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Sete Anos Horríveis

  • Foto do escritor: SAUDE&LIVROS Fomm
    SAUDE&LIVROS Fomm
  • há 5 dias
  • 5 min de leitura

Para Marcella, era como se a vida fosse lhe tirando tudo o que até então lhe dera para compor o rol da sua felicidade.

 

Foi em fevereiro de 2019 que o seu amor, José, com quem ela se casara havia mais de 40 anos, começou a ficar mentalmente confuso e, num homem de 80 anos, esse mentalmente confuso sinalizava o grande terror da velhice: a doença de Alzheimer.

 

Foram 5 longos anos de ladeira abaixo para ele e também para ela, que ainda estava na ativa, embora trabalhasse, depois da Pandemia, a maior parte dos dias em sistema de Home Office, e foi se percebendo incapaz de cuidar dele sem a ajuda de profissionais. A filha dela dizia: “-- Mãe, mete o papai numa casa de velhos. Ele não tem consciência mais, nem de quem somos, nem de quem ele próprio é.” Os filhos dele concordavam. E ela respondia: -- “Ele pode não saber quem é, mas eu sei quem ele é, e ele é o amor da minha vida. Não vou abandoná-lo.”

 

José estava aposentado, fizera toda uma carreira trabalhando num grande banco e, quando adoeceu, ainda dava algumas consultorias econômicas e de investimentos para grandes empresas e grandes fortunas.

 

A perda dessa renda extra e a grande demanda financeira que significava a presença de cuidadores profissionais em três turnos no dia, sete dias por semana, fez com que Marcella tivesse que renunciar a muito gastos que o casal normalmente tinha. Alzheimer, além de uma doença absolutamente triste, era também absolutamente cara.

 

Por sua vez, ela trabalhava para agências de publicidade, tinha construído uma boa reputação ao longo de uma brilhante carreira profissional, pontuada por vários prêmios (Profissionais do Ano, Caboré, Clube de Criação e Colunistas) e até então era contratada para criar campanhas e/ou peças publicitárias.

 

Em 2019, quando José começou a apresentar os sintomas do Alzheimer, ela já estava com 59 anos de idade. Era o seu primeiro casamento e o segundo, dele. Quando se conheceram ele era viúvo e vinte anos mais velho que ela. Mas fôra amor à primeira vista.

 

Passar pelo isolamento da pandemia de Covid 19 com um marido doente e com cuidadores caríssimos, em domicilio, não fôra nada fácil.

 

Como acontecera em muitos setores, os trabalhos dela também começaram a minguar, sua renda diminuiu muito e, embora tenha voltado a crescer depois do final do isolamento social e do advento das vacinas, nunca mais voltou aos antigos patamares.

 

Assim, toda a sua vida parecia ir desmoronando aos poucos.

 

Os filhos dele, casados e com família constituída, quase não lhe frequentavam a casa, afinal, ela era “a mulher do papai” e não a mãe deles. Com a doença, foram se afastando ainda mais. E a filha que tiveram juntos, em 2022, foi transferida, na grande companhia de moda onde trabalhava, para a sede em Nova Iorque.

 

Os amigos também já não frequentavam a casa deles, o espetáculo de um José debilitado e nem sempre consciente, não era nada agradável e gerava um enorme constrangimento.

 

Quando deu por si, tudo desmoronara: sua segurança tinha virado instabilidade, suas certezas eram agora apenas dúvidas, o que antes parecia sólido, agora, como queriam Marx, Berman e Kundera, se desmanchava no ar e a solidão tinha que ser disfarçada no consolo dos pobres relacionamentos virtuais das redes sociais.

 

Claro que restaram alguns bons amigos que, de vez em quando, apareciam. Mas seu trabalho, que muitas vezes a fazia estar no centro de uma grande produção de áudio e vídeo, convivendo com atores e diretores, ou numa grande empreitada gráfica, poucas dessas oportunidades lhe proporcionava agora.

 

E o pior de tudo era que a sua proverbial intuição parecia tê-la, de repente,  abandonado. A mesma intuição que fez com que ela soubesse, ao conhecer José, que passaria o resto da sua vida, ou da vida dele, com ele. A mesma intuição que a fez ter certeza, antes mesmo do ultrassom, que o bebê que estava em sua barriga era uma menina. A mesma intuição que fazia com que, nas movimentadas ruas paulistanas, ela encontrasse a vaga para estacionar seu carro. A mesma intuição que guiou, sempre, os seus caminhos pessoais e profissionais, indicando-lhe os melhores passos, as melhores vias, as melhores escolhas!

