Cara de Confessionário
- SAUDE&LIVROS Fomm
- 13 de jan.
- 5 min de leitura
por Isabel Fomm de Vasconcellos Caetano
Veja vídeo (As Bruxas n.38 TV Paradise) onde conto essa história.

Sempre fôra assim. Desde muito menina, Adélia tinha uma força estranha, um magnetismo pessoal que atraía as outras crianças, um espírito que naturalmente liderava, suavemente liderava, deliciosamente liderava.
A mãe, Vilma, gracejava, ao comentar com o pai, Alberto, a cada vez que via uma das amiguinhas de Adélia se trancar no quarto de menina com ela: -- Começou a hora do confessionário!
Para cada questão, cada problema que os amigos vinham contar a ela, Adélia sempre encontrava, senão a solução, pelo menos, um caminho, uma alternativa. Por isso todos a admiravam e muitos a invejavam. E, embora em diversas ocasiões tivessem sido realmente ajudados por ela, ao virarem as costas falavam muito mal da suposta amiga: “Ela se acha muito sábia” – “Ela se julga superior a nós” – “É arrogante e convencida.”
Assim, muito cedo, Adélia percebeu que o Bem era frequentemente recompensado com o Mal. Nem por isso seu coração se fechou. Ao contrário. Havia em si aquela premente necessidade de ajudar aos outros, mesmo aqueles a quem ela mal conhecia. Era um impulso interior. Afinal, estava também em seu nome, que significa nobre e com força interior.
Durante toda a sua vida, porém, jamais pôde identificar, em si mesma, qual seria a sua característica que causava nos outros aquela enxurrada de confidências, aquela loucura de se aproximarem dela e ir logo despejando em seus ouvidos, os problemas que os afligiam ou ir contando a história – triste, quase sempre – da vida. Vilma resumia isso numa só frase:
-- Adélia, você tem cara de confessionário!
-- Mas por que, mãe? Por que eu?
-- Porque, minha filha, de fato todas as mulheres são bruxas. Mas, a cada uma de nós, o Universo concede um dom. Umas têm a Visão; outras, uma afiada intuição; algumas o dom da cura; outras, a capacidade de realizar as viagens astrais. A você, a vida brindou com essa maravilhosa capacidade de atrair as confidências e, assim, ajudar as pessoas a desabafar, a desatar os seus nós interiores. E, saiba, é o dom de cada uma de nós, que em dias difíceis, acaba por nos salvar.
E assim seria, durante toda a sua vida.
Cresceu, estudou, formou-se em Jornalismo. Sua mente e seu coração repletos com as histórias de vida sempre despejadas, por conhecidos ou não, em seus ouvidos.
Arrumou um emprego no departamento de jornalismo político de um grande emissora de TV. Rodrigo era um dos seus colegas e Adélia começou a sentir-se fortemente atraída por ele. Em poucos dias, transbordava de paixão. Seu corpo inteiro tremia, ao encontrar-se com ele. Mas aquela aliança no dedo anular esquerdo da mão dele era uma barreira, no entender de Adélia, definitiva. Começou o seu tormento. Estar todos os dias ao lado dele, ansiando por um roçar de mãos, imaginando abraços e beijos, fingindo sempre uma indiferença que estava longe de sentir.
Um dia foram cobrir juntos um evento político em Brasília. No avião ele disse: -- Ah, Adélia, estou numa fase muito difícil da minha vida. Precisando tanto desabafar!
Era a cara de confessionário em ação. E ele desabafou. Sua esposa tinha câncer de mama e o prognóstico não era dos melhores. Falou sobre as sessões de quimio e radio, que nem sempre a profissão permitia que ele acompanhasse; falou da dor dela, uma das mamas arrancada e, embora reconstruída, na mesma cirurgia, pelo plástico, ainda assim, ausente. Falou do medo. O dela, o de morrer. O dele, de que ela morresse. O das crianças, a menina de 3 anos, o menino, de 5, de perder a mãe. E perderam. Poucos meses depois.
