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A Enésima Chance

  • Foto do escritor: SAUDE&LIVROS Fomm
    SAUDE&LIVROS Fomm
  • 22 de fev.
  • 5 min de leitura

por Isabel Fomm de Vasconcellos Caetano

do livro Histórias de Mulher



O Sudário
O Sudário

Nós eliminamos todos eles. – dizia o presidente ao conselheiro galáctico -- Foi uma coisa natural, não um genocídio, entenda-me bem. Foi uma coisa piedosa e de grande valia prá humanidade naquele momento. Eliminamos do mal humorado ao canibal assassino.


Setenta anos depois da queda do socialismo e do muro de Berlim tínhamos decifrado todo o código genético. Nossos computadores pessoais liam e reliam qualquer indivíduo ou futuro indivíduo. Começamos a eliminar traços indesejáveis. Primeiro as tendências. Tendência ao diabetes, ao mau humor, à tensão pré menstrual, à preguiça, à depressão... Bom, mas o conselheiro pode acessar qualquer registro histórico do Planeta Terra e acompanhará, passo a passo, se tiver paciência e estômago, a evolução do controle genético na Terra. Importante é dizer como terminamos.


Terminamos assim: Apenas 10 milhões de seres humanos sobre o planeta; animais antes extintos redivivos a partir de clones de seus fósseis; florestas recompostas... e uma média de 550 máquinas para cada pessoa.


Ah...conselheiro (quase suspirou o presidente)... É um espetáculo maravilhoso participar do resumo virtual da história da recomposição da Terra. É lindo ver como as cidades de outrora e seus monstros arquitetônicos foram reduzidos a pó e seus átomos compactados...É emocionante, mesmo para um velho como eu, ver como nossos antepassados replantaram e replanejaram toda a flora original dos cinco continentes da terra, transformando-a, em cem anos no paraíso que ela é agora.


Recuperado o equilíbrio ecológico, recuperados os animais a partir de clones de seus fósseis, eles hoje vivem tranquilos e serenos no paraíso que construímos. Reproduzem-se em paz. Como as plantas.

 

Ah... e os jardins! Nossos jardins são imensos templos de beleza, vida e perfume. Ainda podemos apreciar a beleza, nosso senso estético também foi aprimorado. É um dos nossos raros prazeres e desafios, criar mais beleza na terra, mais arte. E mais conhecimento. Demoramos um pouco a entender o caminho da arte para o conhecimento, por centenas de anos julgamos a arte e a ciência duas coisas muito diversas.


Quanto à sociedade... Os grandes problemas de outrora foram resolvidos, a superpopulação, a diferença de classe social, a necessidade de serviçais, operários, técnicos... As máquinas são nossos serviçais. Na verdade, cada indivíduo hoje, na terra, vive como rei. Tudo lhe é provido. Temos tudo prá atingir a sonhada felicidade mas ela não é para nós nada além de uma palavra vazia...


O irônico, para uma raça como a nossa que, durante milênios, desprezou e vilipendiou os animais é que, de uma certa maneira, cheguemos a invejá-los agora, porque eles sim usufruem do paraíso que reconquistamos em nosso planeta.Nós, porém, nada temos a conquistar, a desvendar, a esperar, a desejar: tudo nos é provido por nossas máquinas, tudo é possível, tudo é permitido. Vivemos como reis, repito, se comparados aos nossos antepassados.

Nas histórias deles, porém, encontramos uma força, uma paixão, que não mais conseguimos reproduzir em nossas vidas. Uma certa loucura que talvez tenhamos eliminado com nossas manipulações genéticas... Não sei...


O presidente deu um suspiro.


O olhar do Conselheiro Galático pousou sobre ele, interrogativo.


A mais alta autoridade da Terra pigarreou, sem graça, surpreendido num suspiro, e continuou:

Sendo, assim, Conselheiro, os cidadãos da Terra, em consenso de maioria, decidiram que não mais se reproduzirão. Nem por clones, nem por fecundação. Estamos cientes de que chegamos ao fim, como raça. E, portanto, viemos até este alto conselho pedir a permissão para violar uma das normas da Federação de Planetas Unidos. Nós gostaríamos de retroceder.


