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Um Porquê do Tempo

Foto do escritor: SAUDE&LIVROS Fomm
SAUDE&LIVROS Fomm
29 de ago.
4 min de leitura

por Isabel Fomm de Vasconcellos Caetano


assista vídeo onde conto essa história - As Bruxas na TV Paradise


Catedral NS do Desterro, Jundiai
Catedral NS do Desterro, Jundiai

Muitas vezes Mel se perguntou por que, afinal, tinha ido parar no ano de 1732? Por que vivera aquela experiência sem sentido? Mas vivera, de fato! Estava tudo registrado em livro na pequena cidade vizinha à São Paulo: a chegada de uma moça do futuro, chamada Mel, dirigindo um carro (!) de nome Honda; estava lá, até hoje, 2026, o robozinho de brinquedo que Mel dera de presente ao padre Agenor, em 1732, e que a igreja conservara no altar, dentro de uma redoma.

E quando Mel voltara à cidade, apenas um dia depois de sua viagem ao passado, a igreja ainda estava lá, o padre atual, padre Santos, sabia quem ela era, deduzira que ela voltaria no dia seguinte à sua viagem ao passado e o dia era esse, 16 de agosto de 2026...

 

Aquela visita do futuro, em 1732, acabara virando lenda na cidade de Jundiaí, estava descrita em um pequeno livro, criado por um autor local, Juliano Paiva, a quem o padre, de 1732, que recebera Mel, vinda do 2026, narrara toda a história.

 

A única coisa muito mais estranha do que ter ido parar 3 séculos atrás no Tempo, era o porquê. Por que afinal, acontecera isso?

 

Viajando de volta a São Paulo, com uma cópia digitalizada do livro que contava essa história e várias fotos da igreja, do padre, da cidade, das pessoas que correram para vê-la, quando souberam que “a moça do futuro” estava lá, e do livro original, impresso tipograficamente e com as páginas completamente amareladas, Mel, de repente, bateu os olhos na imagem de Maria que o padre do passado dera a ela e que estava no console de seu carro.

 

A imagem no parabrisa do seu Honda dera ao padre Santos a certeza que aquela moça que ele estava vendo estacionar o seu automóvel no pátio da igreja era ela, a Mel, a moça citada no livro que narrava a visita que viera do futuro. Ele dissera a Mel que restava apenas uma única imagem, além daquela, de Nossa Senhora do Desterro. Fora o padre Agenor que, 1730, encomendara a um artista local aquelas imagens em gesso, para distribuir entre os fieis no 15 de agosto, dia da Padroeira da em tão Vila Formosa, hoje Jundiaí.

 

“Foi ela quem me trouxe de volta” – refletiu Mel

 

“Ela é a mãe do filho de Deus, a escolhida, a abençoada. E, se todas nós mulheres somos de fato, bruxas, ela também o é. Então talvez possa me dizer qual é o propósito de ter vivido essa história de viagem no Tempo.”

 

Imediatamente, uma voz soprou-lhe aos ouvidos: “Sim – disse a voz – você deve perguntar à mãe.”

 

Era inacreditável que tudo tivesse acontecido justamente no dia 15 de agosto, dia da padroeira da cidade, Vila Formosa de Nossa Senhora do Desterro de Jundiaí.

 

O povoado, fundado em 1651, se iniciara com a fuga de um casal de bandeirantes da cidade de São Paulo para aquelas terras, então ocupadas por povos originários que plantavam milho e mandioca. O casal era acusado de escravizar justamente esses povos e ali se refugiou, instalando a sua família, na década de 1620.  Aos poucos, outras famílias foram se juntando a eles.

 

De 1649 a 1651 aconteceu a construção da capela que acabou por se transformar na Igreja Matriz da cidade, dois séculos depois.

 

Chegando a São Paulo, naquele domingo, Mel foi direto para a casa de sua mãe, Patrícia, e contou tudo a ela, sua aventura, sua recepção pela cidade naquele dia, mostrou-lhe as fotos... E falou de sua pergunta sem resposta. Por que? Por que vivera tudo aquilo?

 

Patrícia sorriu e respondeu:

-- Você está perguntando à mãe, como sugeriu Nossa Senhora, mas está perguntando à mãe errada...

-- Como assim, mãe errada?

 

-- Quem vai te responder isso é a minha mãe, sua avó, Alice.

 

E lá se foram as duas para a casa de Alice. Narrada a história, a velha senhora suspirou:

 

-- Juliano Paiva é nosso antepassado, 10 gerações atrás de nós. Mas a sua história veio vindo, preservada, dentro da família. Ele foi escritor, porém mais que isso, foi um dos maiores proprietários de entrepostos que abasteciam as bandeiras. Você sabe, Jundiaí, à época dos bandeirantes, era chamada de “O Portão do Sertão”, ponto de parada obrigatória dos que iam para o interior do país, a partir de Goiás, em busca de ouro e de escravos indígenas. Se até algumas décadas passadas a história do Brasil vendia esses caras como uns heróis que desbravaram o interior e expandiram as nossas fronteiras, hoje se sabe que eles eram caçadores de escravos, ladrões de ouro e outras coisas menos recomendáveis. Nosso avô distante facilitava a vida deles e enriquecia fazendo isso.

 

-- Tá bom, vovó –disse Mel – mas isso que você está dizendo também não explica a razão ou o propósito dessa minha louca viagem ao passado.

 

-- Talvez explique – respondeu, com tranquilidade, Alice – Veja bem, é irônico que Nossa Senhora do Desterro seja a padroeira da cidade que era “O Portão do Sertão”, a cidade que facilitava a ação daqueles grupos que iriam promover literalmente o desterro de muitos dos nossos povos originários.

 

-- Podem se passar anos, ou séculos – continuou Alice -- mas a vida sempre encontra uma via de reparação.

 

Foi assim que Mel se tornou uma feroz ativista pela preservação da cultura e do modo de vida dos nossos povos originários, atendendo à revelação da Nossa Senhora do Desterro.

 

Bel, 2026, agosto, 21

 Obs: Essa é uma história de ficção. Só os fatos históricos de Jundiaí são reais.


Veja como essa história começou: A Estranha Viagem



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