A Estranha Viagem
- SAUDE&LIVROS Fomm
- há 5 horas
- 8 min de leitura

por
Isabel Fomm de Vasconcellos Caetano
Assista vídeo onde conto essa história - programa Aa Bruxas, TV Paradise
Mel estava há horas no meio da rodovia Rio-São Paulo. E não tinha informação alguma sobre o que estava ocorrendo. De repente, todos os carros pararam e a enorme fila só fazia aumentar e aumentar. O Google não tinha informação. Nem os sites de notícias. Mas algo grave deveria ter ocorrido mais à frente porque estavam todos ali havia horas. A potente teleobjetiva de sua máquina fotográfica alcançava o horizonte e lá só se viam capotas de carros parados.
Muitos motoristas desceram para papear, esticar as pernas, trocar ideias. Mel comentou com um senhor mais velho que estava com a família no carro ao lado:
-- Isso aqui está parecendo aquele conto do Júlio Cortázar, a Autoestrada do Sul...
Ele riu. Tinha lido o conto.
-- É. Está ficando igualzinho. Mas acho que eu consigo sair daqui.
-- Sair como? – perguntou ela espantada.
-- Se conseguirmos afastar um pouco os carros e abrir um espaço aqui na frente do seu, consigo pular o canteiro central e passar para a pista oposta. Viajando em sentido contrário, a poucos quilômetros, há um acesso para a malha de estradas vicinais. Indo por elas, acaba-se chegando à São Paulo também. Está certo que dão muitas voltas essas estradas e o caminho aumenta em média duas horas, ou cem quilômetros, de viagem. Mas me parece melhor do que ficar esperando aqui.
Mel adorou a ideia e pediu para ir atrás dele. Ele concordou e prometeu indicar o acesso para a cidade de São Paulo, já que ele seguiria em frente, sem usar esse acesso, pois estava indo para outra localização. O GPS também ajudava, mas aquelas estradinhas eram mesmo uma rede bastante intrincada e Mel ficou feliz por ter alguém de verdade para guia-la e não apenas a tela virtual.
Com a ajuda dos motoristas e ocupantes dos automóveis vizinhos, conseguiram abrir espaço suficiente de manobra e pularam para a outra pista.
Estava anoitecendo quando Mel entrou na vicinal que a levaria à São Paulo. A noite era escura, sem estrelas e sem lua e a tal rodovia, estranhamente vazia. Não passava nenhum carro, ninguém à frente. Ninguém atrás dela. Estranho – ela pensou. Porém mais estranho ainda foi a estrada desembocar numa pequena aldeia de ruas estreitas, sem iluminação, casas de taipa, algumas deixando ver uma luz muito tênue, pelas janelas. Ruas calçadas de pedras. E, de repente, sem entender bem o que seria aquela paisagem, Mel viu um portão aberto, um parque ou um bosque e, cansada, estacionou o carro debaixo da primeira árvore.
Saiu caminhando e avistou, adiante, a torre de uma pequena igreja. Estava aberta. Lá dentro, à luz de velas, um padre de meia idade arrumava o altar. Ela entrou e ele olhou, parecendo assustado, para ela de cima abaixo. Disse apenas:
-- A moça certamente não é daqui. De onde você veio, minha filha?
-- Não sei como vim parar aqui. Eu estava cortando caminho por estradas paralelas à Rio-São Paulo e, de repente, caí aqui... Não sei onde estou. Meu celular descarregou, não consigo acessar nada...
-- Seu o que descarregou? – perguntou o padre.
-- Meu celular, padre. Meu telefone celular.
-- Não sei o que é isso, minha filha.
-- Mas como, não sabe? No Brasil hoje todo mundo tem um desses – disse ela tirando o celular do bolso da jaqueta.
-- Nunca vi nada parecido com isso – respondeu ele e foi logo acrescentando:
-- A moça não deveria entrar na casa de Deus usando roupas de homem, mas como não sou de negar entrada a ninguém – disse, fitando os jeans e os tênis de Mel. Aliás, ele parecia não poder desgrudar os olhos dos tênis dela. E continuou: -- E como foi que você viajou até aqui, a cavalo, carruagem, onde estão os seus acompanhantes?
-- Viajo sozinha, padre. Estou de carro, é claro.
