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O Espelho (ou A História Quase Invisível)

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    SAUDE&LIVROS Fomm
  • há 17 horas
  • 30 min de leitura

Atualizado: há 7 horas

por Isabel Fomm de Vasconcellos Caetano


Assista vídeo onde conto essa história (mas a leitura é mais completa!!!) TV Paradise, As Bruxas


O Espelho Giovanni
O Espelho Giovanni

Quando Maria Júlia, às vezes, para e olha de fato para trás, percebe que a única conclusão a que pode chegar é que é todo o tempo — sempre — a mesma, a mesmíssima história, a história da Humanidade, a que antes já tinha sido.

 Mudam pequenos detalhes de produção — cenário, contexto, atores, técnicos — e mudam os códigos, para viver, em essência, uma mesma história.

 Não fica difícil, pois, para quem, como Júlia, olha de frente para o passado, olhar mais a frente de si mesmo. (É como ler o livro no espelho).

 Um dia, esse que é o seu momento será apenas mais uma realidade cozida, derretida, pelo amontoado de cotidianos de que é feita a lembrança.

Hoje, o hoje lhe parece tão importante que não pode imaginá-lo fundido nessa massa a que chamam passado.

 Esse, porém, é o destino do hoje.

Saber disso torna-lhe o hoje menos emocionante.

Júlia olha a sua existência como a história no espelho.

Júlia também já é passado.

 

 

1.

1832 – 1915 Caminhos

 

Giovanni se orgulhava da sua arte. Costumava dizer tantas vezes que tinham sido os seus ancestrais venezianos a criar o primeiro espelho perfeito de que a humanidade tinha notícia, que os seus amigos decoraram até mesmo o ano de tal feito.

Segundo Giovanni, fora em 1291 que, pela primeira vez, uma placa de prata e estanho fora aplicada sob uma folha de vidro sem falhas e criara, afinal, o primeiro espelho. Mas o mestre escola do lugar o contestava, dizia que 300 anos antes de Cristo, os romanos já fabricavam espelhos perfeitos, afirmação essa que deixava Giovanni com os poucos cabelos, que lhe restavam, em pé.

Nada disso, protestava ele, nada disso, o primeiro espelho perfeito fora fabricado em Veneza, em 1291, e começava a contar uma história complicada sobre o envolvimento de seus distantes antepassados na longa trajetória dos artefatos de cristais e na manufatura dos espelhos que ele, orgulhoso, agora exportava para todo o mundo.

Giovanni tinha uma grande oficina em Veneza, onde criava os mais belos objetos de cristal e os seus famosos espelhos, com molduras invejáveis que saíam das mãos de seus carpinteiros (verdadeiros escultores, gritava ele) que passavam horas e horas a cortar, lixar e entalhar cuidadosamente as mais nobres madeiras.

Foi assim que surgiu o espelho dessa história.

Em 1832, mais de seiscentos anos depois do primeiro, o espelho em questão saiu da oficina de Giovanni para a casa de um rico comerciante, famoso por sua generosidade para com todos os tipos de artistas e, por isso, chamado de Mecenas de Veneza, Enrico Donizette. Era um espelho simples, com dois metros de altura por um metro de largura, retangular, atado a uma moldura de madeira nem tão nobre que, por sua vez, se prendia por dois parafusos às partes verticais de uma moldura maior apoiada em quatro pés, fazendo assim com que a folha de cristal se inclinasse para que uma pessoa contemplasse sua própria imagem em vários ângulos. Destinava-se tal artefato às casas de costura, às modistas, ou aos quartos de vestir das senhoras muito ricas, que poderiam, dessa forma, perceber que impressão causariam usando este ou aquele traje.

Na sofisticada morada dos Donizetti, o espelho passou a refletir muitas das ilustres personalidades que passavam por Veneza na segunda metade do século XIX, como, por exemplo, em 1851, Giuseppe Verdi ou George Sand, quando escreveu, em frente a ele, sua famosa carta à Alfred de Musset em 12 de maio de 1834.

Assim, o espelho ficou na sala íntima de Madame Donizetti por décadas até o destino resolver que o herdeiro de Enrico Donizetti, Vicenzo, se metesse em grandes trapalhadas comerciais e tivesse que, desesperado, abandonar a cidade, deixando para trás o glorioso passado de sua família, as amizades intelectuais, a vida de conforto e de alta posição na sociedade.

Na hora de acomodar, no meio da noite, os poucos pertences inestimáveis e o que restava de objetos de valor, nas gôndolas que levariam a família e seus móveis ao cais, a mulher de Vicenzo ameaçou fazer um escândalo se não levassem também o seu amado espelho Giovanni, do qual tanto sua sogra se orgulhara.

No ano de 1899, migrou a família para o Brasil e, no navio que os trouxe, veio o espelho, sempre sob o olhar vigilante da senhora Donizetti.

Aportaram, depois de uma viagem estafante, no Rio de Janeiro e, com o pouco ouro que lhe restava, Vicenzo alugou uma boa casa para instalar sua família e seus pertences e procurou reiniciar um pequeno comércio naquela cidade de bárbaros. Uma febre brava matou sua mulher logo nos primeiros meses depois da chegada da família. Vicenzo se viu só com dois filhos para criar e arranjou uma preta velha, que fora escrava, para fazer as vezes de governanta.

Poucos anos depois, Vicenzo, que tinha um tremendo talento para gastar além de suas posses, viu seu estabelecimento ter decretada a falência.

Entre os credores, estava o velho Antônio Mauadie, famoso mascate que possuía algumas carroças, que viajavam pelas precárias estradas do país, levando as mais ricas mercadorias para as cidades mais distantes e negociando-as com os prósperos próceres locais.

Ainda bem que minha mulher não está viva para ver o seu rico espelho desmontado, embalado e acondicionado numa dessas carroças – pensou Vicenzo quando o mascate lhe disse que seu destino eram as Minas Gerais.

Numa bela tarde de outono, a carroça adentrou os portões da suntuosa fazenda Soledade, reduto de José de Almeida, que fizera fortuna nos garimpos e era então um dos mais importantes cidadãos do município de Juiz de Fora.

José acabara de receber, em suas terras, parentes imigrantes, muito menos favorecidos do que ele próprio, vindos da Ilha da Madeira: uma de suas irmãs, que ele não via desde muito menino, e as quatro filhas dela. Um bando de mulheres desamparadas pela morte recente do cunhado de José, que se metera em confusões políticas e morrera assassinado.

