Mr. Virounsce e Eu
- SAUDE&LIVROS Fomm
- 22 de fev.
- 39 min de leitura
por Isabel Fomm de Vasconcellos Caetano
do Livro Histórias de Mulher
Cópia do relato enviado à Dra. Neila Shibata,
Supervisora,
Coordenadora Una da Informações,
pelo Diretor Geral da Virouns 8.
Confidencial

Conheci Mr. Virounsce (pronuncia-se váirãunsci) justamente quando enfrentava o pior momento de minha vida. Perdera o emprego há alguns meses e a última nota de cem já fora trocada, a senhoria ameaçava nos despejar e o Julinho vivia a gritar de fome, abandonado em seu berço. Embora não me seja fácil confessar estas coisas (gosto de pensar apenas em fatos positivos) devo dizer que, naquela época, estive a ponto de perder totalmente as esperanças.
Emprego era coisa rara quando a palavra de ordem era crise e a minha situação -- mulher sozinha com um filho, sem parentes ou amigos -- em nada me auxiliava. Pelo contrário.
No entanto passara estes últimos meses a rodar a cidade, respondendo a uma média de dois anúncios por dia. Para um momento de crise, a média estaria até mesmo satisfatória. Mas, em toda parte, muitas e muitas outras pessoas também estavam em situação semelhante à minha; nunca era eu a escolhida. Parecia impossível, a curto prazo, conseguir uma colocação e, quanto mais distante ficava o dia da minha demissão, mais difícil se tornava.
Fora quase em lágrimas que eu trocara aquela última nota de cem.
Gastara a quinta parte do que me restava então, em uma lata de leite em pó para o Julinho e num maço de cigarros. Posso até hoje, passados tantos anos, lembrar a incômoda sensação de culpa que sentia com aquele maço no bolso da saia. Parecia pesar muito, roçando meu corpo através do tecido enquanto eu atravessava a rua de volta à pensão. Cada centavo valia demais para mim e não devia ser desperdiçado em cigarros, mas eu não pudera resistir. Teria toda a tarde vazia pela frente, teria que suportar as maldosas insinuações de Dona Adelaide, a senhoria, e já estava mesmo cansada de fumar apenas quando me ofereciam cigarros, o que, aliás, não estava sendo muito freqüente nos últimos tempos, pelo menos entre os hóspedes da pensão. Acreditava mesmo poder ler o olhar que me lançavam: "esta aí, sem emprego e sem marido, com um filho pra criar e ainda a manter seus pequenos vícios..."
A consciência de minha humilhante situação estava aos poucos me modificando, tornando-me mais fraca. Sempre me orgulhara de meu auto-domínio, de minha calma, minha racionalidade... Foi com raiva que abri o maço de cigarros e, ali mesmo, em pleno canteiro central da feia avenida de periferia, acendi um. Naquele tempo, é preciso explicar, o gesto era quase um desafio, como numa adolescente; mulheres já fumavam em público há cerca de duas décadas, mas, na rua, seria sempre considerado de mau gosto. Eu poderia estar bem pobre, mas nem por isso pensaria em renunciar à elegância, ainda que naquele momento minha figura parecesse humilde como jamais parecera antes. Assim, ao entrar fumando na pensão, dei à Dona Adelaide mais um bom pretexto para continuar a sua mal humorada ladainha contra o que chamava de "esta praga de desempregados":
-- Pensei que, na sua situação, você tivesse ao menos deixado de fumar...-- disse ao ver-me à porta da cozinha. (Eu adquirira recentemente o hábito de entrar pela porta dos fundos...)
Estendi para ela o maço de cigarros, que agora parecia pesar uma tonelada:
-- Não gostaria de experimentar um destes?
Ela aproximou-se enxugando desajeitadamente as mãos obscenas na barra do avental. Não sei porque sempre me parecem obscenas as mãos gordas e muito vermelhas. Arregalou os olhos para o maço:
-- Importados... -- murmurou. E depois, mudando de tom:
-- Fico contente que você tenha conseguido uma colocação tão boa quanto a anterior, aquela que você diz ter tido um dia... -- e foi retomando seus afazeres na cozinha.
Levei alguns segundos para entender o comentário. É claro: ela interpretara os cigarros importados como um sinal de salário assegurado dali para a frente. A bruxa ironizava.
Subi ao meu quarto com uma crescente sensação de culpa a me oprimir. Aquele maço de cigarros custava o mesmo que cinco dias de leite para o Julinho ou o que eu gastava em uma semana de condução e desta eu dependia para continuar procurando emprego. Ou como atravessar a cidade de cabo a rabo atrás das promessas dos anúncios classificados dos jornais?
Hão de desculpar-me se pareço deter-me demasiadamente nos acontecimentos daquele dia longínquo, mas eu era jovem demais para saber, como hoje sei, que Deus vem ao nosso encontro exatamente quando já não somos capazes de nos reerguermos sem ajuda. Detenho-me, pois, neste dia porque foi neste dia que conheci Mr. Virounsce a quem, indiretamente, devo hoje tudo o que possuo: meu filho Júlio (que leciona atualmente numa conceituada universidade européia), esta pequena casa onde moro, a minha boa saúde e --por que não?-- minha própria vida. Assim, peço-lhes mais uma vez que me perdoem por estar falando apenas em mim mesma e em meus problemas de então, justamente quando me refiro a uma época em que a grande maioria deste país sofreu tanto ou mais que eu. É preciso que compreendam bem a minha história para que possam também compreender tudo o que pretendo transmitir. Vocês logo perceberão. A gente sempre percebe melhor as coisas depois que conhece alguém como Mr. Virounsce.
Com eu ia dizendo, foi assim que tive a angustiante certeza de estar perdendo o meu precioso auto domínio. Havia cedido a um impulso irresponsável ao comprar aqueles cigarros. Costumava condenar violentamente estes impulsos quando os identificava nos outros. E, agora, que o identificava em mim mesma, nem sabia como me condenar. Estava em pânico. Hoje eu encontraria força e consolo na prece, mas, naquele tempo eu não possuía o mais mínimo sentimento de religiosidade. Deus era para mim qualquer coisa de muito distante, qualquer coisa perdida na névoa das recordações infantis, da infância comum a toda menina pobre, de cidade pequena. Eu estava acostumada a ser dura, como dura tinha sido a minha vida. Possuía princípios morais rígidos. Orgulhava-me de meu senso prático, de minha objetividade. Lá se iam oito longos anos desde que eu chegara à capital e se, até seis meses atrás, pudera manter meu apartamento e se, mesmo hoje possuía uma TV, algumas roupas muito boas e alguns hábitos bastante caros (como aquela marca importada de cigarros) fora sempre graças ao meu esforço pessoal e a minha recusa em deixar-me seduzir, como a maioria das moças do escritório, pelas banalidades do consumo. Eu não ligava a mínima para coisas fúteis ou passageiras. Sempre fui séria.
Agora lá estava eu: sem um tostão e com um orgulho imenso a me impedir de procurar antigos colegas de trabalho que talvez pudessem me ajudar...Mas não! Tinha certeza que para eles eu estava morta. Quem se importaria com uma ex-colega? Eu mesma, quando ainda estava na companhia, julgara "mortos" os outros funcionários dispensados. Não era nada bom para a carreira continuar um relacionamento social com eles.
Julinho mamou quase um litro de leite, durante o dia. E eu estava agora diante de uma insuportável e imbecil programação vespertina de televisão, pois queria parar de pensar. Acendia um cigarro no outro, como se tivesse urgência em livrar-me deles. Não sei como, mas acabei concentrando a atenção no programa da TV. Parecia-me que, por um passe de mágica, eu mudara de realidade. Sem esforço poderia crer que fosse altamente gratificante preparar com maestria um bolo de nozes. Minha atitude de derrota, a perder a tarde diante de um programa de TV para mulheres ociosas, só se justificava pelo desespero. Era, no entanto, mais que um momento de desespero. Qualquer coisa se rompia dentro de mim. Não vieram as torrentes de lágrimas: eu nunca chorava. Chorar era sinal de fraqueza. Só depois de conhecer Mr. Virounsce eu entendi a necessidade do desabafo.
