Claras
- SAUDE&LIVROS Fomm
- há 4 dias
- 8 min de leitura

por Isabel Fomm de Vasconcellos Caetano
assista vídeo onde conto essa história - Programa As Bruxas TV Paradise
Luzia morou 60 anos naquela casa. Ela, o grande amor da sua vida, Júlio, as muitíssimas plantas do jardim e o papagaio, Paco.
Ela conhecera Júlio quando tinha 20 anos e ele, 35. Fôra amor à primeira vista. Ele, viúvo, de mulher jovem morta em acidente de trânsito, e ela, noiva de outro e de casamento marcado. Teria sido um erro, Luzia reconhece, porque, ao encontrar em Júlio sua alma gêmea (e soube disso assim que o viu), entendeu que estivera prestes a se unir a um homem a quem ela, de fato, não amava. Desmanchou o noivado e, apenas um mês depois, estava se casando com Júlio.
Um de seus tios, tido pela família como excêntrico e quase louco, o Almeidinha, trouxera de presente para os noivos, uma gaiola encapada e lá dentro, um papagaio novinho, mal saído da infância. Presente tão extravagante como ele próprio, um advogado criminalista, muito bem sucedido nas causas que defendia, que era também um sábio Rosacruz e um jogador contumaz. Os noivos riram muito quando a gaiola teve sua cobertura retirada e ficaram imediatamente encantados com aquele pássaro exótico.
Agora, em 13 de maio de 2026, quando se completavam 60 anos de seu casamento, Luzia tomava consciência de que, passados cinco anos da morte de Júlio, ela também queria partir. Não que desgostasse da vida. Ao contrário. Gostava. Tinha amigos, adorava sua casa, curtia aquele mágico jardim que, há seis décadas, cultivava com suas próprias mãos, e tinha a adorável companhia de seu papagaio, Paco. Mas, aos oitenta anos de idade, acreditava que estava na hora de ir-se embora, de deixar esse planeta e preparar-se para novas aventuras pelo Universo.
Antes, porém, de ordenar ao seu corpo que entupisse suas coronárias, colocou um anúncio nas redes sociais:
“Viúva vende casa antiga na Vila Madalena, em São Paulo. 4 quartos. 2 suítes. Vasto jardim. E demais dependências. Contrato de venda com duas cláusulas pétreas: o novo proprietário terá que conservar o jardim e tutelar o papagaio da casa até sua eventual morte. Por isso, a casa está à venda pela metade do preço do mercado”.
“Metade do preço do mercado” atraiu muita gente. Mas Luzia logo percebia que aqueles candidatos a compradores não compreenderiam a necessidade de realmente preservar o seu mágico jardim e, muito menos, a convivência com o Paco.
Até que, finalmente, apareceu aquela moça, com uma aura luminosa e um nome idem: Blanca.
Luzia compreendeu que Blanca era a verdadeira herdeira de seu mágico jardim e de seu sábio papagaio, Paco.
Fechou negócio com ela e, no dia seguinte ao ato de lavrar a escritura, ordenou às suas coronárias que se entupissem e que, por fim, a levassem nessa nova viagem entre as estrelas.
Blanca mudou-se então para a casa que fôra de Júlio e Luzia. Trocou poucos móveis, conservou a maioria dos quadros e instalou-se naquela casa que, de fato, era grande demais para ela sozinha, mas que parecia do tamanho certo para a sua alma e para receber os seus muitos amigos...
Blanca estava feliz. Luzia tinha dito a ela que vivera 55 anos de um casamento maravilhoso ali, com o seu marido, Júlio e que, embora tivesse vivido também o luto pela morte dele, jamais deixara de ser feliz porque era grata à vida, por tudo o que lhe proporcionara: o amor, a velhice sadia, Paco, o jardim com suas árvores e plantas amadas e aquele canteiro de ervas mágicas, que ela sabia muito bem misturar e manipular, para criar seus chás com os mais diversos fins. Mostrou à Blanca onde guardava o HD externo que continha todas as receitas desses chás porque sabia, desde que a vira, que aquela seria sua sucessora não só na casa, mas também no trabalho de uma vida. Antes de ordenar às suas coronárias que entupissem, Luzia teve uma longa conversa com Paco, o papagaio, e disse a ele que iria partir, mas que ele deveria amar e respeitar sua nova tutora e nova dona do lugar.