 

José, então completamente debilitado pelo Alzheimer, morreu em 2024.

Um homem que capitaneava uma enorme equipe profissional e que dava festas nababescas em sua casa, para cerca de 100, 120 pessoas, teve um velório com os dois filhos e suas esposas, três amigos pessoais e Marcella.

 

E Marcella, depois de chegar em casa, de volta do enterro do marido, passou um ano sem sair do condomínio onde morava, num luto profundo e teimoso. Recusava trabalhos que a obrigassem a se deslocar, aceitava apenas os que poderiam ser realizados à distância. Sua renda caiu mais ainda. Graças ao nosso ex-presidente Michel Temer, Marcella ficou apenas com 60% da aposentadoria de José e ela própria não tinha aposentadoria alguma já que passara a vida trabalhando com pessoa jurídica e jamais se preocupara em contribuir. Os investimentos que fizera tinham ido todos nas enormes despesas da doença dele. Inclusive o carro dele e o apartamento da praia. Ela tentara tudo: medicamentos importados e de eficácia duvidosa. Cirurgia cerebral experimental no Exterior. E tudo isso, é claro, não era coberto pelo caríssimo convênio médico que o casal mantinha.

 

Além do mais, quando José adoecera, ela estava com 59 anos. Ainda era considerada, no meio publicitário, um dos profissionais de maior capacidade criativa. Agora, aos 65, era apenas uma velha ultrapassada. O mercado queria sangue novo e isso era muito natural.

 

Mas com 60% da aposentadoria de José e com a galopante decadência de sua renda, para conseguir bancar as altas despesas do condomínio onde morava, foi cortando tudo: do restaurante 5 estrelas ao cabeleireiro, dos concertos na sala São Paulo à primeira fila do teatro. Dispensou a faxineira diarista e ela mesma metia a mão na massa pra ajudar e não sobrecarregar a velha Enedina, a doméstica que a servia havia mais de três décadas e que ela não podia simplesmente deixar sem salário.

 

A filha, em Nova Iorque, nem sequer desconfiava das dificuldades de sua mãe. E Marcella nada dizia. Não queria que a garota se sentisse na obrigação de ajuda-la.

 

Mas, se continuasse como estava, seria, mais dia menos dia, obrigada a mudar de vida, vender seu rico apartamento e comprar um menor e mais simples, reduzir, enfim, ainda mais os gastos.

 

Estava pensando, amargamente aliás, nisso, quando alguma coisa lhe disse para abrir o Facebook. Abriu e lá estava a Rainha do Tarot, Nayara Mourat, com o seguinte post:

 

Se você é de Touro, Leão, Escorpião ou Aquário, você não passou “por uma fase difícil”, você foi completamente desmontado.

Se você sentiu que os últimos 7 anos te ensinou de formas duras a deixar ir, reconstruir e encontrar a sua verdadeira essência, isso tem um motivo.

Urano em Touro abalou as bases para Touro, Leão, Escorpião e Aquário desde 2019.../... Mas, hoje 25 de abril de 2026 marca uma grande mudança energética; um ponto final nesse ciclo de instabilidade.

Urano deixa Touro, encerrando este capítulo intenso de 7 anos e ingressa em Gêmeos.

E o que estava sendo sacudido começa, finalmente, a assentar.

Hoje, você não é mais aquela pessoa de 2019.

Você é alguém que sobreviveu às rupturas, que foi obrigado a crescer e teve que se reposicionar sem ter certeza de nada.

 

Pois é – pensou Marcella, que era taurina – parece que até a minha intuição está voltando... Porque alguma coisa me faz abrir o Facebook e encontrar esse post no top da página inicial... E, imediatamente, sentiu que alguma coisa maior a esperaria de manhã.

 

Acordou às nove da manhã, no dia seguinte. E, em seu What’sApp estava a mensagem de uma diretora de criação de uma agência de publicidade internacional: “Marcella, estou precisando de alguém para ir coordenar a produção de uma grande campanha publicitária, em Portugal, para uma empresa local. Você, por acaso, teria disponibilidade?

 

E Marcella já começou a imaginar o que levaria nas malas.



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