Com o alvoroço que sempre causava a chegada da carroça (com suas sedas orientais, seus mimos vindos de terras impensáveis e seus reluzentes cristais), reuniram-se todos os membros da família a admirar as riquezas que os mascates traziam.

Foi então que a jovem Maria Júlia, uma das sobrinhas recém chegadas de José, encantou-se com o espelho veneziano de Giovanni. Era uma moça prendada, cujas primas apelidaram de “mãos de fada”, já que de seus dedos ágeis, brotavam os mais lindos vestidos, que ela cortava, sem medir, e costurava com uma habilidade e um bom gosto invejáveis. 

Maria Júlia sonhava colocar a sua arte do corte e costura ao alcance dos ricos fazendeiros locais e, ao ver o espelho, montado ao lado do chafariz do jardim principal da casa da fazenda, ficou quase histérica. Além de lindo, era perfeito: refletia sem defeitos a imagem de seu corpo, sem distorcer. Era um sonho. Correu para o seu tio e implorou que ele o comprasse para ela, para fazer parte do atelier que pretendia montar na cidade.

José, cuja súbita riqueza o fizera também generoso, não só comprou o espelho como prometeu financiar o negócio de Maria Júlia, cedendo-lhe um imóvel que possuía no centro da cidade para que ela montasse uma pequena oficina de costura.

Foi assim que, em 1904, o espelho de Giovanni foi parar num pequeno sobrado da cidade de Juiz de Fora.    

José instalou Maria Júlia, sua mãe e suas três irmãs, no andar de cima da casa, onde mandou fazer uma bela cozinha e quebrou as paredes do andar de baixo, criando assim uma sala muito grande, bem mobiliada, onde passou a funcionar a oficina. Comprou ainda duas máquinas Singer, uma coleção de tesouras, muitos aviamentos e algumas peças de tecido, para que a rica freguesia de Maria Júlia pudesse escolher modelo e fazenda (como se chamavam então os tecidos) de seus trajes. Tudo veio das carroças dos turcos, menos as máquinas de costura, que José mandara buscar na capital do país, numa importadora.

O espelho de Giovanni, que refletira a fina flor da intelectualidade europeia, logo passou a refletir as mais abastadas damas da sociedade local.

No começo, Maria Júlia fazia tudo: cortava, costurava, chuleava, pregava botões. Mas logo as irmãs foram aprendendo também o difícil ofício. Júlia era uma professora muito exigente e fazia as irmãs treinarem os pontos e os caseados em pequenos retalhos, os famosos “panos de amostra” até que o serviço fosse considerado, por ela, perfeito. Só então, depois de algumas longas semanas de treino, permitia que as moças começassem a dar acabamento nos vestidos das freguesas.

O talento de Júlia logo foi reconhecido e, a cada dia, vinham mulheres de lugares mais distantes, até mesmo da capital do estado, atraídas pela fama da costureira portuguesa que se instalara em Juiz de Fora.

Moças pobres começaram também a frequentar o atelier, procurando aprender a profissão e logo as duas máquinas eram pouco para atender a demanda. Júlia mandou buscar mais duas. E agora só cortava os vestidos e vigiava, com olhos mais afiados do que as tesouras, o trabalho da confecção. Cada vestido exigia, no mínimo, que a freguesa voltasse ao atelier duas vezes para a primeira e para a última prova.

Assim, até o dono da hospedaria começou a ver simpatia olhos o trabalho de Júlia, pois este acabava fazendo com que sua casa recebesse ricas damas da capital mineira que vinham para a cidade apenas para vestir-se com Madame Júlia.

Um dia, a sobrinha do presidente das Minas Gerais, que fora à Juiz de Fora para que a costureira lhe renovasse o guarda roupa de festa, disse a ela:

- A Madame está perdendo tempo nesse lugar pequeno. Deveria transferir-se para a capital federal ou mesmo para São Paulo. Lá, sim, estão damas com muito dinheiro e de bom gosto, que viajam frequentemente à Europa e sabem reconhecer um traje bem cortado. 

A ideia plantou uma sementinha na mente de Júlia, e o pensamento foi crescendo. Poderia ir para São Paulo, vestir as esposas e as filhas dos ricos, viveria numa cidade maior, com mais oportunidades.

Um dia pegou o trem. Foi a São Paulo e procurou uma casa para alugar, sabendo que, nos primeiros tempos, teria que usar o dinheiro que economizara até que se firmasse com as primeiras clientes. Mas Júlia pretendia, inclusive, anunciar nos jornais que se estabelecera na cidade.

Para a tristeza das freguesas mineiras, Júlia mudou-se para a capital paulistana em abril de 1908. E com ela, além da mãe viúva e das irmãs e das máquinas de costura, veio também o espelho. E veio ainda, na bolsa, guardada como um tesouro, a carta da sobrinha do presidente das Minas Gerais recomendando o trabalho de Júlia a uma importante matriarca local.

Instalaram-se numa casinha numa travessa da Avenida Paulista. Logo os vestidos de Madame Júlia conquistavam as paulistanas dos arredores. E nos arredores estava então se instalando a fina elite de São Paulo. Em 1891, Joaquim Eugênio de Lima inaugurara sua mais grandiosa obra na cidade, a própria Avenida Paulista, que pretendia ser um boulevard, inspirado nos europeus, abrigando as residências das ricas famílias da província.  No começo o loteamento, em que o urbanista investira tanto dinheiro, parecera destinado ao fracasso. Mas, a partir de 1895, quando o rico industrial, Von Bullow, ergueu o primeiro casarão ali, muitas famílias ilustres o imitaram, como as de Francisco Matarazzo e Henrique Schaumann.

À medida que mansões iam se erguendo à beira do leito de pedras brancas da avenida, o ateliê de Júlia ia crescendo e o espelho, guardando a imagem das mais famosas damas da sociedade paulista e de suas filhas e noras.

Foi no verão de 1911 que Júlia conheceu um atraente dentista baiano, Artur Clemente de Souza, à cadeira de quem fora levada por um abcesso. Apaixonaram-se, paciente e dentista, e viveram um tórrido caso de amor.