Por tudo isso, Blanca imaginava que o ar, ali na casa, era mais leve. Adivinhava ainda uma energia boa, positiva, construtiva, cercando cada objeto e cada ser vivo, desde Paco, plantas, abelhas e insetos. Assim, resolveu inaugurar a casa dando um almoço, no sábado seguinte à sua mudança, para todos os seus mais queridos amigos e familiares.
A mudança acontecera na segunda-feira. E, Alice, a velha empregada (cozinheira, lavadeira, arrumadeira e confidente) de Luzia também ficara feliz porque a nova patroa não iria dispensá-la. Recebeu-a com entusiasmo e ajudou-a a se instalar com as coisas que trouxera e a mudar o que queria na disposição dos móveis e na decoração. Paco, por sua vez, aprendera com Luzia o que tinha que dizer à nova tutora. Ela mal pusera os pés na casa e ele, lá do seu poleiro, no hall de entrada: “-- Blanca, iluminada e forte!”
Alguns dias depois, pela manhã, ao sair para o trabalho, quando passou por Paco e disse-lhe “tchau, Paco”, esse respondeu:
“-- Quinta-feira. Hoje é a primeira quinta-feira!”
Ué – pensou Blanca – ele nunca falou nada sobre os outros dias. Haverá algo de especial nas quintas-feiras?
À tarde, na redação do jornal onde trabalhava como editora de moda, recebeu um What’sApp da Alice: “As quatro amigas de Luzia que visitavam o jardim ao entardecer da primeira quinta-feira do mês, perguntam se podem continuar a fazer isso e se for possível então gostariam de convidar a nova dona da casa a participar dessa reunião”.
Blanca respondeu com uma pergunta: “Essa reunião tem um propósito?”
Alice respondeu: Clarice, Bianca, Lusimar e Lúcia, explicarão tudo a você, caso queira participar.
Blanca pensou: Bom... Uma vez por mês... Não é muito... E, se era importante para Luzia, será importante para mim também.
Blanca até apressou sua saída do trabalho para, naquela tarde de verão, chegar a tempo para o pôr do sol. Esperava encontrar quatro senhoras idosas, como julgava que seriam as amigas de Luzia, mas surpreendeu-se com a juventude delas. Clarice não parecia ter ainda 20 anos, Bianca estaria próxima dos 30, Lusimar, não mais de 60 e Lúcia, talvez lá pelo meio dos 40. Saudaram Blanca como se fosse uma velha amiga. Sentaram-se em círculo, sobre a terra e debaixo de um grande Chorão que despejava suas pequenas folhas forrando o chão como se tapete fosse e cujos galhos desciam até as cabeças das mulheres ali, ao seu lado. Blanca sentou-se com elas e deram-se as mãos. Durante mais de duas horas, com a noite de lua cheia caindo sobre o jardim, narraram os problemas e dificuldades que estavam sendo enfrentados por pessoas de seu relacionamento e discutiram a melhor forma de ajudar a cada uma delas. Fosse com um dos mágicos chás do HD de Luzia, fosse com uma conversa franca, fosse pedindo a interferência do Cosmos e de suas estrelas. Para decidir o melhor caminho, algumas vezes se valiam da consulta ao Tarot, outras se colocavam em estado de meditação – as mãos de todas sempre unidas – e esperavam que a intuição de uma delas, ou de mais de uma, se manifestasse.
Esse – explicaram à Blanca – era um dos muitos grupos de Clarissas que existiam na cidade e no país. Intitulando-se como discípulas de Santa Clara, a parceira de São Francisco, adotavam nomes que remetessem à ideia de luz e seu objetivo era simples demais: auxiliar a quem estivesse por perto e em dificuldades, a resolver seus problemas. E riram, dizendo que Luzia (que oficialmente se chamava Jeannette) encontrara uma discípula – Blanca – que não precisaria rebatizar-se para unir-se às Clarissas.
