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A Bússola e o Motor: Sobre Sonhos e a Persistência da Esperança.

  • Foto do escritor: SAUDE&LIVROS Fomm
    SAUDE&LIVROS Fomm
  • 21 de fev.
  • 3 min de leitura

Jonas Souza, Bússola em Aquarela
Jonas Souza, Bússola em Aquarela

por José Reynaldo Walther de Almeida


Hoje, chego a estas linhas com o passo um pouco mais lento, com o atraso de quem carrega não apenas o tempo cronológico, mas o peso das circunstâncias. Há dias em que a tristeza se instala silenciosa, fruto de situações delicadas que, com o avançar da idade, ganham novas e complexas camadas de emoção. A dor, nesses momentos, deixa de ser um evento agudo para se tornar uma companheira antiga, exigindo de nós uma compreensão mais vasta sobre a própria existência.


Foi nesse estado de espírito, imerso na penumbra de uma noite difícil, que surgiu em meu sonho a figura do meu amigo Edson Alvarez Pacheco, neurocirurgião em Imperatriz, no Maranhão. Como costuma acontecer com a matéria onírica, o encontro se dissipou assim que abri os olhos — os sonhos são voláteis, desfazem-se como neblina se não os ancoramos na escrita imediata. No entanto, se as imagens se perdem, os significados permanecem, sedimentados na consciência, aguardando decifração. E o que Edson, em sua visita misteriosa, me deixou foi uma direção clara: a Esperança.



É preciso, contudo, o rigor intelectual para não confundirmos sentimentos distintos. Existe um abismo semântico e prático entre esperança e ilusão. A ilusão é o refúgio do passivo; nela, cremos e aguardamos por algo que, obviamente, não existe e jamais existirá. É uma crença estéril. A esperança, por outro lado, é um ato de coragem e construção. Na esperança, aceitamos a realidade de que o objeto do nosso desejo ainda não existe, mas nos comprometemos com o esforço hercúleo de criá-lo.


A esperança possui um parentesco inegável com a fé; são, arrisco dizer, primas-irmãs. Ambas decorrem dessa nossa extraordinária capacidade humana de abstração, da habilidade neurológica de projetar no futuro as nossas necessidades de sobrevivência. Se a esperança é o motor que nos impulsiona a não estagnar, a fé é o GPS, o radar, a bússola que nos orienta em meio ao caos.


Hoje, sinto que renasceu em mim um pouco de ambas, tanto na esfera pessoal quanto na comunitária.


Olho para a nossa nação e, embora o cenário seja desolador — com lideranças que se assemelham a facções, drenando sem pudor o dinheiro que deveria irrigar o progresso para os ralos da corrupção e para a indecência dos privilégios —, percebo que o país ainda respira. Ele não morreu.


Ao lado disso, olho para dentro, para a arquitetura íntima da minha própria construção como ser humano. Nesta etapa, poder-se-ia confundir o envelhecimento com um lento desmantelamento, mas escolho vê-lo como um refinamento contínuo. Ser humano é estar perpetuamente em obra. A dor e as “situações delicadas” que carrego não são meras rachaduras na fundação, mas o assentamento de uma estrutura que finalmente aprende a sustentar seu próprio peso real. Não sou um monumento acabado; sou um projeto vivo, ainda assentando tijolos de resiliência, ainda capaz de reinvenção.


Há esperança, mas não aquela ilusória e anestésica. Refiro-me à esperança que sabe distinguir o joio do trigo. Veja-se o carnaval, por exemplo. Há a manifestação cultural legítima, aquela que brota nos blocos de rua, nos quintais, nos clubes de bairro, onde a alegria é genuína e orgânica. E há o carnaval comercial, regado a dinheiro público, um espetáculo de opulência financiado pelo suor de muitos para o enriquecimento de poucos. Saber diferenciar um do outro é um ato de lucidez.


A mensagem deixada pelo sonho é clara: a realidade ainda não é a que desejamos, mas possuímos o motor e a bússola. Resta-nos, portanto, o trabalho de navegar.


Obrigado, Pacheco.

 

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