Não fosse, portanto, o impulso de comprar cigarros e de ficar, derrotada, diante da TV, minha vida não teria sido tão plena de experiências e de contatos importantes. Foi ali, na TV, que ouvi falar pela primeira vez em Mr.Virounsce.
Era, segundo eu soube depois, um anúncio muito comum na programação vespertina. Mas eu jamais o teria visto não fossem as especiais circunstâncias que me levaram à ociosidade da televisão para mulheres burguesas e crianças inativas.
Devo ainda recuar mais um pouco sobre o meu passado.
Poderia ter iniciado este relato de outra forma. Poderia, sem mais preâmbulos, falar neste homem extraordinário, descrevê-lo, transmitir sua visão de mundo...Se é que isso é realmente possível. Mas minha experiência de vida, é claro, é mais real do que qualquer biografia ou narrativa que eu pudesse escrever sobre ele. Convivi três décadas com este homem e com seu trabalho. Não gostaria de vê-lo reduzido a um simples herói de romance ou a uma figura distante, biografada e dissecada, longínqua como uma lenda. Corro, é verdade, o risco da subjetividade, da análise parcial... mas é um homem que eu pretendo levar até vocês e não uma estátua,não uma filosofia, não uma teoria...Um homem em toda a sua complexidade e, até mesmo, em toda a sua incoerência. Não sou uma cientista social, não sou nem mesmo uma escritora. Sou uma mulher comum e a minha história é simplesmente real. Assim, há de ser completo este meu testemunho. É para que outras pessoas possam sentir a personalidade e a grandeza deste homem, famoso e mal interpretado, que resolvi revelar-me a mim mesma.
Hoje não vivemos mais em uma época marcada por preconceitos ou por monstruosas injustiças sociais. No entanto, aos mais velhos como eu, talvez possa parecer contraditório que uma mulher só (nunca me casei) que tivesse um filho fosse alguém de rígida conduta moral, como eu mesma me descrevi há pouco. Filhos fora do tradicional casamento eram uma exceção bastante digna de nota quando Júlio nasceu. Havia um rótulo para mulheres como eu: chamavam-nos de "mães solteiras" e imperava a idéia de que toda mulher que fosse mãe e solteira só o fosse por absoluta falta de alternativa. O aborto era uma prática ilegal; a assistência à saúde da mulher, precária nas classes menos favorecidas e os anticoncepcionais, de uma maneira geral, uma experiência, um teste. Um pouco menos de sorte poderia fazer de uma mulher outra mãe solteira, geralmente vista como fraca e ligeiramente corrupta.
Ocorre que eu, de formação simples e interiorana, jamais colocava o amor no plano puramente social. O casamento não era o meu objetivo primeiro. De mim mesma eu esperava que soubesse sobreviver.
Um companheiro seria a decorrência natural. Quando o amor bateu à minha porta, encontrou-a aberta e aberta estava quando o amor quis ir embora. A minha tal moral rígida incluía enfrentar situações e sentimentos e vivê-los sem medo ou remorso, desde que simplesmente me fosse dado vivê-los. Amei o pai de Julinho. E recebi meu filho com a mesma -- e talvez até mais intensa -- alegria com que recebera o amor, um amor que me fez feliz enquanto existiu. Criei meu filho sem que o pai dele sequer desconfiasse (e, até hoje, se fosse vivo, ele não saberia) que tínhamos um filho. Não gostaria de vê-lo preso a mim por sentimentos de obrigação moral.
Além disso eu julgava que o controle da natalidade fosse tarefa e responsabilidade da mulher. Se eu me descuidara, era justo que não o aborrecesse por isso. Parece louco, eu sei, mas naquela época era natural que se pensasse desta maneira. Poderia também ter abortado, mesmo ilegalmente. Tudo era possível com algum dinheiro. Mas não me desagradava a missão de mãe. Nunca me arrependi. É claro que, quando optei pela gravidez, estava numa situação de segurança em relação ao futuro. A interiorana que eu era jamais pensaria não poder pagar um dia pelo leite de seu filho.
Meu desespero, naquela tarde, me levava a pensar em toda a sorte de absurdos. Poderia fugir, sem pagar a pensão, por exemplo. Iria para outra cidade e, quando conseguisse um emprego, mandaria o bendito dinheiro à Dona Adelaide...Pensei mesmo em matar meu filho e a mim mesma mas o suicídio sempre me parecera solução fácil demais, além de um espetáculo completamente indigno. E, ao aceitar um filho, reconhecia, eu automaticamente negara-me o direito de dispor da própria vida. Fugir...outra cidade...Poderia sair, comprar um jornal de outro lugar, verificar as ofertas de trabalho...Sim, mas como chegaria a outra cidade sem dinheiro?
Foi pensando em viajar que surgiu um novo devaneio. Imaginei-me em farrapos, na miséria total, um resto de casaco a abrigar o corpo de meu filho, junto ao meu corpo. Vi a mim e a ele, imundos, doentes e famintos, a perambular pelos restaurantes de beira de estrada, mendigando a compaixão dos que saíam alegremente para as férias. Poderia conhecer um homem, um motorista profissional, por exemplo...Poderia mesmo pintar o rosto e esperar pacientemente que alguém precisasse de companhia feminina... Novamente raciocinei, com minha orgulhosa praticidade, que a prostituição seria muito mais lucrativa se exercida nas ruas do quarteirão mais próximo... Ou talvez algum dos hóspedes da pensão quisesse, para me ajudar, comprar o meu aparelho de TV. Eu venderia barato e teria a sobrevivência garantida por mais uma ou duas semanas. Era preciso criar condições para continuar a procurar um trabalho. Mas... e se eu tentasse, por uma ou duas noites?... Havia jogado no fundo de uma velha mala um vestido que guardara por puras razões sentimentais. O meu primeiro vestido comprado pronto. Era um mini, dos tempos da Mary Quant. Fora ele o símbolo de minha vitória sobre a cidade e a solidão. Comprara o tal vestido com o meu primeiro ordenado, meu primeiro e humilde emprego na capital. Oito anos... o quanto eu aprendera, o quanto vivera, nestes oito anos...
Começara como auxiliar de escritório. Depois, quando consegui terminar meu primeiro curso noturno, tive a oportunidade de ser secretária júnior na seção de vendas. Depois, secretária, e, por fim, secretária executiva de um dos diretores. Quando perdi o emprego, já traçava planos para o meu próximo curso de línguas. Tudo acabado! O novo diretor trouxera consigo sua própria secretária... Mantiveram-me um pouco por lá, enquanto foi possível. Mas eu estava mesmo sobrando e os tempos eram de crise... Nem que passasse por cima do orgulho poderia voltar lá para pedir auxílio a quem quer que fosse. Antes de ir embora, eu dissera ao diretor o que pensava dele e de suas manias sofisticadas, os complicados nomes de vinhos, marcas de carros esporte italiano, palavras estrangeiras cuidadosamente inseridas nas conversas ao telefone e sua preferência por mulheres muito bonitas e muito burras. Ele me acusara de ser comunista. Eu nem sabia direito o que fosse um comunista e dissera a ele que era apenas uma mulher sincera e estava contente por ser o que ele jamais seria. Alguns dos meus colegas, embora me apoiassem e considerassem injusta a minha demissão, assustaram-se um pouco com a acusação do diretor. Tentei saber o que ele estava querendo dizer ao chamar-me de comunista, mas ninguém quis tocar no assunto. Pareciam todos muito nervosos quando se falava nisso. Não insisti. Todos temiam perder seus empregos. Era a crise que começava depois de breves anos de prosperidade e milagre econômico.