O Conselheiro não engasgou, como, secretamente, esperava o presidente. Ao contrário, não pareceu sequer surpreso.


- E, sr. presidente, como os terráqueos imaginam esse retrocesso?


- Bem,  poderemos clonar seres humanos do passado. Há fósseis. Há múmias...E foi exatamente isso que fizemos há dois séculos quando começamos a clonar os animais extintos. Podemos clonar nossos antepassados a partir de células fósseis preservadas em seus objetos de uso pessoal. Clonaremos os gênios antigos. Conseguiremos recuperar alguns genes de algumas características que eliminamos e que agora nos fazem falta. Estamos nos tornando apáticos. Muitos de nós já tem morrido de inanição, de inação na verdade. Talvez a loucura, a estupidez, a insanidade social...talvez essas ou outras características humanas, como aquele velho hábito social – a fofoca, se é que o senhor já ouviu falar nisso – talvez...


O presidente da Terra comentou novamente o lapso do suspiro, mas logo se recompôs:

...Talvez qualquer uma dessas características que eliminamos, ou todas elas juntas, possam nos salvar.


O conselheiro olhou fixamente nos olhos do presidente:

-Reunirei o conselho e estudaremos a questão. Está claro que vocês não poderão deliberadamente retroceder como raça. Não há como quebrar as normas do evoluir. Mas o conselho poderá considerar que a proposta de vocês significa uma evolução e não um retrocesso.


-Perdoe-me, conselheiro, mas... como? Afinal, passamos trezentos anos limpando a nossa natureza humana e, agora, somos obrigados a vir pedir permissão para negar tudo o que fizemos...


- Ora, terráqueo, evoluir não é andar para a frente. Pode-se voltar atrás às vezes, não?


-Havia sentimentos antes – disse o presidente com o olhar perdido no vácuo – que não eram apenas o júbilo e a alegria que hoje sentimos ao atingir mais uma meta do nosso conhecimento ou mesmo a alegria fugidía do sexo... Vivemos apenas para preservar os conhecimentos e a beleza. Mas para que? Sabemos que os sentimentos (pois os conhecemos da Literatura e de outras formas de arte), mesmo os indesejáveis, moviam a vontade humana. Hoje parecemos padecer de ausência de vontade. Conselheiro, precisamos da autorização!


-Sossegue, presidente, certamente vocês a terão.

 

Assim,pelo antigo calendário cristão da Terra,  no dia 25 de dezembro de 2399, nasceu o primeiro clone do primeiro ser humano recuperado do passado. As células fósseis, que depois de redividas, deram origem ao clone, haviam sido retiradas de um trapo velho guardado nos museus. Não que fosse uma peça importante, era algo relativo a uma religião esquecida há uns 200 anos, mas preservara, acima da lógica, de uma forma superior aos demais materiais, suas células fósseis. Fôra aliás por um acaso absoluto que os cientistas descobriram a preservação superior dos fósseis daquela peça de tecido esfarrapado. Já haviam clonado alguns seres a partir de materiais recolhidos em museus. Por exemplo: os pintores Picasso e Dali, (havia células fósseis preservadas entre as camadas de tinta de suas obras); Zelda e Scott Fitzgerald; Fred Astaire; Isadora Duncan, Isabel Vasconcellos, Indira Ghandi, John Kennedy e Lennon, por exemplo, todos tinham alguma coisa em museu.Ou uma roupa, um manuscrito, qualquer objeto que guardasse células fósseis... Clonaram esses e muitos outros, todos outrora considerados gênios, mas também loucos.

 

Mas o primeiro ser humano a despertar (abrindo uns límpidos olhos de mel) foi aquele fruto do acaso. Aquele líder religioso esquecido e pouco estudado. O  sudário, como fôra identificado desde a proveta.

 

Talvez porque ele sempre soubesse como ressuscitar.

Talvez porque ele tivesse sido, na História, o primeiro a acreditar no princípio da Enésima Chance.

 

 

Bel, 1999, dezembro, 13

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