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A Hora Certa

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    SAUDE&LIVROS Fomm
  • 9 de abr.
  • 5 min de leitura

Dali, 1931, A Persistência da Memória, detalhe.
Dali, 1931, A Persistência da Memória, detalhe.

por Isabel Fomm de Vasconcellos Caetano

Assista ao programa AS BRUXAS da TV Paradise, onde conto essa história.


Clélia sempre sabia a hora certa de fazer qualquer coisa. Por exemplo, estava, havia dias, pensando numa cliente que deixara de fazer vestidos com ela já há quase um ano. Pensava em contata-la, mas não por mensagem nas redes; falar mesmo, ao telefone, no viva-voz. No entanto sabia que aquela cliente era difícil, um socialite badalada, com uma agenda muito cheia. Nunca se sabe qual a melhor hora para ligar. As três da tarde, num impulso, ligou. Resultado: na semana seguinte a cliente foi ao atelier de Clelia e encomendou dois vestidos de festa.

 

Hoje, só as muito ricas mandavam fazer vestidos exclusivos e sob medida. A maioria esmagadora das mulheres comprava os trajes prontos, prêt-à-porter, ainda que o fizessem em lojas de grife, com a assinatura de famosos costureiros internacionais. Por isso o atelier de Clelia era frequentado pelas mulheres mais ricas e mais importantes da capital paulistana e também do interior do estado e de outras partes do país, principalmente de Brasília.

 

Clelia sempre pensava que ela e sua prima, a bruxa Circe, eram as duas prestadoras de serviços que mais milionários tinham em suas carteiras de clientes.

 

Mas, apesar disso, há mais de um ano, Clelia vinha lutando com os altos juros do crédito no Brasil. Se cobrava bem pela confecção dos trajes, também tinha despesas altas para manter o atelier. Bairro nobre. Aluguel caro da bela casa. Salários bons para as boas profissionais da confecção que trabalhavam com ela. Encargos sociais. Muitas licenças-maternidade. Jardineiros. Diaristas para limpeza. E o faturamento começara a cair a partir do final de 2024. Resultado: endividara-se, sempre esperando que o próximo mês trouxesse melhores resultados...

 

Pelo menos tinha achado a hora certa de trazer aquela importante cliente de volta; talvez, com essa, voltassem outras que também andavam sumidas. A verdade – pensava Clélia – era que até as ricas estavam com o pé no freio. A tal da prosperidade parecia ausente em muitos setores da economia brasileira naquele momento.

 

Clelia estava se estranhando, nos últimos meses. Ela, que sempre fôra tranquila, que sempre trabalhara com alegria e segurança, que sempre fôra financeira e afetivamente estável, agora estava completamente perdida: suas contas no vermelho e seu coração inteiramente tomado por aquela paixão absurda. E tudo isso fazia com que julgasse ter perdido a proverbial capacidade que, pela vida afora, sempre a acompanhara: a de saber exatamente a hora certa de fazer alguma coisa. Consolava-a agora ter tido o insight de ligar para aquela cliente no momento mais oportuno.

 

Mas... e essa paixão? Fazer o que com ela?  Era o sentimento mais improvável do mundo. De repente, ela sonhara com ele, ele, Ernesto Gavaldan, o rei dos tecidos nobres. E acordara louca de tesão, completamente apaixonada, por um homem que poderia ser seu pai.

Por um homem de quem ela pouco sabia.

 

Não sabia se era de direita ou de esquerda (empresário bem sucedido, podia ser até bolsonarista) e ela votava no Lula. Mas sabia que ele era louco por escolas de samba e até contribuía para a Vai-Vai. Escolas de samba eram completamente indiferentes à Clelia, que nada entendia do assunto e nem mesmo assistia aos desfiles pela TV. Sabia que ele era louco também por futebol, sendo um torcedor do São Paulo FC, sócio do clube e diretor social. Para Clelia, o futebol era apenas mais um dos ópios do povo, como a religião. E, por falar em religião, sabia que ele católico fervoroso, desses que vai à missa todos os domingos, enquanto Clélia era ateia (pra rimar com o nome dela).