Olhei melancolicamente para uma brochura esquecida ao lado da TV. Era o último livro que eu pudera comprar, com meu último salário. Ironia: estavam bem próximos, o vestido na mala e o livro ao lado. Produtos do primeiro e do último salário... O vestido fora muito mais emocionante e ainda poderia ter alguma utilidade. O livro eu dificilmente chegaria a compreender. Fora conseguido quase de graça num sebo do centro da cidade. Eu entrara lá perguntando se tinham alguma coisa bem fácil que pudesse apenas me esclarecer sobre este misterioso comunismo. O caixeiro da loja me pareceu (como todo o pessoal do escritório) terrivelmente confuso e assustado e chamou o gerente. Conversamos. O homem levou-me para um canto, nos fundos da loja, fez mil perguntas e , por fim, sumiu por uma porta. Voltou alguns minutos depois com aquela brochura encapada em papel pardo. Vendeu-me muito barato o tal livro, tão barato que pensei que o comunismo fosse tão feio que não tivesse mesmo nenhum valor. Agradeci. Naquela mesma noite, quando Julinho adormeceu, abri, com muita curiosidade, o volume. Chamava-se "A Origem do Capital" e eu nem sabia pronunciar o nome do autor. Por mais que me esforçasse, não entendia nada do que estava lendo. Muitos anos depois, sob a benéfica influência de Mr. Virousnce, é que vim a saber do perigo a que me expusera então. Naquela noite pude apenas refletir que o vestido mini seria bem mais útil do que o incompreensível livro de Marx. Ainda poderia usar o vestido. Poderia vesti-lo sobre uma calça, como se fosse uma túnica, e sair. Na primeira esquina tiraria a calça e a guardaria na bolsa. O comprimento do vestido, fora de moda, asseguraria o entendimento puro e simples das minhas intenções e dispensaria até mesmo as palavras que eu não saberia dizer. Por uma noite...ou duas.
Preparava-me para abrir a velha mala quando uma voz mais forte na locução dos comerciais de TV desviou-me a atenção. Dizia mais ou menos assim: "Você, mulher dinâmica, moderna, ambiciosa, procura trabalho?"(Quase ri. Eu sabia exatamente o que aquele tipo de texto diria a seguir)"Temos um produto de imediata aceitação..." Mas, para não sofrer crises de consciência (afinal, eu estava procurando emprego) anotei o endereço. Pelo menos havia alguma coisa de diferente naquela anúncio: estava sendo veiculado na TV, eu nunca vira antes oferta de emprego por um veículo caro como a televisão. Poderia ser bom, embora eu respondesse a todos os anúncios de vendas e jamais tivesse conseguido nada além de inúteis caminhadas e despesas de lanche e condução quando não precisava ainda alugar bolsas e/ou uniformes do próprio empregador. Não vendi nada, jamais.
Não pensei duas vezes. Agarrei a bolsa e saí. Fui imediatamente ao tal emprego. Era uma rua calma, num bairro residencial de gente rica. Bem estranho. E o nome da empresa, então? Mais estra nho ainda: Virouns & Virouns. (leia-se: váirãuns andi váirãuns).
Houve um tempo em que eu afirmara que passaria fome com felicidade mas jamais trabalharia como vendedora de campo. Nunca -- esbravejava eu, do alto da segurança de meu salário como secretária. "Nunca" é realmente uma palavra típica dos muito jovens.
Lá estava eu e eaceitaria qualquer emprego que quisessem me dar.
Era uma empresa bem diferente daquelas que encontrava normalmente respondendo a anúncios que pediam vendedoras sem qualificações específicas.À entrada só uma discreta placa metálica onde estava gravado o nome da empresa.
Um recepcionista, muito bem vestido, conduziu-me a um hall deslumbrante, onde muitas moças conversavam aos sussurros, num tom de voz certamente imposto pela grandiosidade do ambiente. Havia mulheres de todos os tipos, idades e classes sociais. Mas eu era, sem dúvida, a mais humilde de todas. Pensei na extrema ironia: saíra às pressas, por impulso e sem me preocupar com a aparência quando, no mesmo dia, pela manhã e ostentando um dos meus melhores costumes, fora recusada por um escritório imobiliário. As vagas do tal escritório da manhã deveriam ser preenchidas, segundo o anúncio do jornal, por "moças de até 30 anos, muito bem aparentadas, seguras de si, para servir aperitivos aos nossos mais importantes clientes". O entrevistador sorrira divertido ao examinar-me a ficha:
-- Por que, com sua qualificação, pretende esta vaga?
Foi impossível convencê-lo da minha necessidade de trabalho. Durante toda a entrevista ele mantivera aquele sorriso descrente no canto dos lábios:
-- Este não é um trabalho para alguém de seu nível. Está muito aquém de sua capacidade. Está muito abaixo também de sua faixa de rendimentos.
Tentei de todas as formas convencê-lo de que realmente necessitava de qualquer trabalho. Meu filho, ainda muito pequeno, estava àquela hora chorando sozinho num quarto de pensão. Chorando de fome. E o homem encerrara a questão explicando que, além de ser muito inconveniente, para mim, aceitar as condições de trabalho propostas por eles, seria incoveniente também para a própria empresa: a diferença de nível existente entre mim e as moças normalmente contratadas para aquele trabalho, acabaria gerando problemas graves. Com a minha ficha lá, quando aparecesse uma oportunidade, eles certamente me chamariam, explicou. Neste momento esperei ouvir o clássico "se eu puder ser útil de alguma maneira, independente de minha posição profissional..." Mas ele apenas se despedira com um sorriso franco. Pelo menos, gostei do tal homem. Era muito raro encontrar um homem que não acreditasse que todas as mulheres são prostituíveis, dependendo apenas de preço.
Durante o almoço, na pensão, eu comentara a entrevista.
O almoço era, para mim, um verdadeiro suplício. Eu estava sempre morta de fome e procurava comer o mínimo possível, lentamente, com medo de olhar para a Dona Adelaide, que acompanhava com regularidade mecânica o movimento de meu braço ao levar o garfo à boca, como se seus olhos calculassem o peso e o valor de cada porção de alimento que eu consumia. Além disso, as outras pessoas à mesa sabiam que estavam pagando também por aquilo eu comia. O comentário da minha senhoria fora absolutamente seco:
-- Você, pobre como está, deveria se envergonhar de andar por aí vestida como uma rainha.
Se, pela manhã, eu estivera bem vestida demais para o que pretendia, ao entardecer estava completamente em desacordo com o ambiente. Algumas moças olhavam-me com ostensivo desprezo. Eram bonitas e a maioria delas exibia um orgulhoso bronzeado de inverno. Fumavam os benditos cigarros da moda, os tais importados. Puxei meu maço da bolsa e acendi também um deles. Não que estivesse com vontade de fumar...minha garganta doía e minha boca estava horrivelmente seca. Imediatamente censurei-me pela atitude infantil. Elas não voltaram a fumar.
Foi longa a espera.
Quando já noite alta saí finalmente da Virouns & Virouns, lamentei que meu filho não fosse ainda um pouco mais velho para poder entender a situação: como ficaria feliz se soubesse que sua mãe tinha afinal um emprego!
Eu não sabia, ainda, que aquela tarde ficaria para sempre marcada em nossa vidas e que a data seria, dali para a frente, lembrada e festejada como o dia em que o universo começara a mudar para nós.
II
Neila movia-se com a segurança de um militar e a leveza de uma garça. Paradoxal, como tudo naquela pequena (e forte) mulher. Dizia-se dela, a meia voz, que teria acesso(e, quem sabe, até mesmo alguma influência) à cúpula da Virouns.
Era reservadíssima e agia como uma das simples treinadoras de equipe, embora fosse a coordenadora de todas as treinadoras e equipes, por atribuição de seu cargo de Supervisora da Unidade 8.
Acima dela, só o Diretor Geral e o de Pessoal.
No cotidiano, Neila era a líder, o eu-ideal de cada funcionária, já que suas atitudes eram admiradas e raramente contestadas. (Aprendi rapidamente, entre outras muitas coisas, que contestar não era verbo que se usasse numa empresa como a Virouns)
Embora sua vida particular gerasse a natural curiosidade entre todas nós, nada se poderia afirmar a respeito: ninguém nunca encontrava Neila por acaso na rua ou em um ambiente público qualquer, nada de restaurantes, vernissages, museus, conferências, teatro... Tampouco jamais ninguém a ouviu emitir qualquer opiniões que não fosse sobre o trabalho ou sobre assunto que direta ou indiretamente dissesse respeito à Virouns ou ao nosso posicionamento com relação a esta.
Isto tudo poder parecer muito antipático e arrogante num ser humano comum, mas combinava com a personalidade dela; ela simplesmente era aceita e conseguia manter-se próxima de todas nós. Com o tempo, nos esquecíamos de suas do quanto era diferente de nós e passávamos a imitá-la em tudo: roupas,corte de cabelo, postura, tom de voz. Nunca paramos para pensar que imitávamos e invejavamos uma mulher que, de fato, desconhecíamos.
