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Abafada

  • Foto do escritor: SAUDE&LIVROS Fomm
    SAUDE&LIVROS Fomm
  • 22 de fev.
  • 6 min de leitura

por Isabel Fomm de Vasconcellos Caetano

do livro Histórias de Mulher


Isabel Fomm, 2019, Noite na Paulista
Isabel Fomm, 2019, Noite na Paulista

Aquela fora uma noite excepcionalmente fria sobre a cidade de São Paulo. O relógio do Itaú, no Conjunto Nacional, marcava ora 3ºC, ora as três horas da madrugada, madrugada que ela queria esquecer. 


Caminhava a passos rápidos por uma avenida Paulista não totalmente deserta. Quem se importaria com uma  jovem a caminhar pela Paulista naquela gélida madrugada de 1977?


Sentia-se triste, só, abandonada, numa cidade tão grande, tão cheia de janelas apagadas. Não mora ninguém nesta avenida? Só há bancos e bancos e escritórios e algumas poucas mansões esquecidas de tudo?


Uma recordação que não era sua passeou por sua mente. A avenida, em década áurea, passado não tão distante, apenas mansões e automóveis chiquérrimos de onde desciam deslumbrantes melindrosas e seus pares, homens empertigados, dinner jackets e luvas. Mansão iluminada, uma festa na Paulista de outrora.


Por que, sorriu ao pensamento, uma esquerdista maldita e subversiva como eu, tenho delírios ricaços nesta avenida dos ricos, nesta pobre e sofrida metrópole? Talvez muito fumo, muito whisky...


Deixara o Riviera de todas as noites na companhia daquele rapaz magro, cansado, estranho.


Lembrava-se dele dos tempos de colégio. Era um líder estudantil em 1968, o Grande Ano da década. Paris. E periferia. Mais velho que ela, a imagem romântica que guardava dele sucumbira à sua rudeza na cama. Por que tinha ido pra cama com ele? Só porque, em seus sonhos de adolescente, nos sonhos que a década enterrara, o admirara, julgara-o como um ser humano mais completo e melhor do que ela própria, que tanto se debatera entre a sua mesquinha origem burguesa de classe média alta e sua pretensa luta política?


Apressou o passo na noite gelada. Bom  casaco este, pensou, agradecida mentalmente à sagacidade da mãe que, depois do jantar, descera as escadas da casa trazendo o casaco pra que o vestisse.


- Se você vai sair de novo hoje, melhor levar isto --dissera a velha senhora, objetiva, mal disfarçando o desencanto por aquela filha querida que saía todas as noites para o Riviera, sempre o Riveira, gastando seu salário em whisky nacional.


Ah, que angústia, meu Deus! Todas as noites naquele bar, intermináveis conversas sobre os destinos deste Brasil sufocado pela mão pesada da ditadura, boatos sussurrados sobre "a queda" deste ou daquele amigo ou conhecido, porres homéricos, uma juventude perdida entre livros, teorias, sonhos, ideais e letras de música. John Lennon estava certo, há quanto tempo sabia ele que o sonho acabara? Só aquele bando de idiotas, seus amigos, continuava, noite após noite, a imaginar que o sol nasceria em alguma manhã, que o povo tomaria o poder, que isto, que aquilo.

Justiça social...distribuição de renda...que saco, que angústia, que bela e fedorenta merda. Uma merda, todos eles (ela inclusive) chafurdando na própria impotência.


E tinha ido dormir com aquele mastodonte.


Não. Estou sendo injusta, ponderou. Ele mal saiu daquele presídio, foi torturado, ele mesmo contou... Salas brancas, caixas pretas, afogamento, pau de arara, o grupo de solidariedade, não falar, não contar, não entregar, resistir...


Um arrepio percorreu-lhe a espinha. E se ele estivesse doente? E se ele tivesse transmitido alguma horrível doença venérea a ela? Seria um preço muito alto a pagar por uma noite de amor com um ex-líder estudantil. E se tivesse sarna? Dizem que há muita sarna nas prisões... Ai...

Encolheu-se, sentindo outro arrepio, mais de horror do que de frio.


Olhou para o céu, procurando estrelas. Havia algumas, no céu limpo de inverno. Mas as luzes da cidade escondiam a exuberância do firmamento. Apressou ainda mais o passo, ansiando por seu automóvel, sua casa, sua cama, o carinho burguês dos pais que sempre acordavam quando ela finalmente chegava. Todas as noites.


No egoísmo típico da juventude, o sono mal dormido dos pais nada mais era do que a simples obrigação deles, porque a amavam e porque eram seus pais.


Lera Sartre aos 15 anos, para a revolta do padre católico que freqüentava-lhe a casa. Tinha orgulho de sua formação intelectual, que não servia, aliás, pra muita coisa, já que gastava seus dias redigindo matérias idiotas num jornaleco comercial de terceira categoria e as noites vomitando teorias impotentes numa mesa do Riveira.


Um carro aproximava-se devagar (ela ouvia a marcha lenta do motor). Outro arrepio. São eles. É a maldita polícia da ditadura.