 

Além de tudo disso, embora ainda em forma e muito bonitão, era, no mínimo, um quarto de século mais velho que ela. Clelia ia fazer 30 anos em 2026 e ele deveria estar quase nos 60. Foi ao Google e confirmou todas essas informações que tinha sobre ele: viúvo, nascido em 1968, rico, sua empresa líder no setor têxtil, católico, filiado ao PSD (“menos mal – pensou ela diante desse dado – pelo menos é um partido de centro, não é PL”)

 

Então, por que, com mil demônios, depois de um simples sonho erótico, ela agora se sentia perdidamente apaixonada por ele? E por que sonhara com ele? Ele nada significara para ela, até então.

 

Desde que estava no ramo da confecção, ela o conhecia. Quase 12 anos. Ouvira-o palestrar em congressos e encontros do setor. Encontrara-o em eventos, festas, jantares..., mas nunca poderia imaginar que, um dia, se apaixonaria por ele, como apaixonada estava agora.

 

Uma semana depois do sonho, inscreveu-se numa live da indústria têxtil, da qual ele participaria. Diante da imagem dele, ouvindo-lhe a voz, decidiu que, da próxima vez que o encontrasse, daria um jeito de se declarar. Sabia que ele ficara viúvo havia cerca de uns dois anos. Fôra assunto em seu clube, a fechada e tradicional agremiação que reunia a aristocracia paulistana e da qual tanto ela quanto sua prima Circe eram sócias desde que nasceram, graças aos títulos de suas famílias.

 

Começou a pensar numa boa desculpa para mandar uma mensagem para ele numa rede social qualquer. Mas não acreditava que seria uma boa ideia. Ideal mesmo seria encontra-lo pessoalmente em algum evento... Foi então que uma solução diferente apareceu. Usaria um recurso pré Graham Bell, pré telefone, pré telégrafo, pré tecnologia: a força do pensamento.

 

Assim, todas as noites, a partir de então, antes de dormir, Clelia esvaziava sua mente e se concentrava numa cena, num local e numa data: Ele almoçava sozinho numa mesa do restaurante do segundo andar do clube, ao lado dos janelões envidraçados que deixavam ver a piscina. E a data era domingo, 22 de fevereiro de 2026. E, além da imagem mentalizada, ela repetia em pensamento: “Ernesto Gavaldan, vá almoçar no Clube Paulistano no domingo, 22 de fevereiro de 2026, às 13h30, sente-se à mesa que está do lado esquerdo da porta, em frente dos janelões, junto à parede.”

 

O sonho dela acontecera em 20 de dezembro de 2025. E começara a mentalização em 2 de janeiro de 2026.

 

Tinha absoluta certeza que daria certo.

 

Sem nenhuma ansiedade, no domingo, 22 de fevereiro, às 13h30, Clelia entrou no estacionamento do clube. Foi direto ao restaurante e lá estava Ernesto, sentado sozinho à mesa à esquerda da porta, em frente aos janelões.

 

Clelia se aproximou:

-- Olá, Ernesto. Prazer em encontra-lo aqui. Eu estava mesmo querendo conversar com você sobre uma nova coleção que pretendo criar com tecidos seus.

 

Viu o enorme espanto que apareceu nos olhos dele.

-- Olá, Clelia! Prazer também em encontrar a dama das mãos de fada do atelier de costura Miss Universo. Veio encontrar alguém?

 

-- Não, não. Vim almoçar sozinha mesmo.

 

-- Então dê-me a honra de sentar-se comigo e poderemos falar sobre sua nova coleção.

 

Conversaram, durante o almoço, não só sobre a nova coleção, mas também sobre a vida, a filosofia, a música, a literatura e até sobre a política.

 

Duas horas depois, já dividindo a segunda garrafa de vinho, ele disse:

-- Não sei se você notou a minha grande surpresa ao encontra-la aqui. É que, apesar de nós dois até agora apenas nos conhecêssemos profissionalmente, não sei bem porque, essa noite eu sonhei com você!

 

Clélia sorriu. Mais uma vez tinha feito tudo exatamente na hora certa.

 

Bel, 2026, abril, 04.


 

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