Hoje reflito e me parece incrível que, depois de ter trabalhado todos os dias úteis de meus trinta anos de Virouns ao lado dela, eu jamais tenha sabido se ela morava na zona sul ou norte, se gostava ou não de chocolates, se amava alguém, se tinha filhos...
Mas ela poderia, sem dúvida, contar a minha vida tão bem ou melhor do que eu própria. Ela era a nossa confidente, ouvia nossas dificuldades, dúvidas, angústias e também os sonhos. Tudo com aquele ar concentrado e sério que usava para assistir ao boletim internacional diário da Virouns Central. O ar de absoluto interesse de Neila ao examinar relatórios, ouvir confidências ou assistir as repetidas mensagens da nossa TV interna, confesso, tentei imitar em meu próprio rosto, inúmeras vezes, diante do espelho.
Sei agora que Neila nos ouvia com o mesmo interesse que colocava em seu trabalho porque zelava por nós da mesma maneira que zelava pela Virouns: éramos peças vitais da máquina e seríamos substitu ídas quando perdêssemos a nossa eficiência; substituir porém significa investir (a Virouns exigia treinamento muito específico, até mesmo na maneira de raciocinar), sendo portanto importante conservar.
Neila nos conservava.
Ah... ainda penso muito nela.
E ocorre-me às vezes o louco e emocional pensamento de que ela, nada além dela, fosse a própria Virouns. Raciocinando, diria que Neila era a imagem fiel da segurança que a Virouns proporcionava, tinha a eficiência que Virouns pregava, era completamente sadia, como o próprio espírito e corpo da companhia.
Isto, sim. Mas a Virouns, não. A Virouns é, sem possibilidade de erro, apenas e tão somente Mr. Virounsce, claro.
Não fosse o meu confuso estado de espírito e eu teria achado desconcertante aquela minha primeira entrevista com Neila, na tarde em que fiz o primeiro real contato com a empresa que seria, dali para a frente, toda a minha vida. Das horas que passei no confortável hall principal da Virouns 8 (que não sabia o que era nem como se chamava, ainda) muito pouco ficou na lembrança. Exceto a música, que parecia brotar de cada ponto, poro, da parede, como se toda ela fosse uma enorme caixa de som. Só anos depois fui ouvir novamente aquela música: A Sinfonia Júpiter, 41º de Mozart, e imediatamente fui transportada aquele primeiro dia de Virouns...Quão forte podem ser as lembranças!
Contei certa vez, numa sessão de Depoimentos de Vida, esta emocionante recordação e foi com ainda mais emoção que,duas semanas depois, vi a Sinfonia Júpiter ser o tema de nossa sessão Incult (Informação e Cultura) da TV interna. Devo admitir que, depois disso, passei a assistir TV com mais freqüência.
Mas estou me dispersando.
Eu falava daquela tarde e de meu primeiro encontro com Neila. Até hoje posso rever em minha mente cada um daqueles momentos. Os meus sapatos (como fora esquecer de limpá-los?) afundando no grosso tapete e o meu coração batendo acelerado, enquanto eu atravessava a porta de vitrais, admirada com o pé direito do edifício, tão alto, e me sentindo muito, muito pequena...
A suavidade reconfortante da música ficou do lado de lá, quando a porta foi fechada. Muito de mim, embora eu ainda não pudesse ter consciência disso, também ficara.
E então eu a vi. Neila estava a trinta passos de mim, quase um ponto, no meio de uma interminável mesa de escritório. Caminhei para ela e, de repente, seus amendoados olhos escuros pareceram ocupar todo o meu campo visual. Quando, num segundo, tudo clareou, ela sorria e eu estava me sentando diante dela para, afinal, encerrar o meu quinhão de angústia nesta vida.
A entrevista foi longa. Ela explicava e eu, fascinada já por sua força pessoal, ouvia. Multinacional. Oportunidade única, empresa única, filosofia única naquele terceiro mundo. A certeza de uma carreira justa, dependendo apenas do esforço pessoal, certeza de reconhecimento e certeza de constante aperfeiçoamento profissional e pessoal.
Eu passaria, ela explicou, por uma série de testes que durariam um mês, depois mais dois meses de experiência, caso passasse nos testes, é claro. Tudo isso para a admissão. Mas o período era remunerado e oferecia os mesmos benefícios recebidos por todos.
Assim, quando fui conduzida à saída, estava radiante por ter garantido, pelo menos por algum tempo, um salário. Na manhã seguinte o ônibus da empresa iria me buscar na pensão para conduzir-me ao campo da Virouns 8, uma área distante e isolada por cercas vivas, de hibiscus floridos (que deveriam ser muito antigos pois seus arbustos alcançavam bem uns três metros de altura) e visível da estrada, como um longo muro verde com pontos coloridos, que aos poucos, se distanciava do leito do asfalto, sumindo no horizonte.
Finalmente, eu estaria chegando em casa.
III
Lentamente, a medida que minha vida ia se tornando a Virouns, fui assimilando as explicações e ensinamentos de Neila, sempre, mais dia menos dia, confirmados pela realidade. Fui aos poucos me acostumando a ver a vida com outros olhos, a empregar outras fórmulas de pensamento, a usar um novo vocabulário.
O mundo se abria para mim.
Na Virouns, aprendi tudo o que sei. Aprendi a apreciar boa música, que antes me entediaria. Descobri o prazer, antes impensável,que pode causar a emoção transmitida pelo verdadeiro artista em sua obra. Aprendi cinema, teatro, literatura, escultura, pintura... Porque tudo isso fazia parte de nossas vidas e tudo isso foi despertando em mim o gosto pela atividade cultural, pelo estudo, pelas letras. Antes, eu estudava apenas para melhorar as oportunidades profissionais e ganhar mais dinheiro. Na Virouns, ninguém precisava se preocupar com dinheiro. Nem me lembrava do salário, pois este era bom e calculado pela moeda da matriz, protegido das constantes desvalorizações de nosso pobre dinheiro.
Em dois anos, tornei-me uma outra mulher, muito melhor do que jamais sonhara ser. Sabia me comportar em qualquer ambiente, sabia me vestir, meu corpo e minha postura mudaram, tinha desembaraço e segurança e havia em mim um novo e verdadeiro interesse pela história da humanidade e pelas manifestações inteligentes dos seres humanos.
Mas não foi assim somente comigo. Todos nós crescíamos dentro da Virouns, aprendíamos ali o gosto pelo bom gosto. Algo bem diverso do que se via na nossa badalada intelectualidade local de então, onde a cultura e a instrução superior eram, com raras exceções, apenas mais um fator gerador de status na longa lista de status a conquistar; eram, enfim, mais um produto de consumo que, como qualquer outra futilidade, vinha de fora para dentro e soava falso, como um acorde dissonante...
Ah! Como aprendi a me orgulhar de pertencer ao mundo à parte que a Virouns criara dentro de nossa pobre sociedade...
Estava trabalhando lá havia pouco mais de três anos quando recebi, finalmente, aquele que era o verdadeiro passe para assegurar a presença de alguém no fascinante mundo da nossa empresa. Veio junto com o dinheiro que retirei do banco eletrônico, assim que o pagamento do mês fora depositado: duas finas chaves de prata, embutidas num novo cartão magnético. Retirei-as, emocionada. E, dia seguinte, Julinho e eu nos mudamos para um delicioso apartamento em uma das superquadras da Virouns, na Zona Leste. Dali para frente o trabalho me absorveu cada vez mais; conquistei gra dativamente posições superiores, fiquei com tempo suficiente para realizar muito mais do que sempre sonhara.
A vida nas superquadras era de uma tranqüilidade realmente fora do comum. Havia uma empregada para cada pavimento de quatro residências, o que me livrou para sempre das estafantes tarefas de limpeza; todas as manhãs o telefone nos despertava e tínhamos café no refeitório, com enorme variedade de opções, durante 3 horas, para os diferentes turnos; Julinho ia pra escola da Virouns e eu para o escritório; almoço leve e jantar eram servidos nos apartamentos pelo refeitório de cada superquadra.
Na escola, as crianças tinham seu dia inteiramente preenchido por atividades de aprendizado e de lazer. A educação de meu filho jamais teria sido tão primorosa sem a Virouns. Ainda que eu tivesse posses e meios para pagar pelo melhor, não existia em nosso pobre país nada semelhante ao eficaz sistema de ensino adotado pela Virouns, uma pedagogia criada por Mr. Virounsce.