-- Olha, como é que eu posso te ajudar? Você disse que estava indo pra São Paulo? Essa nossa Vila Formosa é vizinha a São Paulo. Logo adiante tem uma estrada muito boa, de terra batida, por ela, sempre em frente, você chega a São Paulo. Você não me disse que tipo de carro...
-- Ora, padre, carro, automóvel, um Honda...
E, ante a expressão perplexa que leu no rosto dele, o cenário de velas, as casinhas de taipa ela pensou: “ou estou sonhando ou estou no passado”. Perguntou:
-- Padre, em que ano eu estou?
-- Este é o ano da Graça de 1732.
Mel pôs a mão na cabeça de disse:
-- Olha, Padre, o senhor pode não acreditar, mas eu vivo no ano de 2026. Nasci em 1996 e até agora há pouco, estava em 2026. Não sei o que aconteceu.
O Padre riu:
-- Pois é, minha filha... Com essas roupas você só pode ter vindo do futuro mesmo! Mas é bem difícil de acreditar.
-- Eu sei, Padre. Mas se o senhor duvida, vem comigo, vamos até a esquina ali, no parque, onde eu parei o meu carro.
-- Parque? Que parque?
-- Ué, logo ali na esquina não tem um portão e uma espécie de bosque, floresta, lá sei eu?
-- Aquilo é a propriedade do Cel. Amâncio – respondeu ele.
-- Ah, não sabia. Parei o carro debaixo da primeira árvore.
Eles foram. O padre, super intrigado com tudo aquilo, quase desmaiou quando viu o Honda da Mel:
-- Não, minha filha. Isso não existe!
-- Existe, padre. E o senhor que é um homem místico, um religioso, pode perfeitamente compreender que a vida guarda os seus mistérios, como ter me mandado do futuro para cá.
-- Somos limitados demais, minha filha, para tentar compreender os desígnios de Deus. Mas se ele te trouxe aqui, alguma razão tem que haver. Ou para te dizer alguma coisa. Ou para me ensinar alguma coisa. Ou para nós dois e até outros...
Nesse momento, o padre já sentado dentro do carro, olhando estarrecido para tudo: os bancos, as telas do console, o teto, as luzes... Ele até gritou de susto quando ela acendeu os faróis. Ela riu.
E quando o carro começou a andar, ele dizia: -- Isso é um milagre! Um milagre!
E mais estarrecido ainda ficou o pobre do padre quando ela explicou que por aquela tela escura no console do carro, ela poderia receber um mapa com a localização exata e com os caminhos que ela teria que percorrer para chegar ao seu destino. “Tudo isso via satélite” – arrematou.
- Satélite?
-- Ai, padre... Satélite é uma coisa que fica girando no céu, ao redor da terra, e, através deles, nos comunicamos e recebemos informações. Por exemplo, o meu telefone aqui... com ele eu falo e vejo a imagem de qualquer pessoa em qualquer lugar do mundo... ai, padre, é complicado para explicar, mas o senhor, se fosse ao meu futuro, ficaria deslumbrado!
-- Já estou absolutamente deslumbrado minha fi... você ainda não me disse seu nome.
-- Me chamo Mel.
-- Encantado, senhorita Mel. Sou o padre Agenor. Completamente assustado com tudo isso: o seu carro capaz de produzir mais luz do que todas as velas juntas, com esse deslizar macio sobre as nossas ruas de pedras, com os seus trajes, com essas suas caixas escuras que você diz capazes de ver o mundo e os mapas... e desejo sinceramente que você, por essa estradinha aí na frente, não chegue apenas à São Paulo, mas à São Paulo do seu tempo. Vou rezar por isso. No entanto, espere um pouco (o carro acabara de parar à porta da Igreja) vou buscar uma companheira para vosmecê.
Voltou com uma pequena imagem, em gesso, de Nossa Senhora.
-- Leve-a. Ela vai guiar seus passos.
Mel, por sua vez, tinha no carro um pequeno robô de brinquedo que comprara para dar de presente a um sobrinho. Deu ao padre e explicou:
-- Isso é um robô. Uma máquina que faz trabalhos humanos.
Padre Agenor correu os dedos pelo bonequinho.
-- Não sei de que material é feito.
-- Plástico e acrílico – respondeu Mel.