O espelho viu a ansiedade e o medo nos olhos de Júlia, mas viu também o fogo da paixão.

No mesmo dia em que, naquele inverno, Júlia voltava do médico com a notícia de sua gravidez, seu amante era morto, em plena Rua Direita, por sua outra amante, que descobrira seu caso com Júlia.

Enciumada, a assassina abraçara o homem, quando o encontrara na rua, carregando uma faca que lhe enterrara no abdômen. O amante de Júlia sangrou, pelas mãos de sua outra amante, até morrer.

A notícia, naquele tempo em que os crimes ainda não eram uma banalidade, foi parar em todos os jornais. Ao lê-la, na manhã seguinte ao crime, Júlia desmaiou.

São Paulo, naquele começo do século XX, era uma cidade de 350 mil habitantes, 70 mil dos quais eram operários. A elite elegera o chamado Triângulo, formado pelas Ruas Direita, São Bento e XV de Novembro, o lugar mais chique da cidade. Lá estavam as melhores lojas, os melhores cafés, os bancos, as grandes livrarias, os mais conceituados escritórios. E fora ali, no triângulo, que a outra amante de seu amante acabara com os seus sonhos de amor e condenara o filho que ela trazia no ventre a nascer sem um pai.

Vivendo a euforia da paixão e a alegria da gravidez, Maria Júlia viera para casa na tarde anterior -- na mesma hora em que ele morria -- cantarolando, imaginando seu bebê a nascer numa bela casa, onde ela e o amante passariam a viver juntos, casados e felizes. Sim tudo iria mudar para melhor – sonhava ela.

Nesse estado de espírito é inimaginável a ideia de morte. O assassinato de seu amante seria a maior bofetada que ela levaria da vida, maior ainda do que o assassinato de seu próprio pai.

Num único tranco seus sonhos se transformariam em pesadelos. Era inconcebível uma mulher solteira, grávida. Isso afastaria suas distintas clientes. Ela iria à bancarrota.

Fingiu estar doente, para poder chorar a sua perda em paz, trancada no quarto. Uma semana depois emergiu de sua dor e cinco semanas depois embarcou num navio para Portugal, com a mãe, e durante os meses da viagem, Júlia apertava sua barriga de grávida dentro de cintas justíssimas. Quase não comia, para engordar o mínimo possível. 

De volta a São Paulo, trabalhou como louca, cortando vestidos por dias e  dias seguidos. Entregou-os às irmãs e às outras costureiras para acabamento e foi para Soledade. Explicou ao seu tio José de Almeida e à sua tia Geraldina, a história triste de sua gravidez. José e Geraldina compreenderam o drama da sobrinha, embora condenassem a sua aventura, e prometeram entregar a criança aos cuidados de uma família de imigrantes italianos que se instalara na fazenda.

Um mês depois nascia Antônia, sua filha.

Julia voltou para São Paulo e deixou o bebê na fazenda, aos cuidados dos italianos e de uma ama de leite. 

Dedicou-se ainda mais ao trabalho. A dor da perda do amante somava-se à dor de ter que esconder de todos a sua filha.

Até que esse turbilhão de coisas se alastrasse pela sua vida, se Júlia não era exatamente de uma grande alegria, não era tampouco dada às tristezas. Tinha uma seriedade bem humorada, um orgulho de fazer sempre o que devia ser feito.

Órfã de pai, imigrara com a mãe e as irmãs deixando para trás a terra em que nascera, o universo em que crescera, as amizades, tudo. Mas dera-se bem em sua nova vida. Era ainda muito moça e já tinha uma respeitada casa de moda em São Paulo, com freguesia entre as mais aristocráticas, e ricas, famílias da capital paulistana. Mas se, antes, isso lhe proporcionava uma alegria seca, agora nada parecia aplacar a dor que se instalara em seu peito e vivia, dia e noite, com ela. Por isso, e não por ambição, Maria Júlia atirou-se ao trabalho. Seu atelier cresceu ainda mais.

Certa tarde, um distinto e aristocrático senhor que acompanhara uma de suas filhas para as provas de seu vestido, no atelier, convidou Júlia para um almoço “estritamente de negócios” e lhe propôs sociedade: Ele a instalaria numa casa maior, talvez mesmo em plena Paulista, ou muito próximo, decoraria o novo atelier, investiria em novas máquinas de costura, ajudaria a divulgar a moda de Júlia entre as mais importantes famílias paulistanas e, a medida em que aumentassem as freguesas, ele providenciaria mais mão de obra e mais recursos. Dividiriam os lucros.

Assim o atelier de Júlia cresceu em sua nova casa da Alameda Joaquim Eugênio de Lima, quase esquina da Paulista. De modesta costureira de cidade do interior, Maria Júlia passou a ser uma das mais procuradas modistas de São Paulo. Começou a enriquecer.

Em 1914, mandou buscar a filha que apresentou a todos como uma afilhada que ela adotara, pois a menina teria perdido os pais. Ninguém desconfiou. Apenas sua mãe parecia reconhecer na garota os traços ancestrais e começou a pensar que Júlia enjoara demais naquela viagem que fizeram juntas a Portugal e que também parecera estar mais gorda, mais cheia e começou a imaginar...

Em 1915, a mãe de Júlia morreu. No leito de morte, porém, olhou fixamente para a filha e perguntou com voz fraca:

- Diga a verdade, a Antônia é de fato sua filha, não é?

Júlia deixou que as lágrimas lhe escorressem pela face, as lágrimas a duras penas e por tanto tempo reprimidas. Abraçaram-se e a velha senhora morreu nos braços da filha. 

O velório foi realizado no sobrado da Joaquim Eugênio de Lima, no salão principal onde funcionavam a recepção e as provas de vestidos do atelier.

No andar de cima, estava instalada a residência de Júlia e suas irmãs. Colocaram o caixão e as quatro imensas velas bem defronte ao formoso espelho de Giovanni.

Nas primeiras horas daquela noite de inverno, Júlia ficou muito ocupada, recebendo inúmeras pessoas que lá compareceram para prestar as últimas homenagens à sua progenitora.