Tínhamos, na Virouns, tudo o que nos era necessário sem precisar ao menos sair da quadra: compras, cinema, restaurante,ginásio poliesportivo, ambulatório, centro de processamento de dados e informações, teatro, farmácia, palestras, escolas e festas. Tudo na quadra era administrado por um comitê eleito pelos moradores e renovável a cada cinco anos. Era um sistema democrático e participante. Uma mini cidade dentro da pobre cidade.
Durante muitos anos sonhei em encontrar pessoalmente, ainda quefosse de longe, num seminário ou comemoração, Mr. Virounsce. Quando fiz a minha primeira viagem ao Exterior (fui à sede da Virouns I), esta era minha secreta esperança.
Certa noite, porém, compreendi a superficialidade deste meu desejo. Encerrando o ciclo de instrução que nós, estrangeiros, fôramos receber na sede, houve uma palestra seguida de vivência coletiva para os 1500 visitantes. Esta foi uma das mais ricas experiências da minha vida. Deslumbrada, encantada, voltei ao meu alojamento (igualzinho aos nossos apartamentos da Virouns 8) e pedi ao serviço de som (aquele misterioso som que brotava das paredes no me primeiro dia...) que me proporcionasse a 41º Sinfonia de Mozart. Servi-me de um licor e fui até o terraço. Sob a noite estrelada (todas as unidades da Virouns, a exemplo daquela sede, eram um pouco afastadas dos grandes centros, assim, longe das luzes da cidade, via-se o firmamento limpo) e com a iluminação baixa da superquadra, a Virouns I em muito pouco se diferenciava daquela que era o meu lar. Até o traçado dos jardins era idêntico. As ruas. A disposição dos prédios e os próprios prédios. Sentindo-me em casa e ainda trazendo dentro de mim a emoção das recentes descobertas interiores partilhadas com outras mil e quinhentas pessoas, parecidas comigo, que provavelmente deviam o progresso de suas vidas à nossa Organização, com a "minha" música ressoando dentro de mim, experimentei a mais plena sensação de felicidade de toda a minha vida. E percebi toda a extensão dos privilégios e benefícios e sabedoria que eu estava recebendo ali, compreendendo afinal que eu já conhecia e, muito bem, Mr. Virounsce, pois ele era a alma de tudo aquilo, e tudo aquilo estaria para sempre impresso em minha alma.
Raramente eu tinha oportunidade de ver a cidade onde morava. Na verdade, eu não morava na cidade: morava na Virouns. Não saía de lá para nada. Havia supermercado e magazines e serviços de todo o tipo dentro das superquadras da Virouns.Só passava pela cidade quando viajava ao Exterior e precisava usar o aeroporto local, ia de ônibus, ou de motorista particular ou de helicóptero (dependendo do degrau da carreira onde eu estivesse então), muitas vezes no meio da noite ou entretida em alguma leitura durante o trajeto...Fato é que eu nada via do percurso, nada via da cidade (que ironicamente fora alvo de meus sonhos de infância).
Já tinha eu bem uns dez anos de Virouns quando, voltando do Exterior, meu motorista fora me apanhar no aeroporto da cidade e, indo para a Virouns, ficamos detidos por um interminável congestionamento de trânsito. Joe, o motorista, começou a chamar minha atenção para as mudanças ocorridas ao redor da avenida onde estávamos parados. Aquela era (para meus olhos acostumados ao padrão Virouns, ao menos) uma cidade muito, muito feia; suja, crescendo desordenadamente e sem nenhum planejamento.
Lentamente, o trânsito afinal começou a se mover. Pelas janelas do carro, eu observava, surpresa, como se estivesse vendo tudo aquilo pela primeira vez.
Parecia-me inacreditável que há apenas dez anos passados eu tivesse vivido ali, diariamente metida naquele atrasado sistema de transportes coletivos, espremida entre aquela gente estranha e sem asseio, sorrindo para aqueles rostos que hoje me fariam chorar. As pessoas da rua tinham fisionomias tristes e tensas. A maioria subnutrida (na Virouns nossas refeições tinham cardápios cientificamente balanceados para proporcionar o mais alto grau de acerto em nossas necessidades nutricionais individuais), amarelada. Mulheres ainda jovens, com o corpo já deformado pela obesidade ou curvadas pelo tempo e pela dureza de seu cotidiano. Algumas horrivelmente gordas, outras horrivelmente magras... Por que a feiúra é mais visível nas mulheres? A cidade crescera muito e empobrecera demais. Só a Virouns era responsável por mais de 50% da arrecadação municipal, mas a cidade era pobre frente às suas mais básicas necessidades. A cidade não parava de crescer: prédios sofisticados erguiam-se onde antes estavam majestosas residências, dos antigos donos da terra, a falida aristocracia rural e a miséria se espalhava horizontalmente, amontoando-se precariamente em torno da cidade, como uma poça d'água que se espalha, já chegando até bem perto dos muros de flores da Virouns. Tudo isso eu pensava observando a cidade pela janela do carro em movimento. Senti uma profunda piedade por aquela gentinha triste. Eu fora um deles. Meu passado inspirava-me piedosas lembranças.
-- Joe -- disse eu pelo comunicador do automóvel -- você conhece o bairro da Soledade? Poderia me levar até lá?
-- Gostaria de ir agora, senhora?
-- Sim, quero procurar uma pessoa...
Dei o endereço a ele e comecei a pensar porque tivera aquele súbito impulso de ir até a pensão onde eu morara antes de ir trabalhar na Virouns. Não era apenas curiosidade, vontade de rever a imagem do passado. Era uma vingança, percebi. Eu sentira, de fato, vontade de rever a pensão onde morara e rever Dona Adelaide (ainda estaria viva?) apenas para mostrar ao meu passado e à Dona Adelaide que eu subira na vida, que pertencia agora a um mundo superior aquele que, outrora, quisera me humilhar. Reconhecendo o sentimento, misturei vergonha de mim mesma à raiva surda que a visão da cidade me pusera no peito.
Pareceu-me muito decadente a casa da pensão. Sufocada entre dois prédios de apartamentos populares, construídos depois da minha estada ali, não deveria tomar sol há anos. Joe tentava estacionar o carro na calçada da frente quando a vi, pelas grades do portão principal. Ela parecia ter envelhecido mais que a casa. Como sempre, ao avistar o carro imponente, aproximou-se, ávida de qualquer novidade que lhe colorisse o cotidiano. Levou um minuto para me reconhecer. Então, enquanto eu saía, meio sem graça, do carro, ela abriu os braços e avançou quase ameaçadoramente. Temi ter, instintivamente, recuado um passo. Abraçou-me. Parecia emocionada. Depois, as mãos perigosamente próximas da gola de minha blusa branca, segurou-me pelos ombros, afastando-se para me ver melhor e bombardeando-me com o que parecia sair um discurso de satisfação. Enquanto formulava um montanha de desordenadas perguntas, ia me empurrando casa adentro, ansiosa por exibir-me aos seus hóspedes. Por que não lhe escrevera? Por onde andara em todos estes anos? E o Julinho? Mas que roupas lindas e tinha chofer! Por acaso arrumara um homem, um figurão, um coronel? Era isso, não era, ela era esperta, podia adivinhar...
Serviu-me café. Era delicioso. Bem diferente do café servido na Virouns e eu me surpreendi por ter me esquecido disto. Falou-me sobre os novos prédios, seus vizinhos laterais, um verdadeiro suplício, coisas voando das janelas, sombra e piadinhas de mau gosto.
-- Esta cidade vai morrer sufocada debaixo de seu próprio lixo -- disse, subitamente triste.
A casa estava mais velha, Dona Adelaide estava mais velha, mas o tempo parecia ter parado dentro da pensão. Os hóspedes pareceram- me assustadoramente iguais aos da época em que eu morara lá. Os mesmos tipos, talvez estes ainda mais tristes, mas os mesmos: o estudante pobre, o caixeirinho homossexual, a operária de cabelo oxigenado que passa o domingo vendo TV, o velho aposentado e solitário que insiste em conversar sobre política sem perceber que todos temem o assunto...Todos desfilaram diante de mim, reverentes e solícitos, a medida iam chegando de seus afazeres do dia. Escurecia lá fora e eu pensava em ir embora, quando Dona Adelaide deu um pulo na cadeira. Lembrara-se de algo que eu dei xara lá e foi correndo buscar. Era o tal livro. Marx. Tive que sorrir, diante desta outra lembrança. Ela aproximou a cadeira para mais perto de mim e perguntou, com um certo ar de suspense:
-- Agora que estamos sozinhas, você pode me falar dele...