O padre riu:
-- Cada palavra que vosmecê diz é absolutamente ininteligível para mim! Mas não importa! Vá com Deus. Maria lhe guiará ao seu destino!
A imagem de Maria foi colocada no console, abaixo do para-brisas do carro e Mel pensou: Se esse padre Agenor desconfiasse que sou uma bruxa (Mel é uma Bruxa!) talvez ressuscitasse a inquisição brasileira apenas para me mandar para a fogueira! E riu... Mas Maria – pensou – também é uma mística, uma bruxa... quem sabe ela me ajuda a voltar ao meu tempo.
Então Mel ouviu uma voz que lhe disse: Diminua a velocidade do carro, feche os olhos por 3 ou 4 segundos...
Ela fez isso. E, quando abriu os olhos, a deserta estrada de terra desaparecera, sob os pneus do seu carro havia asfalto, tudo era claro, iluminado, à esquerda um posto de gasolina com um enorme restaurante e, à sua frente, uma grande placa indicando: Benvindo à São Paulo! Faltam 3 kms!
No dia seguinte, era domingo, 16 de agosto de 2026. E ela resolveu fazer o caminho inverso. Pegaria a estrada de onde ela tinha saído e iria descobrir qual era, afinal, aquela cidadezinha – Vila Formosa, o padre dissera—onde ela estivera em 1732. Para a sua surpresa, era Jundiaí! E aí ela circula pela cidade que agora é bem maior do que as quatro ruas da Vila Formosa da Nossa Senhora do Desterro de Jundiaí. E encontra a mesma igreja. Aberta. De dia. Estaciona. Entra. Um padre arruma o altar, deve estar entre uma missa e outra, ela pensa. Ele olha para ela e diz:
-- Oi, minha filha. Você será por acaso a Mel?
E ela, assustada:
-- Sim! Mas como o senhor sabe?
-- Você foi muito bem descrita pelo nosso escritor local, o Juliano Paiva, em 1733. O padre Agenor narrou a ele a sua vinda do futuro. No começo ninguém acreditava no padre. Mas quando viram o robô... – e apontou para o brinquedinho que ela deixara ali e que, quase 300 anos depois, permanecia a um canto do altar, protegido por uma redoma de vidro.
-- Mas, mesmo assim, como pôde me reconhecer?
-- Vi quando você entrou no nosso pátio para estacionar. Um Honda. Como está no livro. E com a imagem de Maria no console. Um dia depois da data em que você dissera estar: 16 de agosto de 2026...
-- Sim, padre, para mim, essa história aconteceu ontem e não há 300 anos...
-- Pois me parece bem natural que, no dia seguinte, você tenha desejado voltar para cá, para ver, afinal, onde estivera.
Mel ficou sabendo, então, que a história da visitante do futuro acompanhara a cidade de Jundiaí por todo esse tempo. Os mais jovens, hoje, não levavam a lenda a sério e zombavam dela. Mas muitos acreditavam que acontecera de fato. O escritor Juliano Paiva deixara alguns exemplares toscamente impressos na tipografia de um jornal de São Paulo e só restava um único, preservado na Biblioteca Municipal. Mas o padre tinha o texto digitalizado e passou para Mel por What’sApp.
Assim, no fim da tarde, depois de ter dado autógrafos e confirmado toda a lenda, história, para alguns populares que correram à Igreja para ver a “moça do futuro”, Mel voltou para casa com o celular e a câmera lotados de fotos, selfies, paisagens, detalhes da igreja...
E com uma pergunta ainda sem resposta.
-- Por que Padre Santos, aconteceu isso comigo? Qual será o propósito dessa viagem no Tempo, tão improvável, e que, apesar disso, sobreviveu na memória dessa cidade? – perguntou Mel ao se despedir dele.
-- Não sei, minha filha. Mas o fato é que 15 de agosto é feriado municipal aqui em Jundiaí. É o dia de Nossa Senhora do Desterro, a padroeira da nossa cidade. E se foi ela quem levou você de volta o seu Tempo, certamente foi ela quem a trouxe aqui, em 1732. Certamente, um dia, ela revelará seus motivos.
Bel, 2026, agosto, 15
(OBS: Essa é uma história de ficção. Nunca houve essa lenda na cidade de Jundiaí, mas a Igreja e os fatos históricos da cidade são reais)



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