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A Partida

  • Foto do escritor: SAUDE&LIVROS Fomm
    SAUDE&LIVROS Fomm
  • 22 de fev.
  • 2 min de leitura

por Isabel Fomm de Vasconcellos Caetano

do Livro Histórias de Mulher


Isabel Fomm, 2022, Orquidea branca
Isabel Fomm, 2022, Orquidea branca

Não, não era com tristeza que vestia a roupa mais bonita, arrumava o cabelo, o rosto limpo, a expressão leve, quase feliz.


Comprava flores. Mas roubava sempre mais algumas, se houvesse, pelo caminho. Levava também sementes e ia, a pé, tentando encontrar-lhe a lembrança pelas ruas, na explosão barulhenta da vida na cidade.


Cruzando os portões, refletia: talvez aquele fosse ainda um dos poucos lugares onde a terra estivesse realmente viva, dentro da cidade. Apesar de já ter sido invadido pelos que não tinham onde viver e procuravam abrigo nos túmulos; apesar da frieza dos mármores e das estátuas suntuosamente ridículas.


Afinal, encontrava-o num canto simples, próximo a um dos muros da rua, quase sufocado entre os prédios da avenida, mas ainda recebendo sol suficiente para fazer brotar-lhe as plantinhas.


Sabia das horas, poucas, em que o sol batia sobre ele.


Sabia do cheiro e da consistência da terra, que ela revolvia todos os dias. Naqueles três metros de terra, plantava flores. E, trabalhando a terra, chegava quase a sentir, dele, novamente a pele, como tantas vezes na vida a sentira.


Neste dia, subitamente, percebeu-lhe a ausência.


Aconteceu logo ao aproximar-se das flores. Uma estranha brisa. Uma borboleta amarela em fuga. A ausência dos pássaros. Nenhum perfume no ar.


Assustada, olhou em torno. Algo mudara. Ele se fôra. Não estava mais sob aquela terra, não mais flutuava entre os galhos das velhas e secas árvores, não mais brincava se esconder-se entre as estátuas, não mais lhe sopraria as pétalas das flores.


Ela sentiu frio. Depois percebeu-se estranha naquele mundo de pequenas flores e grandes estátuas e monumentos, mármores e concretos. Suspirou. As mãos penderam suavemente, o corpo relaxou, os músculos se distenderam, a alma se anuviou.


Subitamente livre, atravessou de volta os portões, sem olhar para trás e pela última vez.


Bel, 1978, março, 5

 

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