-- De quem, Dona Adelaide?
-- Ora -- riu ela, maliciosa -- do homem que você arrumou para lhe sustentar...
-- Ninguém me sustenta, Dona Adelaide. Só meu trabalho. Quanto aos homens, nada muito sério. Alguns bons companheiros...
-- Ah! -- fez ela, um tanto escandalizada -- então você tem muitos!
Eu ri:
-- A senhora não está me entendendo. O que possuo, e nem é grande coisa, é tudo fruto de meu trabalho numa grande empresa. Quanto ao carro e ao chofer, não são particulares, são da própria empresa e eu tenho o direito de utilizá-lo quando necessário.
-- Ah... -- ela agora parecia incrédula -- onde é mesmo que você trabalha?
Então eu falei, em linguagem que lhe fosse acessível, sobre a minha vida na Unidade 8 da Virouns & Virouns.
Escutou-me sem interrupções.
Quando terminei ela tinha os lábios contraídos, o rosto tenso. Julguei que talvez nem tivesse me ouvido.
-- A senhora está se sentindo bem? -- perguntei.
-- Gostaria que você tivesse continuado morando aqui e não tivesse se vendido a essa gente.
Tentei argumentar porque não entendia o que exatamente, além de inveja, aquela velha senhora poderia ter contra uma empresa como a Virouns. Mas ela nem me deixou terminar, interrompendo-me em meio a uma frase qualquer:
-- Você quer outro café antes de ir embora? -- perguntou.
Aceitei. Era requentado, estava morno e amargo.
Diante do súbito mau humor da velha, eu me despedi. Ela nem me acompanhou até a rua. Antes de bater a porta da sala, mal eu me afastara, disse-me pelas costas:
-- Você só mudou mesmo por fora. Por dentro, continua a mesma interiorana ingênua.
Três anos mais tarde, faleceu. Eu soube quase por acaso, correndo os olhos distraída pelas pequenas notas do jornal local. Enviei flores mas não recebi nenhum agradecimento.
IV
Poucas pessoas ocuparam lugar de destaque em minha vida.
Tive dezenas de amigos, todos eles espalhados pelas quadras da Virouns em todo o planeta. Correspondia-me com gente de todas as culturas, trocando idéias através de volumosas cartas e até por uma rede interna de computador,que ligava por telefonia de satélite, cada unidade Virouns sobre a Terra. Fazia parte da filosofia Virouns a interação e a troca constante de experiências, que praticávamos não só entre os membros da comunidade e do cotidiano profissional, mas também entre membros da Virouns de todo o globo. Todos os contatos entre nós eram valorizados. O hábito do diálogo era uma realidade para quem vivia o privilégio de ser Virouns. Isto - o diálogo - não nos levava, como se poderia pensar, à árida racionalização dos sentimentos e das emoções, mas sim ao espírito prático, ao pensamento lógico, à aceitação de nossos impulsos e também de nossas limitações.
Não havia, na Virouns, lugar para emoções doentias, paixões alucinantes ou dependências afetivas.
Nossa afeição pelas pessoas era construída sobre a convivência e tinha base sólida, frutificava e era gratificante. Como o ganho de um bom investimento.
Nenhum grande amor marcou a minha vida. Mas jamais estive só, sempre tive companheiros.
Com exceção de Dona Adelaide (que marcara uma época de escuridão em minha vida), de meu filho (evidente) e de Neila (por sua constante e positiva influência), só Mr.Virounsce foi, para mim, alguém muito importante, admirado e amado.
Posso lembrar-me de cada vírgula do primeiro comunicado pessoal que recebi dele. Apresentava-se, definia com inacreditável clareza toda a nossa filosofia de trabalho e cumprimentava-me, a mim pessoalmente, pelo recebimento das chaves de ouro, as que me dariam, então, o direito de morar num apartamento luxuoso das superquadras da Zona Sul, mas que também, muito mais importante do que o apartamento, significavam a minha completa Assimilação: eu me tornara um verdadeiro membro da Virouns, que proveria todas as minhas necessidades, acontecesse o que acontecesse, até o fim dos meus dias.
Pensara até então que, depois de passadas quase duas décadas, nada mais poderia me emocionar assim: a chave de ouro, fina e delicada, tremia em minhas mãos e lágrimas me vieram aos olhos. Havia outras pessoas no meu gabinete, mas todos foram discretos.
Mais tarde, em casa, li e reli o comunicado até sabê-lo de cor e poder visualizar cada linha do texto, estampado em minha tela particular. Até penetrar profundamente no sentido de cada breve e objetivo pensamento... E compreendi com mais profundidade ainda o absurdo do desejo que tivera antes, no começo, desejo quase obsessivo de conhecer pessoalmente Mr. Virounsce. Quanto eu amolara meus colegas e quão ingênua deva ter parecido em minha ansiedade infantil por ver um homem que, na verdade, estava presente em cada momento de nossas vidas. Era ele próprio quem redigia seus comunicados. Falava-nos quase todos os dias pela TV interna e havia milhões de documentários na memória de imagem de nossas telas particulares e públicas, feitos por ele, onde ele nos falava de perto.Palavras dele eram citadas a todo instante durante a rotina de trabalho, a exemplo disto ou daquilo e citações suas faziam sucesso em reuniões sociais...
Sua biografia era amplamente conhecida e divulgada.
Tivera origem humilde, ele também.
Sua história era fascinante. Da primeira vez em que a li, varei a noite, hipnotizada pelos muitos sentidos dos pensamentos e das experiências deste homem extraordinário.
Quantas e quantas almas não encontraram, como eu, seu caminho em direção à felicidade através da aplicação dos princípios assimilados pelas obras de Mr. Virounsce.
Ele tem inimigos também, dizem. Talvez até alguns deles possam correr os olhos por esta humilde narrativa que estou gravando para nossos arquivos e encontrar em cada palavra de exaltação um falso e causuístico sentido sórdido e vil. Mas o que fazer? Mr. Virounsce sabia também da inveja que grandes homens e grandes feitos geram nos medíocres.
Houvera um exemplo prático na Virouns 8: aconteceu com um rapaz, embora a maioria de nossos funcionários fossem do sexo feminino. Ele teria, no máximo, vinte e dois anos quando foi trabalhar no meu departamento. Eu tinha, então,uns dez anos de empresa. Carlos, esse era seu nome, não estava conseguindo sucesso em adaptar-se aos nossos padrões de pensamento e, por conseguinte, de atitude. Para mim estava claro desde o começo: tipos como ele resistiriam à qualquer liderança, embora não fosse ele próprio um líder. Mesmo assim, no princípio, tentei ajudá-lo, compreende-lo, fazer com que se adaptasse. Depois já me impacientava. Vivia a murmurar coisas inaudíveis por entre os dentes e havia quem dissesse ter escutado idéias absurdas de sua boca. Ele teria dito, por exemplo, que todas aquelas mensagens e filosofias que nos impingiam (teria sido o verbo usado) nada mais eram do que uma lavagem cerebral, uma maneira antiga e conhecida de transformar e canalizar nossas aspirações e, por fim, impedir-nos uma verdadeira consciência. (Aqui eu ficava realmente irritada: afinal fora na Virouns que eu adquirira alguma consciência!)
Ele teria dito ainda que os privilégios dos quais desfrutávamos, diferentemente do povo em geral, nada mais seriam do que uma forma de comprar a nossa cidadania. Segundo Carlos, através da assimilação dos falsos valores que a Virouns nos impunha e que as comodidades de que desfrutávamos criavam, estaríamos negando a nossa própria cultura, os nossos próprios valores e até a nossa história.