Mas lá pelo meio da madrugada, as irmãs atarefadas na cozinha (muita coisa para lavar, depois de servir infindáveis licores e petiscos) e no andar de cima, tentando fazer com que a pequena Antônia, assustada com a morte da avó, afinal dormisse, Júlia se viu sozinha na sala, ela e a mãe morta, já meio esverdeada, no caixão aberto. Havia um cheiro horrível no ar, mistura das flores e da cera das grandes velas, suor dormido das muitas pessoas que por lá haviam passado, o fumo dos cavalheiros...

Lá fora, neblina e muito frio. Mesmo assim, Júlia se arriscou a abrir a janela, tentando espantar os odores da morte. Uma golfada de ar gelado, mas puro, penetrou no salão. E um cheiro característico das noites na região da Avenida Paulista. (Muitos anos depois, transformada a cidade, o clima, os hábitos, com a invasão dos automóveis e da impureza dos ares, ainda assim, Júlia conseguiria identificar esse cheiro da noite paulistana).

Mas, naquele momento, sentindo com prazer o ar gelado invadir-lhe a sala, como que a purificando, ela sentou-se bem de frente para o espelho que tanto amava. Estarei sonhando? Pensou, ao ver a imagem refletida no cristal. Não estava lá o caixão, não estava lá a mãe morta, não estava lá a imagem das velas... O que ela via, dentro do retângulo do espelho, era o retrato do mar. Alto mar. Ondas enormes, dia claro, o oceano revolto e de um verde-azul profundo. Chegou a sentir a maresia, o vento quente e salgado, no rosto. Fechou os olhos. Um segundo. Quando os abriu, tudo desaparecera. O imponente espelho de Giovanni mostrava, refletida, a imagem do caixão, das velas, das flores, da sala...

A mente está a pregar-me peças, pensou Júlia, sentindo no corpo o cansaço e na alma, a tristeza da perda da mãe, aquela mulher sempre quieta, sempre firme, que se fora assim de repente, vítima de um mal súbito.

As horas passaram, veio o dia, o cortejo fúnebre, na manhã cinzenta, com aquela garoa fria e típica dos invernos paulistanos. Foi um enterro concorrido. Muitas das freguesas de Júlia estavam lá, com suas famílias. Até mesmo seus tios, que haviam viajado por toda a noite, tinham chegado da Soledade para acompanhar a cerimônia.

O tempo passou e Júlia não pensou mais na estranha visão do mar que o espelho lhe proporcionara naquela noite triste até que, meses depois, sua pequena Antônia, que brincava com suas bonecas na recepção do atelier, dissera de repente:

- Mãe, que anãozinho é esse que mora no espelho?

Júlia levantou os olhos da seda pura que estava cortando e, por um instante fugaz, teve a impressão de ver um velhinho, muito pequeno, dentro do espelho. Tinha barbas brancas e usava um gorro pontudo, como um chapéu de bruxa. Mas foi apenas por um instante. Largou o trabalho e ergueu a pequena Antônia nos braços:

- Você vê um anãozinho dentro do espelho? – perguntou à menina, carinhosamente.

- Ele está sempre lá, mamãe, e eu não consigo falar com ele!

- Como é ele?

- Tem barbas muito brancas, é bem pequenininho, usa um casaco verde, todo abotoado e um chapéu pontudo e vermelho.

- Vai ver que é um duende. – respondeu Júlia.

- O que é um duende, mamãe?

- Duendes são como as fadas, Toninha. São seres encantados que só aparecem para quem tem o coração puro como o seu. Mas é engraçado que apareçam no espelho, pois, geralmente, vivem nas matas, nas florestas.

- Mas dentro do espelho tem também uma floresta – constatou a menina.

E Júlia, subitamente, percebeu que a filha tinha razão. O espelho de Giovanni refletia as muitas samambaias e avencas que, depois da morte da mãe, ela passara a cultivar junto às grandes janelas do atelier, exatamente em frente ao espelho.

Riu, descendo a menina de seu colo:

- Não ligue para ele, Toninha. Ele não faz mal a ninguém. Deixe agora a mamãe terminar de cortar esse vestido.

Antônia cresceu entre os panos, agulhas, ronronares das máquinas de costura e, desde cedo, começou a ensaiar pontos nos panos de amostra.

Aos 11 anos já cortava, com a mesma habilidade e segurança de Júlia, vestidos para as suas bonecas e passava a tarde toda, depois de chegar da escola, a sapear o trabalho das costureiras.

A mãe se dividia entre o orgulho pelo talento da filha e a decepção por vê-la seguir o seu mesmo destino. Embora fosse uma das mais importantes modistas da cidade e tivesse apenas pouco mais de 30 anos, já sentia nas costas as dores causadas por horas e horas sempre debruçada sobre os mais nobres tecidos, os dedos calejados pelo manuseio das tesouras e o coração ressecado por anos da mesma rotina, da mesma vida.

Suas irmãs foram, pouco a pouco, deixando a casa de Júlia. Duas delas casaram e se foram para cidades distantes. A mais velha decidira tornar-se freira e trancara-se na clausura. Júlia vivia agora sozinha com a filha e empregava mais de quinze costureiras. Seu sócio era só sorrisos, o dinheiro corria solto e Júlia agradecia a Deus por poder proporcionar uma boa formação para a sua filha, que estudava num dos melhores colégios da capital paulista.

Embora a menina a chamasse de mãe, todos acreditavam que Antônia fosse uma filha adotiva, que a generosidade de Júlia trouxera de Minas. Ainda bem, pensava Júlia, pois se a garota fosse reconhecidamente uma bastarda jamais teria sido aceita no elegante colégio das freiras.

Mas o sucesso financeiro de Júlia não podia resolver-lhe a solidão.

Já se ia quase uma década e a imagem do amante assassinado ainda lhe doía no peito, como se a tremenda perda houvesse ocorrido ontem.

Levava uma vida monótona, rotineira, regrada. Aos domingos ia almoçar com Antônia no Trianon, um dos poucos passeios tolerados pela sociedade para uma mulher solitária. Frequentava a família do sócio, que a abrigara como se fosse ela própria uma parente, em almoços, aniversários, casamentos, batizados e velórios. Distraía-se com as confidências das freguesas, com suas idiossincrasias, suas futilidades de mulheres ricas. 

Os livros eram seus maiores companheiros e ela aprendeu a ler em francês, língua que conhecera em aulas ministradas por uma famosa professora, que viera para o Brasil há alguns anos e vivia das lições que dava aos filhos da elite paulistana. Às vezes ia ao teatro com alguém da família de seu sócio. Gostava das óperas. Mas dependia sempre da boa vontade dos outros, pois embora financeiramente fosse independente, a sociedade local não veria com bons olhos uma mulher desacompanhada a frequentar eventos culturais.

