As Três Rainhas
- SAUDE&LIVROS Fomm
- 6 de jan.
- 6 min de leitura
por Isabel Fomm de Vasconcellos Caetano
Veja o vídeo onde conto essa história.



Resolveram ir sozinhas, as três, montadas no mais confortável meio de transporte que havia em Cavárica: os Córcovos. Seus generais não gostaram da ideia: as três mais poderosas rainhas dos três mais poderosos reinos do planeta, viajando sozinhas, corcoveando pelo meio do deserto, sabe-se lá por quantos dias e ainda carregadas de presentes e oferendas! Poderiam ser roubadas, atacadas, por bandoleiros ou até mesmo pelo povo das aldeias no entorno! Protestaram. Mas as soberanas Mel (de Colmeia), Gal (de Canções) e Bel (de Corações) eram tão teimosas quanto poderosas. Os generais indagaram:
-- Mas, afinal, para onde estarão indo as senhoras?
Mel riu e respondeu:
- Para aonde nos levarem as estrelas.
Assim, reunidos, os generais dos três reinos resolveram colocar em prática um plano B. Chamaram os comandantes de seus exércitos e pediram-lhes que formassem pequenos pelotões de soldados de elite para seguir as rainhas a uma distância em que elas não pudessem vê-los, mas os comandantes as veriam por estarem munidos daquela invenção genial dos sábios de Canções, o Veraolonge, um longo tubo vazado dentro do qual, estrategicamente colocados em sequência, círculos de cristal, de diferentes espessuras, permitiam ao mortal que colocasse um de seus olhos (o outro fechado) na extremidade mais fina do aparelho e, então, poderia enxergar o distante como se esse estivesse a centímetros do seu corpo.
Se, ao longo do caminho, detectassem alguma ameaça às soberanas, poderiam agir.
As três rainhas partiram assim que os dois sóis de Cavárica começaram a se por no horizonte. Viajariam sem descanso por toda a noite (afinal, precisavam das estrelas) e repousariam nas tendas portáteis que levavam, durante o dia, alimentando-se e descansando para prosseguir na sua jornada assim que os astros fossem novamente visíveis no céu.
Elas sabiam que surgira, no firmamento do planeta, uma estrela muito mais brilhante do que todas as outras e que jamais estivera ali antes. Esse era seu rumo.
Ao final da terceira noite de viagem, avistaram, na divisa do deserto, de areia marrom e flores vermelhas, com as terras verdes e férteis, um pequeno monte. Ao sopé, uma tosca cabana coberta de palha, onde estavam um casal e um bebê.
-- Vejam! – gritou Gal – ela já nasceu! Lá está, deitadinha no cesto, a Filha da Deusa!
Tantas e tantas vezes, no decorrer do último período, Gal observara em sua bola de cristal – onde se projetava a realidade além da realidade – aquela estrela se deslocando pelo Cosmos em direção à Cavárica. E soubera, pela voz do Pensamento, que aquele astro se posicionaria exatamente no ponto onde a filha da Deusa estaria nascendo. Começara então a sua correspondência, através dos pássaros mensageiros, com as duas outras mais importantes rainhas do planeta.
Mel também já sabia. Acordara, certa noite, sentindo uma presença em seu local de descanso. Acendera o candieiro e lá estava, ao lado de sua rede de dormir, um enorme mortal masculino, negro, de olhos expressivos e penetrantes, muito gordo, uma barba, também negra, redonda, a emoldurar lhe o rosto, e de cujos ombros largos brotavam duas enormes asas azuis.
-- Um mensageiro – ela murmurou com um suspiro.
-- Sou Oigres – disse ele – o anjo anunciador da sua Deusa. E ela me pede para que se atente a uma nova estrela que surgirá nos céus, logo antes do término desse período de 4444. Você deverá seguir o rumo desse astro e então encontrará, recém-nascida, uma mortal feminina que é, na verdade, um pedaço da alma da Deusa, filha dela, portanto. Caberá a vocês, as três rainhas mais importantes da Cavárica, levar a essa criança os mais inspiradores presentes, apetrechos que ela possa usar para dirimir possíveis dúvidas que lhe cruzem o caminho, como as varetas perfumadas fabricadas aqui em Colmeia e que despertam a intuição. Como a bola de Cristal usada pela Rainha Gal, de Canções, onde ela enxergará a realidade além da realidade e, ainda, a máquina de marcar o tempo, da Rainha Bel.
Anjo Oigres deu suas instruções e desapareceu.
A máquina de marcar o tempo, do reino de Corações, fazia um barulhinho constante, um tac-tic, tac-tic, que ajudava ao mortal, que nesse som se concentrasse, a se transportar mentalmente a outros lugares, podendo largar seu corpo ali onde estivesse e permitindo, dessa forma, que sua alma visitasse qualquer outra parte do planeta. Fôra usando esse recurso que a Rainha Bel se transportara, sem que fosse a sua vontade fazer isso, para aquele exato momento em que o Anjo Oigres aparecera para Mel.