Pensei em afasta-lo, ao ouvir estas coisas. Se bem que não o considerasse perigoso. Ninguém lhe daria ouvidos. Estavam todos, como eu, muito satisfeitos com a sua condição de vida. Mas acabei por enviar um relatório a Virouns 1, onde pedia uma orientação para o caso específico. Afinal, como eu já disse, contestar era um verbo que não existia na Virouns.
A resposta veio em papel do escritório central do próprio Mr.Virounsce, o que já me dava a medida da importância que tipos como Carlos poderiam ter para a Organização. Estava assinada pelo próprio secretário do Mr.Virounsce e dizia não acreditar que um membro provocador como o Carlos chegasse a influenciar os demais; pedia-me que tivesse um pouco mais de paciência. Afinal, Carlos é que terminaria influenciado pelos demais. "Peço-lhe ainda --dizia o comunicado -- que procure não mais censurá-lo, procure apenas tolerar, com bom humor, as críticas do rapaz. Acabará por vence-lo, pois a verdade sempre vence."
Era assim: Mr.Virounsce sabia-se um vencedor.
Acidentes não eram comuns na Virouns. Havia anos em que nós atingíamos a incrível marca de zero acidentes de trabalho na Virouns 8 e em outras Virouns também. Segurança era a preocupação número um em nossas atividades. No entanto, por mais treinamentos e reuniões e documentários...ninguém está livre de um acidente.
Certa tarde, recebemos assustados a notícia da morte de Joe, que tinha sido recentemente o meu motorista e fora transferido para uma das linhas de coletivos da quadra Sul. A transferência de Joe também fora uma surpresa. Por que razão afinal colocar um profissional tão bom e dedicado num cargo que, à primeira vista, parece inferior ao que ele vinha ocupando? Imaginei que Joe deveria ter fugido, de alguma maneira, às regras. Mas,além de não ser problema meu, da minha área de atuação, eu estava também acostumada a jamais duvidar do acerto das decisões superiores dentro da Virouns.
Tudo foi muito surpreendente para mim neste episódio.
O acidente que vitimara Joe e mais cinco membros da Virouns (eram trinta e cinco pessoas no coletivo) e mais três pessoas de fora, acontecera longe dos nossos muros e no caótico trânsito da cidade. Acidentes eram rotina no cotidiano daquela gente, mas acidente causado por veículo da Virouns significava um prato cheio para a imprensa local, que jamais perdia uma oportunidade de nos atacar. De fato, todos nos invejavam. E principalmente o secretário de Obras e Vias Públicas do município, colocado recentemente no cargo por um prefeito eleito pelo povo (tratava-se, no país, da primeira eleição direta depois de um longo período ditatorial onde militares se revezavam no poder).
Talvez por tudo isso, a polícia local aventou a possibilidade de Joe ter estado dirigindo sob o efeito de drogas e --outro prato cheio para a imprensa-- o mais grave: teria tomado drogas com a autorização médica da Virouns.Nenhum de nós poderia acreditar que a Virouns endossasse este tipo de irresponsabilidade. Mas nós já sabíamos bem que tudo naquele país era causuístico, toda a informação manipulada e toda o jogo politico, corrompido. Sabíamos também que a Virouns era incorruptível e que exercia uma certa pressão sobre os donos do poder. Era fácil, para nós que confiávamos na Virouns, perceber a razão de tais calúnias e boatos. Mas Carlos...Ah, pobre garoto...Carlos acreditava neles. Claro que ele aproveitou o triste acidente ocorrido com Joe para continuar a sua cantilena de desmoralização da Virouns. No entanto, conseguia apenas atrair a antipatia de todos e ouvi mesmo muitos de nós murmurando entre os dentes contra a tolerância da empresa com relação a alguém tão mal agradecido.
Foi por intermédio destes acontecimentos que estou narrando que fiz uma bela autocrítica: apesar dos meus dez anos de trabalho na Virouns, percebi, havia ainda muita insegurança dentro de mim; afinal eu não estava conseguindo me controlar diante dos discursos contestadores de Carlos, a verdade era que estes me abalavam de uma forma irracional, faziam com que eu me sentisse de volta àquela vida que eu abandonara, onde tudo era medo e interrogação.
Saí do trabalho, pela primeira vez em dez anos, deprimida, preocupada. Fui para a sauna, na tentativa de relaxar o corpo e acalmar a alma. Foi lá que conheci Malu. Nossa identificação foi imediata e começou ali uma grande amizade. Afinal, tínhamos um passado semelhante, vivências semelhantes e experiências semelhantes para trocar e analisar. Passamos a descer juntas (ela trabalhava um pavimento abaixo do meu) para o lanche da tarde. Eu me sentia realmente aliviada por ter encontrado uma companheira, alguém com quem eu podia me abrir, mesmo em relação à filosofia de trabalho da Virouns, assunto delicado demais para ser tratado de uma maneira superficial ou casual, como na maioria de nossos relacionamentos sociais.
Certa tarde, fui encontrar Malu em sua sala. Ela estava no toilette e fiquei por ali, esperando para, como sempre, irmos juntas para o lanche. Meus olhos se detiveram, por acaso, na tela pessoal de seu computador e lá estava um comunicado do secretário de Mr.Virounsce. Eu só podia ver parte do comunicado, mas vi o suficiente para saber que era igualzinho ao que eu recebera. Minha primeira reação foi de revolta: eu ficara tão orgulhosa ao receber um comunicado assinado pelo secretário de Mr. Virounsce e acabara de perceber que este também obedecera a um padrão, não era de fato um comunicado especial, redigido para mim... Por um segundo, meu mundo pareceu desmoronar. Depois refleti: é evidente que o secretário de Mr.Virounsce não poderia perder tempo com mensagens exclusivas e mesmo que o tentasse, não conseguiria, não poderia atender meia unidade da Organização por dia, quanto mais a Virouns toda... Era óbvio e tive mais uma vez consciência do quanto ainda faltava para que eu pudesse me dizer uma legítima peça daquela maravilhosa engrenagem...Como eu não incorporara ainda uma verdade tão simples como esta? O fato de existirem mensagens previamente preparadas não diminuía, em absoluto, sua importância ou sua eficácia. Lógico: se os casos eram sempre semelhantes, nada mais natural do que chegar a uma fórmula eficiente para cada um. Era mesmo típico de nossa organização procurar soluções que poupassem tempo e, principalmente, assegurassem a eficiência.
Acabei, por fim, sendo libertada das penosas decisões que as atitudes de Carlos exigiam de mim a todo momento. Já era de domínio de todos a paciência que a administração tinha para com Carlos e sua rebeldia, traduzida em indisciplina e inevitáveis problemas. No entanto, por mais que a Virouns protegesse seus funcionários não se indisporia, claro, com a polícia local. E foi a polícia local que veio, certa tarde de sol, buscar Carlos. De corajoso e altivo o rapaz se fez então insignificante e covarde. Se bem que não se possa censurá-lo por isso. Eu jamais soube a razão de seus problemas com a polícia mas sempre soube o quanto esta era arbitrária e violenta, sendo famosos seus métodos para obter confissões. Eu também teria tremido.
Nunca mais ouvi falar em Carlos.
Indiretamente foi Carlos o responsável por minha amizade com Malu. No dia em que descobri aquela uniformidade nos comunicados, ficara chocada. Fora Malu, então, quem me fizera ver o ridículo de minha pretensão, achando que eu teria a honra de um comunicado só pra mim, emitido pela iminência parda da Virouns, o secretário de Mr.Virounsce. Fiquei ainda mais amiga da Malu por admirar sua atitude com relação a esta minha fraqueza: Malu nunca me traiu, nunca fez qualquer comentário sobre este meu momento de insegurança e fraqueza passageira, jamais mencionou o incidente diante de outros colegas. Isto pode não parecer importante mas o era, e muito. Se Malu quisesse, poderia mesmo fazer com significasse uma perda de pontos importante para a minha carreira dentro da Virouns...Não era, de jeito nenhum, bom para nós qualquer sintoma ou demonstração de falta de confiança nas determinações superiores. Não me agrada confessar isso, mas estive mesmo a vigiar Malu, nos primeiros tempos após este incidente e esta vigilância acabou por nos unir ainda mais numa firme amizade. Amizade resultante dos muitos assuntos e pretextos que eu vivia, então, inventando para não perdê-la de vista.Nas horas de trabalho isto era ainda mais cansativo para mim, mas havia também quem me mantivesse informada, quem colaborasse comigo neste jogo duro. Por uma simples palavra dela, minha segurança profissional poderia estar ameaçada... Foi este um dos períodos mais difíceis dos meus trinta anos aqui na Virouns. Passou, como tudo passa. Malu provou sua lealdade. Realmente, ela compreendera aquele meu momento de vacilação e não o considerara muito importante. Afinal, todos tínhamos nossos períodos críticos, embora estes não fossem comentados abertamente, para não estimular outros.