Correspondia-se, ainda, com a pouca família que lhe restava em Minas, na fazenda Soledade e com as irmãs, que moravam no interior do estado. Mas era uma correspondência morna, formal e que demorava meses para chegar ao seu destino e mais meses para que viesse alguma resposta.

Em 1922, na Semana de Arte Moderna, na saída do teatro, reparou naquele cavalheiro a olhar insistentemente para ela. Dias depois o viu, pela janela do atelier, parado do outro lado da rua, a olhar fixamente para dentro da casa dela. Ele abanou de leve a cabeça e seguiu seu caminho.

Chamava-se José de Almeida, coincidentemente o mesmo nome de seu tio, dono da Soledade, e era contador da Light, a companhia inglesa de energia elétrica, também responsável pelos bondes que cruzavam a cidade. Soube disso quando viu o seu retrato no jornal, uma semana depois de ter reparado nele no teatro.

Alguns dias mais tarde, para a sua surpresa, o viu entrando, braços dados com uma moça elegante, em seu atelier. Apresentou-se a ela e apresentou também sua irmã, Vera, que desejava um vestido de baile.

Júlia, pela primeira vez em muitos anos, sentiu que o coração batia mais forte. Alguma coisa naquele jovem fazia com que ela quisesse, de novo, experimentar o amor.

Naquela noite, depois que Antônia se recolhera ao quarto, desceu ao atelier para buscar um resto da presença dele. Serviu-se de um licor e sentou-se na poltrona que ficava defronte ao espelho. O salão estava na penumbra, iluminado apenas pelo elegante abajur de canto. Júlia viu, de repente, surgir a imagem de uma dama dentro do espelho. A mulher, vestida com trajes do final do século anterior, sorria e parecia querer dizer alguma coisa.

Com os ouvidos da alma, Júlia ouviu:

- Finalmente José a encontrou!

E a visão desapareceu.

Quem seria aquela mulher? Parecera à Júlia estranhamente familiar. Mas percebia, pelas roupas da figura, que ela não pertencia à sua época, e sim a algum lugar do passado.

Júlia pensou nas três vezes que tivera visões no espelho. A primeira fora apenas o mar, o alto mar. A segunda, aquele pequeno duende que sua filha também vira. E, agora, essa mulher. Apertou os olhos e concentrou-se na imagem do espelho que refletia, como sempre, as plantas, os móveis, a visão de sua sala e dela própria. Que milagre era aquele que acontecia, às vezes, no espelho? Por alguma estranha magia guardaria o cristal a memória das milhões e milhões de imagens que já refletira? Procurou concentrar-se nessa ideia e fixou o olhar no cristal. Nada. Mas, de repente, pensou ver um vulto, como uma sombra.

Soube, com uma clareza surpreendente, que aquele espelho guardava, para sempre, as imagens que, um dia, refletira e percebeu, que mais dia menos dia, haveria de encontrar a chave, a forma de acessar aquela misteriosa caixa de lembranças.

Muitos e muitos anos depois, quando Maria Júlia, já com mais de 80 anos, vira-se separada de seu precioso espelho, constatou, com tristeza que, afinal, jamais descobrira como controlar as visões que este lhe mostrara por décadas e décadas.

 

2.

1932 Desencantos

 

Quando Antônia completou 20 anos, Maria Júlia teve a sua primeira e única briga séria com a filha.  Antônia diplomara-se com distinção em seu curso na Escola Normal, aos 17, e dava aulas num tradicional colégio de freiras desde então. Abandonara a costura, para alívio de Júlia, que sonhava com um destino melhor que o seu para a filha, e ficava feliz que outro talento que sobrepusesse na vida de Antônia sem poder, então, imaginar que, um dia, a filha voltaria para as tesouras e agulhas, ainda que brevemente, em busca de sua própria dignidade.

Mas, por enquanto, a mãe vivia insistindo para que ela se candidatasse a uma vaga em alguma universidade e ela vivia adiando. Na verdade, tinha medo. Sabia que as pouquíssimas mulheres que se inscreviam em universidades no Brasil eram frequentemente ridicularizadas pelos colegas, pelos professores e, de fato, pela sociedade em geral. 

Pensava-se que curso superior fosse apenas para homens, que seriam cientistas e/ou grandes profissionais, a elite intelectual que influenciaria os rumos da nação. Cabia às mulheres acompanhá-los, como esposas e mães. Cabia a elas ampará-los nas dificuldades e incentivá-los a ir cada vez mais longe. Fora isso, mulheres cuidavam do lar, da educação dos filhos, no máximo da administração da casa e não tinham nada que se meter nos negócios dos homens. Já era demais, naquele ano de 1932, algumas brasileiras terem tido a petulância de ir às urnas, imitando a moda sufragista da Europa e dos Estados Unidos. Diziam que Getúlio Vargas acabaria dando a elas o direito ao sufrágio, irrestritamente, o que ele terminou mesmo fazendo. Como se mulher tivesse alguma coisa a ver com os destinos da política, como se elas tivessem o discernimento necessário para escolher representantes e governantes... – pensava então a jovem Antônia.

Maria Júlia vivia comparando a filha à Carlota Pereira de Queiroz, que se formara com mérito na Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, em 1926. Recentemente, durante a revolução constitucionalista, a Dra. Carlota ganhara grande fama ao liderar um movimento de setecentas mulheres que davam assistência aos soldados feridos. A grande tristeza de Maria Júlia era ver que a sua própria filha não tinha a garra e a determinação de Carlota e, dois anos mais tarde, quando a médica veio a ser a primeira mulher eleita para a câmera federal, secretamente Julia choraria de alegria e de tristeza. Alegria por ver uma mulher finalmente ocupando um espaço político importante e tristeza por sua filha, que não seguira o mesmo caminho.