No enterro, Adélia sentia-se muito mal. Deveria estar triste, por ele, pela família dele, mas o sentimento que a dominava não era esse. Era uma esperança quase alegre, a de que, sem ela, ela acabasse percebendo aquela sua paixão louca.
Se a esperança era alegre, a culpa roía-lhe o peito e a consciência. Como a morte precoce de alguém que entristecia a todos que estavam próximos, poderia colocar em seu coração uma alegre esperança? Eram os paradoxos da vida.
Nada mudou, no entanto. Ela continuava louca de desejo e paixão, sempre que estavam juntos no trabalho, e ele sem perceber nada. Como? – pensava Adélia—Será que nem os meus feromônios entraram em ação?
Um ano depois da morte da mulher, Rodrigo casou-se novamente, para desespero de Adélia. “Droga! Essa aí não vai morrer, né?” – pensava ela.
Mas, para a volta da doce esperança de Adélia, esse novo casamento de Rodrigo não deu certo. A esposa era jovem demais e não segurou o tranco de ser a madrasta de duas crianças ainda muito pequenas e cheias de ciúmes.
Assim, chegou o dia do aniversário de Adélia e essa resolveu comemorar num bar, próximo à redação da emissora onde trabalhava. Convidou os colegas, os pais, os irmãos e os amigos mais próximos. Rodrigo foi.
Nesses cinco anos de convivência profissional com ele, Adélia tentara de tudo para se livrar daquela paixão que estava lhe parecendo de fato irrealizável. Meditação. Academia pesada até a exaustão. Nadar na piscina gelada, no inverno. Acender incensos diversos. Repetir centenas de vezes a si mesma que existem milhões de homens morenos e bonitos no mundo, não apenas o “seu” Rodrigo.
Porém lá estava ela, na comemoração de seu aniversário, se flagrando trêmula e ansiosa, o desejando ainda mais intensamente do que antes.
De repente percebe que Rodrigo está sentado, na grande mesa de convidados, ao lado da melhor amiga dela, Ruth. E parecia bem interessado na moça. A qualquer pretexto tocava nela, sorria muito, acariciava de leve uma mecha de seus longos cabelos negros.
-- Ah! Só me faltava essa! – pensou Adélia – logo a minha melhor amiga!
Dia seguinte, Rodrigo, surpreendentemente, a convidou para almoçarem juntos no Reserva Cultural.
-- Preciso conversar com você!
Lá vem ele – imaginou – querendo usar de novo a minha cara de confessionário.
Mas a confissão, dessa vez, era o interesse por Ruth. Rodrigo se dizia realmente impressionado pela moça e queria que Adélia falasse dela, do que ela gostava, do que ele poderia fazer para agradá-la, conquista-la.
Adélia, sempre tão calma e conformada, sentiu o vulcão da revolta entrar em erupção no seu estômago. Ficou com o rosto em brasas e, num repente, na certeza de que, se estourasse, nada teria a perder, olhou bem dentro dos olhos dele e explodiu:
-- Olha aqui, meu amigo, durante toda a minha vida eu tive cara de confessionário, suportei as confidências de conhecidos e desconhecidos, mas agora, eu sinto muito, serei eu a me confessar. Estou cansada desse sofrimento, dessa angústia, desse horrível e constante desejo, nunca realizado, que escurece os meus dias e me mantém assim, trêmula, ora descrente, ora esperançosa. É o seguinte, cara: Ruth é a minha melhor amiga e ela jamais – jamais, entendeu? – aceitaria a sua cantada porque ninguém melhor do que ela sabe, que nos últimos cinco anos, desde que conheci você, o meu corpo anseia pelo seu, os meus olhos só veem você, a minha boca quer a sua boca, os meus braços querem os seus braços!
Ele empalideceu. E a única coisa que lhe ocorreu dizer, foi:
-- Mas por que você não me disse antes?
Bel, 2026, janeiro, 11


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