Dados esses acontecimentos, não foi nada difícil para as Três Rainhas planejarem, através da sua correspondência, carregada pelos pássaros mensageiros, a viagem que estavam concluindo agora.
E os presentes que levaram à menina deusa, Nazaré, a acompanharam e a serviram por toda a sua vida.
Uma vida, aliás, bastante curta, apenas 33 períodos.
Mas a garota Naza, logo se mostrou muito diferente das outras crianças da localidade. Desde muito pequena, intuía os acontecimentos que afetariam a vida de todos, desde grandes tempestades, até acidentes fatais. Foi ficando famosa por acertar a solução dos problemas pessoais dos vizinhos, que se acostumaram a ir consulta-la sobre qualquer coisa que os afligisse.
Um dia, quando tinha 13 anos de idade, foi com seus pais à capital do reino de Colmeia, onde residiam. Distraídos fazendo compras no mercado, os pais de Naza demoraram a dar falta da menina, que sumira. Perguntando aqui e ali, ficaram sabendo que ela entrara no Grande Templo da Deusa, onde se reuniam as mentes mais sábias de Cavárica. E o que Sejo e Amria, os pais de Naza, viram, os deixou estarrecidos: Sua filha, no centro de uma roda formada pelos mortais considerados mais eruditos do planeta, discursava e respondia às questões que lhe eram feitas, gerando em todos um enorme espanto. Uma menina de apenas 13 anos parecia ser tão consciente dos mistérios da vida quanto eles.
E teve aquele dia em que Amria viu aquela árvore de frutos vermelhos e doces e lamentou que estivessem fora de seu alcance, no alto da copa. Então Naza disse: -- Árvore, incline-se para que minha mãe possa colher seus frutos. E a árvore se curvou.
Natural, portanto, que, chegando perto de seus 20 anos, Naza caminhasse pelas aldeias de Colmeia, cercada de muitas e muitas jovens discípulas. E pregava:
-- O Amor é o único caminho digno de um mortal. Só amando uns aos outros, atingiremos a paz.
-- Todos somos iguais. Pobres e ricos. Azuis, negros e rosados. É a morte que nos iguala.
-- O ódio fere mais a quem odeia do que a quem é odiado.
-- A tolerância e o perdão são fundamentais. Se te estapearem na face esquerda, oferece a outra face.
As ideias e filosofias de Nazaré foram se espalhando pelas províncias de Cavárica e conquistando as mentes e os corações dos mortais. Ora, muito natural, adquirindo a consciência de que as sociedades onde viviam estavam longe de praticar aquelas políticas de generosidade e compartilhamento, estavam longe de conquistar a igualdade social para masculinos e femininos e para azuis, negros e rosados, os submissos e conformados foram se transformando em revoltados e exigindo mudanças. Começaram a ansiar por amor, tolerância, distribuição mais justa das riquezas.
-- Se tens muito, divida o muito com quem tem pouco. – Pregava ela.
Nesse último quesito, o bicho pegou. Os poderosos de Cavárica não queriam ver ameaçados os seus bens e muito menos o seu poder.
Começaram a espalhar que Naza era parceira do Senhor da Trevas, que seus poderes sobrenaturais (como fazer o cego enxergar e o paralítico andar) eram derivados de seu pacto com o Mal.
Foi presa, julgada e condenada e pouco adiantaram as vozes que saíam em sua defesa, entre essas as das poderosas Três Rainhas, completamente indignadas com as mentiras espalhadas sobre aquela, sua afilhada, que sabiam ser sim a Filha de Deusa, aquela menina da qual acompanharam os primeiros dias de vida, bem de perto, e toda a sua trajetória, de longe. Sabiam que ela viera à Cavárica para trabalhar por uma vida mais feliz e pacífica para seus mortais. Assim, mais uma vez, viajaram unidas para interferir junto às intransigentes autoridades, pela vida dela.
Em vão. Nazaré já estava sendo barbaramente torturada, para que confessasse seu pacto com o Deus da Escuridão, quando as Rainhas chegaram. E, por mais poderosas que fossem, nada puderam fazer para impedir o triste destino da Filha da Deusa.
Queimaram seu corpo, ela ainda viva, em praça pública.
Naza estava então com 33 períodos de idade.
Três dias depois da sua morte, Sejo e Amria, foram buscar as cinzas de Naza para sepultá-las sob uma árvore frondosa. E viram-na ressurgir das próprias cinzas, corpo e alma presentes ali, na frente deles. Naza sorriu e, lentamente, começou a subir aos Céus.
Seus ensinamentos, porém, continuaram ecoando e se multiplicando entre os povos de Cavárica até os dias de hoje, 4000 períodos depois de sua partida.
Bel, 2026, janeiro, 04 e 05
As Bruxas n.37 - TV Paradise - Especial de Dia de Reis.


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