Santa Clara – explicaram – fôra uma menina nascida numa família aristocrata da Idade Média. Mas, inconformada com seus próprios privilégios, diante da condição da maioria do povo, jogou tudo pro alto e se uniu aos franciscanos, que viviam com simplicidade na pobreza, e amavam os bichos, as plantas e tudo o que está vivo sobre a terra. Clara tinha o poder da Visão. Tanto que o papa Pio XII, por isso, em 1958, fez dela a Padroeira da Televisão.
Aquele primeiro encontro no jardim foi uma experiência marcante para Blanca. Pensara ela em perguntar porque, afinal, aquelas mulheres tinham sido levadas a dedicar parte de seus dias a auxiliar pessoas que talvez nem mesmo ficassem sabendo que elas tinham tido um papel na solução dos seus problemas ou outras que, sabendo, em vez de ficarem gratas, considerariam isso como uma invasão em sua vida privada, ou, ainda, correrem o risco de estar ajudando a quem não merecia isso, um bandido, um pedófilo, um estuprador, um político corrupto... Pensara, sim, mas não chegara a perguntar porque, a medida que a reunião se desenvolvia, a energia gerada por aqueles solidários propósitos, pelas preces, pela meditação ia, aos poucos, preenchendo a alma e o coração de Blanca com uma paz, uma serenidade, que poucas vezes na vida ela experimentara.
Terminada a sessão no jardim, Blanca convidou as moças para uma taça de vinho na sala, imaginando se Alice ainda estaria acordada e disposta a uma horinha extra para servir alguma coisa a elas que, a essa altura, já deveriam estar com fome.
Quando passaram pelo hall, Paco, no poleiro, disse:
-- Alice sabe tudo!
E qual não foi a surpresa de Blanca ao ver que, na sala contigua à de visitas, estava uma mesa de jantar perfeitamente posta para seis pessoas.
Assim, as quatro Clarissas, acompanhadas por Blanca e por Alice, sentaram-se para saborear um maravilhoso risoto de legumes acompanhado por vinho branco, chileno, seco. Foi uma das mais agradáveis e emocionantes noites de Blanca nos últimos tempos. A conversa entre as Clarissas, a Alice e ela, era rica, inteligente, estimulante...
Ao acompanhar as moças até a porta, passando novamente por Paco, esse disse: Bons sonhos, minhas Clarissas!
Danadinho esse papagaio – pensou Blanca – ele está por dentro de todas as coisas!
Mas, ao entrar de volta na casa, o que Paco disse foi ainda mais surpreendente:
-- Meditar e Rezar abrem as portas da Visão!
Imediatamente, Blanca se percebeu pensando na solução de um problema que vinha lhe escapando na concepção de uma matéria para o seu jornal.
E, assim, ao longo daquele primeiro ano na casa, Blanca foi se tornando uma verdadeira Clarissa. Ela, que sempre se orgulhara de sua racionalidade, descobriu que seu cérebro tinha um lado direito, onírico! Aprendeu a ver com os olhos da intuição. Aprendeu os segredos do poder e da força dos pensamentos, moldando a realidade. Aprendeu a manipular as ervas para efeitos curativos ou mentais. Aprendeu como trabalhar para que as palavras se transformem em poder. E aprendeu a decifrar a linguagem das plantas e das árvores, pois ela própria começou, como também Luzia, a cuidar do jardim.
E, daquele primeiro sábado e encontro com amigos, sua casa e seu jardim se transformaram num point, sempre reunindo pessoas queridas em momentos de grande alegria. Um dia, numa dessas reuniões festivas, alguém levou um amigo e o apresentou à Blanca. Era o Guilherme. Os dois imediatamente grudaram um no outro. E no fim de uma tarde e de uma noite de grandes conversas, entendimentos, abraços, mãos dadas e beijos, ele disse a ela:
-- Você jamais aceitaria deixar essa casa, não é?
-- Jamais! – respondeu ela de pronto.
E ele:
-- Então sou eu quem vai ter que se mudar para cá!
E Paco, empoleirado num galho de árvore, no jardim, ao lado deles:
-- A história sempre se repete.
Bel, 2026, março, 31



Comentários