Apressou novamente o passo e, instintivamente, pôs-se a balançar a chave do carro na mão pra que "eles" sacassem que ela não era qualquer uma. Por sorte, estava bem vestida, com  aquele casaco de lã inglesa por cima das roupas deselegantes, jeans e camisa de flanela, mocassins. O carro passou devagar. Não eram "eles", afinal. Apenas alguém dirigindo devagar na madrugada paulistana.


Chegou finalmente. Aquele calhorda, embora fosse um ex-líder estudantil, deveria ter tido a decência de acompanha-la até o seu automóvel.


Chave na porta, chave na ignição, partida no fuskinha, rápido, correndo, pelo Uma fita de Chico Buarque no som, baixinho, pra não acordar a vizinhança. Uma última dose de whisky, depois de beijar os pais, na cama onde, agora, dormiriam mais tranqüilos.


"Pai, afasta de mim  este cálice"


Feijoada completa. Chico Buarque lançava discos, a censura proibia-lhe as músicas e ele produzia, produzia, produzia. A censura era burra. Chico, que conseguira superar até o exílio, cantava, cantava, dizia tudo, a poesia denunciando a burrice da censura, tanta burrice no poder, tanta falta de dignidade na pretensa prosperidade dos anos setenta.


Não. Ela não. Ela era apenas uma maldita subversiva, cuja inteligência não seria colocada a serviço daquele estado de coisas. Ela se contentava com sua humilde posição num jornal obscuro e consumia seu horrível salário nas noites do Riviera e outros bares menos recomendáveis da cidade.

 

Um dia, ela sabia, aquele pesadelo terminaria.

Não haveriam mais mortes nos porões da ditadura. Não haveria mais censura à imprensa. Ninguém mais seria preso ou desprezado por manifestar opiniões humanitárias. Um dia, meu Deus, tudo aquilo terminaria. As crianças poderiam de novo estudar História nas escolas, uma História crítica, uma História do Brasil cujo currículo passasse do ciclo da cana de açúcar e chegasse até este século. Um dia, voltaria a Inteligência, o senso crítico... Não. A ditadura não poderia durar para sempre, com seus horrores, sua violência, sua estupidez, sua insensibilidade.

 

Quando isto acontecesse, um dia, no futuro, ela poderia usar tudo o que aprendera. Poderia devolver à sociedade todos os privilégios que tivera na vida e sei lá mais o que. Poderia trabalhar numa empresa decente, cumprir o seu papel social, fosse qual fosse, poderia contribuir para a construção de um mundo melhor e mais justo. Por enquanto seria isto: noites bêbadas de whisky e de maconha na impotência coletiva dos jovens do Riviera, sob os cuidados paternalistas do velho garçom, seo Zé. Por enquanto seria isto: noites de sexo mal feito com ex-líderes estudantis que tiveram a sorte de sair do inferno.

 

No som, Chico Buarque canta: "Eu tenho tanta alegria guardada, abafada, quem dera gritar.Tô me guardando pra quando o carnaval chegar".

 

Bel, 1993, fevereiro, 25 

 


25 de fevereiro de 1993 00:01


Chorei paca ao escrever isto aí acima. Nunca pensei que ainda fosse capaz de chorar pelos anos setenta e não quero ter uma crise de auto piedade. Queria escrever um conto, porque andei lendo alguns contos antigos e os achei incrivelmente bons, alguns melhores até que o Anjo, deste Natal. Não sabia que sairia este DESABAFO.Nem sabia que havia tanto ranço de tristeza nas minhas lembranças da década horrível, dos horríveis anos setenta...

 

Hoje eu moro na Av.Paulista. Faço um trabalho genial e rentável na Associação Paulista de Medicina, tenho uma agência de empregados domésticos e sei que o povo é uma mera abstração.


Tenho um amor que já dura 10 anos e ainda é capaz de produzir taquicardia. Amo meus pais e lamento ter-lhes causado tantas noites de insônia. Amo (sempre amei) tudo o que está vivo, ainda que seja altamente frustrante amar gente como a Angela ou o Gregorio. Levo uma vida altamente burguesa, de classe média, e adoro minha casa (cheia de plantas) e os velhos filmes do meu pai.


Filmei a farsa dos cara-pintada, aí embaixo, sabendo que aquele arroubo juvenil estava sendo manipulado por uma elite calhorda que queria depor o corrupto que eles mesmos puseram no poder dois anos antes e que não estava servindo corretamente aos seus interesses. Filmei e me emocionei. E me emocionaria de novo com aquela estudantada na rua, pacífica e bela, porque reconheci nela, acima de tudo, o mesmo ímpeto juvenil que todos tivemos, defendendo qualquer causa. Porque as causas,em si mesmas, certamente não são o que importa na vida.


22 de fevereiro de 2026 22h10


Um conto completa e claramente autobiográfico. Outro dia escrevi sobre o cheiro da Paulista de madrugada. Hoje, em 2026, ainda é o mesmo cheiro de 1977. O Brasil mudou. Mas não tanto assim. Se hoje não há a censura explícita da ditadura militar, há a censura das redes sociais. Tão burra quanto aquela outra. Os preconceitos correm soltos e depois da (breve) volta da direita ao poder, 2018-2022, saíram todos do armário, descaradamente.

Tenho 74 anos. Em 1977, tinha 26. Não mudei nada. Ainda sou a mesma Bel.

 

 

 


 

 

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