Estavam em 1932. Em fevereiro, no dia 24, o voto afinal fora concedido às mulheres brasileiras e Antônia e ela própria iriam votar pela primeira vez nas eleições de 3 de Maio do ano seguinte. Em vão, Júlia tentara mostrar à filha a importância daquela conquista. Mas, naquela noite, no aniversário de 20 anos de Antônia, perdera a paciência. A moça se preparava para dormir quando Júlia foi ao quarto dela e começou a falar. Se Antônia não iria mesmo seguir carreira, o que faria? Passaria a vida dando aulas para crianças? Não tinha ambição? Não queria ser uma mulher livre, uma mulher de opinião e presença? Não percebia o quanto era importante poder agora exercer seu direito de cidadã, indo às urnas? Não queria fazer uma diferença na história da humanidade? Ter um papel social? Mudar o mundo?

-- Mãe, eu adoro dar aulas para as crianças. Meu trabalho é muito importante. Estou ajudando a formar o futuro do nosso país. Isso também muda o mundo.

-- Eu sei, eu sei – rebatia a inconformada Júlia— mas não é possível que você se contente com isso hoje em dia, quando tantas mulheres, como a Dra. Carlota, estão assumindo importantes posições na sociedade, estão mostrando aos homens que o nosso sexo não é frágil e fútil como eles julgam...

Antônia começou a chorar. Na verdade estava magoada por sua mãe achá-la tão sem importância, quando ela procurava exercer seu trabalho da melhor forma possível, vivia sempre estudando, aprendendo mais e mais e já fora reconhecida pela diretoria da escola como uma das melhores professoras que lá atuavam, além de ser querida pelos pais dos alunos e conhecida por sua energia e eficiência com a disciplina estudantil dos pequenos. De repente, ergueu-se e conseguiu dizer, entre soluços sentidos:

-- Qualquer outra mulher se orgulharia de ter uma filha como eu, com um trabalho importante como o meu, com um noivo respeitoso e rico como o meu... Sou uma moça séria, compromissada, de boas intenções e princípios. Só a senhora minha mãe acha que eu deveria ser uma doidivanas dessas que vivem na rua, agitando bandeiras, querendo votar, dirigir avião, consertar motores de automóveis, mandar nos homens, tomar o lugar deles, viver os negócios deles... Não é porque a senhora passou a vida mandando no papai e sendo o homem da casa que eu vou ter que ser igual...

-- Não fale assim do meu casamento ! – quase gritou a sempre controlada Maria Júlia – Aqui nessa casa nem eu mandava nele, nem ele em mim, ouviu bem? Nós tínhamos diálogo e nos amávamos... E não existe essa história de negócios de homem ou negócios de mulher. Ambos os sexos...

-- Já sei, já sei – interrompeu também aos gritos Antônia -- ambos os sexos tem que ter os mesmos direitos! A senhora só sabe falar nisso. Vá embora, me deixe em paz. Se não consegue me aceitar como eu sou, se não consegue enxergar o valor em alguém que não pensa igual a senhora, então me deixe... – e atirou-se na cama, em prantos.

Júlia pensou em aproximar-se da filha, passar a mão em seus cabelos, ter um gesto de ternura... Mas sabia que não conseguiria. Sabia que aquela filha conformista e pouco ambiciosa não correspondia à educação, à formação que ela se esmerara em dar, não correspondia aos seus sonhos de mãe. Suspirou. Bem, trataria de tentar aceitá-la como ela era. Tentaria.

Fez um esforço e disse apenas:

-- Você tem razão, minha filha. Você é uma moça de muito valor e eu tenho orgulho disso. Perdoe-me se eu tinha outros sonhos para você. Boa noite. E foi se deitar, pensando nas palavras da filha sobre o seu casamento, pensando no porque aquele súbito colapso matara José tão cedo e a deixara sozinha, com a sua saudade, com a sua luta, com a sua decepção.

  

3.

1926 - Mortes

 

Todas as nossas lutas, todos os nossos sonhos, todas as nossas idiossincrasias, os nossos ódios e amores, todas as nossas crises de nervos, todo o nosso eventual poder, tudo, tudo o que somos, tudo o que sentimos e tudo aquilo pelo qual lutamos, seja o poder ou a sabedoria, tudo isso morrerá conosco.

Esta é mais óbvia verdade das nossas vidas, mas costumamos viver como se não fosse. Enquanto todos vivem como se fossem imortais, a morte está presente, sempre, dentro da minha alma, pensava Maria Júlia.

O assassinato de seu pai a havia atingido como um soco. Fora como se o seu mundo desmoronasse. Afinal o pai era o provedor, a certeza tranquila do pão de cada dia, a segurança dos conselhos, um abrigo seguro para onde voltar, se, porventura, se atirasse ao léu nos braços da vida. A âncora do barco, de repente, se perdera nas profundezas das águas.

Quando, porém, seu amante morreu assassinado pela outra amante dele, o que desabou, no coração de Júlia, não foi a segurança, mas, muito pior, a esperança. Com o assassinato do pai se fora o passado e o presente. Com o do amante, o que se foi, foi o futuro; foram seus planos, seus anseios, seus sonhos. Seu coração se endureceu. Uma couraça se formou em torno de sua alma, uma couraça que nem mesmo o nascimento de Antônia fora capaz de romper. 

Todas as grandes alegrias de sua vida passaram, depois desses trágicos acontecimentos, a vir permeadas pelo viés da possível desgraça. Não que esses sentimentos aflorassem conscientemente, vinham mais como a expressão de certa frieza diante da vida. A mesma frieza com a qual ela trabalhava e ia ganhando cada vez mais dinheiro.

Por isso, quando José Gonçalves de Almeida apareceu em seu caminho, não foi sem surpresa que ela encarou o leve encanto que tomou conta da sua alma.

Não era uma paixão avassaladora, daquelas que fazem com que o nosso coração se volte inteiramente para o objeto da nossa paixão, que fazem com que o nosso coração só se importe com o que vier dele, que fazem com que o nosso coração relegue a um segundo plano tudo o que não disser respeito a ele. Foi apenas um pálido reflexo disso. Mas para Júlia já era muito.

Nos últimos, longos, anos, ela só tivera cabeça para o trabalho, para os negócios, para a administração de sua oficina de costura. E agora esse moço trazia à sua alma um ranço da esperança perdida. Ele era uns bons pares de anos mais jovem que ela, o que deixava Júlia um pouco apreensiva.