Uma das crises mais comuns a todos acontecia no período de adaptação à empresa: a obsessão de conhecer pessoalmente Mr. Virounsce. Também eu passara por isso. Minha analista explicara, porém, a minha dificuldade que, no meu caso, tinha sua lógica. Para alguém tão sozinha como eu, encontrar Mr.Virounsce e toda a Organização significava encontrar a imagem da proteção e do amparo: daí a minha admiração filial exacerbada por quem significava toda a transformação da minha vida. Compreendi perfeitamente.
A partir de então, lentamente, a figura dele pela TV interna, suas palavras nos comunicados, sua invisível presença, tudo foi se tornando suficiente para mim. Conhecê-lo para que? Se ele estava presente em cada momento de nossas vidas?
Ainda assim, quando da minha última viagem à Virouns I, matriz, pilhei-me a procurá-lo em cada canto... Quando me dei conta de minha própria atitude, tratei de ir me policiando antes que alguém percebesse em mim sentimentos totalmente inadequados a uma funcionária que, como eu, já ultrapassara mesmo o tempo regular de aposentadoria. Além do mais, nós, da Virouns 8, tínhamos a obrigação de estar ainda mais atentos do que o pessoal das outras Virouns para este tipo de atitude provinciana e preconceituosa: não éramos nós seres do terceiro mundo? Não fôramos, na infância e juventude, subnutridos? Nossa educação básica, insuficiente? Não éramos os parentes próximos dos negros e dos índios? Então, não seríamos nós os mais sujeitos a cair neste tipo de armadilha do pensamento?
Graças a Deus, ninguém na Virouns I, notou a minha fraqueza. E hoje posso afirmar com segurança que aquela minha última viagem à Matriz em nada afetou a minha estabilidade profissional. Lembro- me de ter pensado em Dona Adelaide: no fundo, eu era ainda a mesma interiorana ingênua... Lembro-me também de que fora Malu a me esperar no aeroporto da cidade quando voltei desta viagem. Fiquei contente que fosse ela própria e não um chofer qualquer a ir me buscar. Desci no aeroporto da cidade porque o campo de pouso da Virouns 8 estava interditado (uma das muitas brigas com a administração municipal). Fora preciso, portanto, mais uma vez atravessar aquela cidade, sempre desagradável para quem estava acostumado ao padrão Virouns.
Malu dirigia com cautela pelo caótico trânsito do fim de tarde. Quase sem querer, eu traçava paralelos entre aquela capital provinciana e as cidades que eu acabara de visitar. Agora já não havia em mim sentimento algum de piedade por aquelas caras amareladas e envelhecidas, pelos habitantes daquele mundo atrasado e ignorante...Percebi, com horror, que eu fora um dia parte daquele mundo e daquele povo, e mais, que chegara mesmo a orgulhar-me de ter conquistado aquela cidade...Não, não, pensei, estou sendo injusta, como posso sentir tal desprezo por aquilo que eu mesma fui no passado?
Tentei transmitir à minha amiga aquelas inquietações. Malu ouviu- me e limitou-se a dizer com chocante naturalidade:
-- Ora, não se martirize com isso. Eu mesma detesto esta cidade e esta gente: eles são feios, sujos, e o que é pior, extremamente ignorantes!
V
Agora já se vão tantos anos destes fatos que narrei aqui... Mas creio ter conseguido colocar neste relato o que há de mais importante e significativo em minha história pessoal e profissional, com relação a Mr.Virounsce e a nossa organização.
Depois de minha aposentadoria, se eu quisesse, poderia ter escolhido voltar a morar na cidade. Nesta ou em qualquer outra, no mundo, que me agradasse.
Eu, no entanto, considero-me um ser da Virouns, alguém que deve tudo à Virouns e, por isso, aqui estou. Moro modestamente num apartamento de superquadra na Zona Leste da Virouns 8. Aqui, passei a minha vida e aqui quero morrer. Afinal, estou entre a minha gente, na área especialmente destinada e desenhada para os inativos como eu. Aqui, temos lazer, jogos e atividades culturais.
Nos últimos três anos, depois de minha aposentadoria, dedico-me mais ao estudo solitário da vida de Mr.Virounsce e menos às atividades de grupo. Minha aposentadoria, explicaram-me os médicos do nosso ambulatório, coincidiu com a fase crítica da vida das mulheres.
É por isso, explicam-me os doutores da saúde, que eu tenho estas terríveis crises de desespero, como se faltasse algo muito importante dentro de mim. São momentos horrorosos, não apenas para mim como para todos que porventura os compartilhem comigo. Começo a gritar desesperadamente, como se alguém estivesse me atacando. Tenho ímpetos suicidas. Ameaço atirar-me da sacada do apartamento e chego mesmo a atirar coisas nas pessoas que passam lá embaixo na calçada. Choro compulsivamente e fico irreconhecivelmente violenta.
Graças a Deus, as equipes do ambulatório chegam depressa e me levam para uma sessão de terapia intensiva. Durante um ou dois dias fico no ambulatório de saúde mental, onde sou muito bem tratada e as minhas crises são controladas com doses maciças de antidepressivos do tipo benzodiazepínico.
Ainda bem que eu tenho a Virouns!
Se essa doença me atingisse e eu vivesse na cidade, como a maioria, certamente já teriam me trancafiado num hospício. Aqui, eles sabem que tudo isso é muito natural numa mulher da minha idade...
Ah! Estou muito feliz por ter conseguido terminar este relato!
Mesmo que eu ainda não tenha encontrado resposta (que, estou certa, encontrarei) para dois pequenos pontos que não estão claros dentro de mim. Tentei falar sobre isso com os meus analistas, mas eles me aconselharam a, enquanto durar o meu tratamento, não tentar decifrar estes enigmas. Disseram mesmo que, depois, quando resolvida a questão da minha saúde, eu poderia acessar este relato no computador central da Virouns 8 e colocar aqui a solução. Então, por ora, deixarei registrados, para fechar com chave de ouro este relato, estes dois pequenos enigmas:
1)
Tenho, como já disse, dedicado o meu tempo livre ao estudo da vida e do pensamento de Mr.Virounsce. Um estudo aliás, maravilhoso. Aqui tenho lido e relido antigos documentos,feito análises comparativas, mas só um dado não bate bem: pelos meus cálculos Mr. Virounsce tem idade incompatível com a desse sessentão charmoso que vejo todos os dias na TV interna. Está certo: cirurgias plásticas, maquiagem, iluminação... Mas, mesmo assim, nestes trinta e tantos anos que passei na Virouns, ele pouco envelheceu e não poderia, é claro, como dizem os meus cálculos, ter mais de 110 anos de idade... Algo está errado nos meus cálculos, mas não consigo descobrir o quê.
2)
Por que eu fico tão doente às vezes? Outro mistério. Os médicos dizem que é assim para todas as mulheres. De fato, aqui na Virouns parece ser mesmo. Mas por que não encontro relatos de mulheres assim na história da cidade ou mesmo das famílias de minhas conhecidas mais queridas, como a Malu?
Hoje eu pareço ter esgotado todas as possibilidades de entender estes dois pontos. Mas, diante da minha história de realização e felicidade, o que importa?
EPÍLOGO
Madrugada.
Uma sirene rouca se faz ouvir nos quatro cantos da quadra oeste na Virouns & Virouns 1, sede. A turma amarela se reveza. Desaparece no subterrâneo principal aquele grupo de técnicos altamente especializados e a quem é proibido dirigir a palavra: os amarelos, respeitados e desconhecidos pela maioria, se revezam na gigantesca tarefa de manter atualizada a programação daquele monstro subterrâneo, a verdadeira alma da Organização, o computador principal, coração da grande empresa. Computador este, carinhosamente apelidado pela primeira turma de Amarelos, de Mr. Virounsce.
Bel, 1977, março



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