caminha ao meu lado atualmente... Deve ser em breve!
-- Não posso dizer -- responde a Morte, meio zangada pela minha insistência.
-- Bom, já que você não vai dizer nada, é melhor se mandar, então! - respondo ainda mais zangada que ela.
-- Está bem - concorda -- Até mais. Qualquer dia a gente se vê.
E me vêm à mente os versos de Milton Nascimento: "Eu já estou com um pé nessa estrada, qualquer dia a gente se vê, sei que nada será como antes amanhã..."
Bel, quarta-feira, 30 de setembro de 2026



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