Ele começou a fazer-lhe a corte e ela, graças às suas relações com a melhor sociedade paulistana, logo descobriu muito sobre ele. Vinha de uma família portuguesa que chegara ao Brasil muito antes de Júlia, três gerações antes, e fizera certa fortuna. Mas a parte da herança que lhe coubera já fora dissipada nas mesas de jogo dos cassinos. Um padrinho lhe arrumara aquela diretoria na companhia de eletricidade, a inglesa Light, para que o moço de boa família não se afundasse completamente.

José de Almeida, porém, tinha a fama de generoso, bom coração, honesto e direito e pagava, realmente, as dívidas de jogo que fazia. Júlia pesou os prós e os contras, e nos prós havia aquela capacidade que o moço tinha de balançar-lhe o coração e o sexo. Casou-se com ele.

A vida cotidiana, no entanto, trouxe a Júlia alguma decepção: José recebia o ordenado e ia direto para o cassino. Normalmente deixava tudo lá. Eventualmente ganhava, mas tornava a jogar e a jogar até não sobrar um centavo.

O casal não tinha dificuldades financeiras porque Maria Júlia sustentava a casa. Continuaram morando no segundo andar do atelier.

José era um amante poderoso e ensinou à esposa os segredos do sexo. Não era homem de acreditar que a sua mulher não devesse ter prazer, como a maioria dos machos daquele tempo pensava. E Maria Júlia foi ficando cada vez mais e mais satisfeita. Não reclamava do vício dele. Afinal só acontecia uma vez por mês, quando ele recebia seu ordenado e imediatamente o perdia nas mesas dos cassinos. Não acontecia de novo (até o final daquele mês) porque ele era orgulhoso demais para pedir dinheiro a ela. Assim, completamente sem fundos, todas as manhãs ele ia a pé do casarão da Joaquim Eugênio de Lima até o centro da cidade, onde ficavam os escritórios onde trabalhava. Não tinha nem o dinheiro do bonde. Vinha almoçar em casa e era sempre atencioso com as criadas, com as costureiras e com as freguesas de Maria Júlia. Tinha um charme irresistível, as mulheres o adoravam, mas ele nunca traiu a esposa.

Por tudo isso, apesar do vício no jogo, o casamento ia bem.

Maria Júlia engravidou e teve uma menina, Amélia, em 1923. Foi uma gravidez difícil já que ela há muito passara da idade ideal de ser mãe. Seu leite secou e a filha foi amamentada apenas nos três primeiros meses por uma ama. José não parecia se importar muito com a criança. O que ele tinha de encantador para com todas as mulheres, tinha de indiferente para com as crianças. Antônia, que agora já estava se tornando uma mocinha, jamais foi alvo de seu carinho. Ele a tratava com uma formalidade seca, embora participasse ativamente de sua educação, assumindo o papel de pai e tendo mesmo registrado a menina como sua filha, graças à sua camaradagem com um dono de cartório, companheiro das mesas de jogo.

Em 1926 Amélia começou subitamente a vomitar. Teve uma febre alta. O médico, Dr. Basílio, foi chamado. Fez tudo o que era possível, mas a menina morreu em poucas horas. A governanta, Leca, – uma órfã que viera da fazenda Soledade, filha de algum colono, a quem Maria Júlia dera abrigo e alguma educação formal – foi logo dizendo, em prantos:

-- Doutor Basílio, a culpa é minha. Eu dei leite a ela sem saber que, pouco antes, quando ela estava no quintal com uma das costureiras, ela comera jabuticabas. Eu vi, no vômito dela, doutor, o leite e as jabuticabas... Envenenaram ela.

O velho médico balançava a cabeça:

-- Isso é crendice, dona Leca. A menina não morreu envenenada por jabuticaba e leite, isso não envenena ninguém. Ela teve uma infecção brava.

Maria Júlia, que nos últimos anos felizes, quase se esquecera dos maus presságios que a acompanharam no passado, agora, com a morte da filha, pensava que a sua felicidade sexual a cegara para as necessidades da menina. Certamente a pequena já estava doente há dias e nem a boba da garota que tomava conta dela nem Antônia, que vivia agarrada a irmã sempre que possível, não perceberam nada, eram inexperientes demais para notar. Sim, fora sua culpa. Deixara a menina aos cuidados dos outros.

Maria Júlia amava a filha, mas o trabalho a absorvia completamente durante o dia e o sexo, durante a noite. Sim, ela tinha certeza, a menina morrera por sua negligência e esta seria uma culpa que ela carregaria para sempre.

No entanto não estava disposta também a renunciar nem ao trabalho nem ao sexo. Era feliz com o marido. E tinha feito uma pequena fortuna com o trabalho. Seu atelier sustentava várias famílias, seu marido jamais daria conta do nível de vida que levavam, mesmo que parasse de torrar seu ordenado nas mesas de jogo. Assim, Maria Júlia concluiu que só restava uma coisa a renunciar: a maternidade.

Uma de suas costureiras falara certa vez sobre uma velha índia que morava em seu bairro, lá pros lados de Santo Amaro, e que conhecia umas ervas que, misturadas, davam um jeito de acabar com qualquer gravidez.

Na noite da morte de sua filha, Júlia decidiu que, se ficasse grávida mais uma vez, ia chamar a tal índia.

No domingo seguinte, viu-se subitamente sozinha no casarão. As costureiras não estavam, não era dia de trabalho; Leca, que normalmente só tomava conta da casa, saíra com Antônia para um lanche no Trianon, para ver se conseguia animar um pouco a mocinha que estava sofrendo muito com a perda da irmã, e José fora encontrar um amigo no centro da cidade.

Era tão raro estar só, tão raro não ter nada urgente para fazer... Maria Júlia serviu-se de um cálice do vinho do porto, pegou um livro de Mário de Andrade que mal começara a ler e foi sentar-se no sofá do hall da casa, bem defronte ao seu lindo espelho veneziano. Estava mergulhada na leitura quando ouviu um “psiu” vindo do canto da sala.

Voltou-se na direção do som e seu coração deu um salto ao ver, no espelho, nitidamente, a figura de uma mulher vestida como sua mãe teria se vestido na juventude.

- Ah, Maria Júlia – disse a mulher no espelho – tanto tenho ansiado por um momento em que pudéssemos conversar...

E Júlia lembrou-se num lampejo do duende que sua filha, quando era uma criancinha, dizia ver no espelho e lembrou-se da visão que ela mesma tivera na noite em que velava sua mãe: as ondas do mar revolto. Sim... E agora se lembrava, já vira também antes aquela mesma mulher.

Beliscou-se, para ver se estava acordada ou sonhando, mas muito mais por hábito do que por necessidade. Sabia que estava acordada e sabia também que deveria estar assustada, mas não estava. Alguém falando com ela de dentro de um espelho não era mais apavorante do que todas as mortes com que a vida lhe brindara.

- Tenho observado você e a sua trajetória – continuou a mulher no espelho. – Você é um sucesso comercial, é independente, vitoriosa e opta pela carreira em detrimento da maternidade. Já lhe ocorreu que é uma mulher que está à frente do seu tempo?

Maria Júlia riu:

- Quem é você afinal? Uma deusa dentro do espelho?

- Meu nome é Margaret, sou uma mulher comum. Não sei porque vim parar aqui na sua casa, nesse país distante e primitivo, mas fiquei feliz em conhecer uma mulher como você. Toda a minha vida lutei para que as mulheres saíssem do limbo social a que foram condenadas, para que pudessem estudar, desenvolver sua real capacidade...

- Você é de outro país?

 Desta vez foi Margaret quem riu:

- Atualmente, sou de outro mundo. Mas quando estava na Terra vivia nos Estados Unidos. Eu nasci em Massachusetts, em maio de 1810 e devo meu feminismo, curiosamente, ao meu pai que acreditava, diferentemente dos homens do seu tempo, que deveria educar as filhas da mesma maneira que educava os filhos homens. Ele era um filósofo e foi um político importante.

- Eu nasci na Ilha da Madeira – disse Maria Júlia – e foi a minha avó quem me ensinou a ler e a escrever. Sei bem o que você diz. Meu pai era um homem bom, mas vivia rindo dos esforços da minha avó para me alfabetizar. Ele dizia que era uma coisa inútil, já que eu só teria tempo na vida de cuidar da casa, do marido e dos muitos filhos que teria. Ele estava enganado em tudo. Meu destino era outro.

- Percebi isso quando a vi pela primeira vez, há muitos anos, quando você se apaixonou pelo espelho...

- Meu Deus – exclamou Júlia – isso foi há mais de vinte anos... Você já estava aí.

- Não – riu Margaret – eu não estou sempre aqui. Às vezes sim, às vezes em outros lugares. Mas eu me lembro bem desse espelho. Quando, em 1846, o jornal me mandou para a Europa...

- Você era jornalista em 1846? – perguntou Júlia – que sabia só existir uma única mulher jornalista no Brasil no momento.

- Sim, eu fui a primeira correspondente de um grande jornal, era o New Yorker Tribune, e eles me mandaram para a Europa, onde conheci não só o amor da minha vida, mas também pessoas maravilhosas como George Sand.

- Sei quem é! – disse Julia animada – uma das minhas freguesas me falou muito sobre ela, que se vestia de homem e era muito inteligente.

- Isso mesmo – continuou Margaret – foi com George que estive na casa de um rico comerciante em Veneza. Este espelho estava lá.

- Como você pode ter certeza que era o mesmo?

- Porque não existe outro igual e eu soube disso no momento em que me vi refletida nele, soube com aquele sentimento forte, aquela intuição que não deixa dúvidas... Você sabe, coisas de mulher.

- Ah... Sei mesmo – disse Júlia – Mas você é então uma mulher importante, Margaret. Como é seu nome todo?

- Fuller, Margaret Fuller. Na verdade, por uns poucos anos fui também Margaret Fuller Ossoli. Fui casada com o conde Giovanni Ossoli, um revolucionário que conheci na Itália, nessa viagem onde vi o espelho. Tivemos um filho em 1848, mas só nos casamos um ano depois do nascimento da criança. Ele era uns dez anos mais novo que eu... Quase a mesma diferença que existe entre você e o seu marido.

- E foram felizes?

- Muito. Mas por pouco tempo.

- Por que? Brigaram?

- Não – riu ela – morremos. Quando voltávamos para a América, nós três num navio, naufragamos. Foi em 19 de junho de 1850. Eu tinha apenas 40 anos.

- Sinto muito – disse Julia, sinceramente consternada.

- Mas vivi muito – completou ela – Creio que coloquei a minha pedra na grande construção de um futuro melhor para o sexo feminino no planeta. Publiquei alguns livros, organizei encontros, lancei algumas sementes para os movimentos sufragistas que vieram depois de mim. 

Disse isso e desapareceu.

Nesse momento Antônia e Leca irromperam no hall, a menina toda feliz, contando para a mãe que comera uma coisa maravilhosa, um sorvete enorme, cheio de cremes e coberto com um sensacional chocolate.

Naquele ano de 1926 fora inaugurada a primeira biblioteca pública de São Paulo. Funcionava numa casa da Rua Sete de Abril, no centro da cidade e era pouco mais que um amontoado de quinze mil livros sem catalogação, sem métodos de arquivamento. Mas, mesmo assim, na segunda feira cedinho Júlia estava lá. Perguntou se havia alguma obra de uma escritora americana chamada Margaret Fuller. Os olhos da bibliotecária se iluminaram:

- A senhora deve ser muito culta. Aqui no Brasil quase ninguém conhece Margaret Fuller, mas eu que tive o privilégio de visitar os Estados Unidos, quando meu marido foi buscar as máquinas da nossa tecelagem e ficamos por lá algumas semanas, trouxe vários livros de feministas históricas.

- Estão aqui? – perguntou Julia.

- Não. Não são da biblioteca, são meus. Estão em casa. Mas posso emprestar à madame Júlia com muito prazer, as obras que desejar.

- Ora, mas a senhora me conhece...

- Claro. Já estive em seu atelier, com uma amiga e, além disso, também já a vi em festas e no teatro, com seu jovem marido.

Foi assim que Júlia recebeu, no dia seguinte, um pacote de livros americanos. Como não sabia inglês, contratou um moço que trabalhava no consulado dos Estados Unidos para traduzir os livros para ela. O jovem, impressionado com o interesse de Júlia pela cultura de seu país, se ofereceu para dar-lhe aulas.

Um ano depois, Júlia lia sozinha as obras de Margaret Fuller, Mary Wollstonecraft e outras feministas que fizeram História. Foi então que sua vida começou a mudar.



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