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Infernos

  • Foto do escritor: SAUDE&LIVROS Fomm
    SAUDE&LIVROS Fomm
  • há 5 dias
  • 6 min de leitura

Aconteceu logo depois que a casa de Auro e Aline foi atacada por aqueles fanáticos de direita. De repente, ela começara a se lembrar... Lembrou-se que, um dia, em plena Idade Média, fôra Allana e que Auro fôra Arthur. Imagens, como que sonhando acordada, foram lentamente compondo as lembranças.

 

Assim, agora ela sabia quem era. Uma somatória de muitas vidas, a maioria nesse planeta, lutando sempre, sempre pelo conhecimento, trabalhando sempre com as ervas.

 

Sabia também que a Terra, embora linda, um verdadeiro paraíso de paisagens encantadoras, era pouco mais do que a sucursal do Inferno. Não que fosse isso, para ela, nessa vida. Aqui, até que tinha tido aquilo que os espíritos simplórios chamariam de sorte. Mas nem por isso escapara, na juventude, de viver em pequenos infernos.

 

Cômputo geral, porém, tivera muita sorte desta vez, tinha o amor de Auro, que lhe trazia extrema segurança, tivera muitos amores, seus pais, seus irmãos, alguns amigos, uma carreira que, embora importante, fora afinal de menor sucesso do que previra na juventude. Ah... a juventude! Sonhos loucos, esperanças, angústias, loucuras de quem se julga – como todo jovem – apenas imortal.

 

Agora estava perto da morte. Não tão perto, é verdade, em termos de tempo, de anos que ainda teria a viver nessa vida. Perto, porém, porque se tornara íntima da morte. Sabia que morrer nada mais era do que passar para outra etapa da jornada das almas. Talvez renascesse aqui mesmo, talvez ainda fosse necessária aqui na Terra, ou talvez fosse para outro Lugar.

 

Lembrara-se de um planeta mais calmo, embora nem tão belo, onde as tarefas básicas do conhecimento haviam sido cumpridas e se desfrutava de tudo o que a sabedoria e a tecnologia traziam, juntas, para o bem-estar dos vivos. 

 

De muitas outras coisas podia lembrar-se agora. Principalmente de como seu espírito inquieto lhe trouxera vários problemas. Não que, ainda hoje, essa mesma inquietação não lhe significasse muitos problemas. Mas agora eram inquietações intelectuais. Já tinham sido piores, de sofrimento físico, em vidas anteriores.

 

Nascera, na Terra, certa vez, na Idade das Trevas, quando fôra Allana e Auro, Arthur. Iluminada e na Idade das Trevas. Aquela sociedade em que vivera então nada possuía do que, hoje, se poderia chamar de ciência ou tecnologia. A aldeia, de casas simples, chão de terra batida, paredes de barro e telhados de fibras naturais.

 

Alimentos, apenas os poucos que plantavam e caçavam. Homens e mulheres e homossexuais, todos vivendo em harmonia. Lembrava-se das festas dos equinócios e dos solstícios, onde se honrava a natureza. Havia harmonia com a natureza naquele mundo de então.

 

Os homens iam à caça, sabendo que a ordem natural das coisas era a que rezava a sobrevivência dos animais mais fortes contra os mais fracos. Nem sempre os homens eram os mais fortes.

Quando o eram, reverenciavam o animal abatido, que lhes seria alimento. Com o respeito devido ao abatido que lhes garantia a sobrevivência.

 

Às mulheres cabia a relação com o mundo vegetal, as plantações, as colheitas, as ervas que sabiam curar e até embebedar, abrindo uma porta para o caminho das estrelas. Muitas flores sabiam desse caminho: a beladona, a flor da marijuana, o copo-de-leite... lembrava-se. Outras plantas, do boldo ao maracujá, traziam em si a cura das dores e dos mal-estares.

 

Ah... as festas de então! A celebração da primavera, da fertilidade que retornava ao mundo depois do frio e da escuridão do inverno! Fogueiras iluminavam os bosques. Abóboras iluminadas indicavam, aos mortos, o caminho do breve entendimento que podiam ter, com os vivos, na noite mágica da mudança de estação. Naquelas festas, dançavam, felizes, abraçavam as árvores, as árvores que lhes permitiam tantas comunicações com a própria terra, com a vida, com o que de mais profundo lhes ia na alma... E faziam amor! Com quem estivesse por perto, com quem lhes aprouvesse naquele momento. E o amor, a alegria do amor e do prazer, os elevava ao mundo dos seres etéreos, dos invisíveis habitantes das florestas, fadas e gnomos, seres de outra dimensão.

 

Era feliz, era alegre, fazia o que tinha que fazer: nascer os filhos, curar os doentes, amar os amigos, plantar, colher, macerar ervas e frutos e conversar com tudo o que era vida: das árvores às pedras.

 

Então vieram aqueles homens estranhos, com suas roupas estranhas, seus instrumentos feitos para causar dor, morte, intimidação. Vieram com seus uniformes, roupas que os faziam todos iguais, uma coisa louca, sem sentido, por que quereriam eles ser iguais, quando sabemos que a beleza está na diversidade? Cheios de códigos e regras, diziam estar agindo em nome de um deus, a quem chamavam Cristo.

 

Nas regras desse tal Cristo, os do sexo masculino eram os senhores; os do feminino, a submissão, que justificavam pela fragilidade e viam beleza nessa fragilidade.

 

Trouxeram com eles uma nova palavra: pecado.

Pecado era o que era errado. E errado, para eles, era o prazer, o imenso prazer do sexo. Como, pensava ela então, poderia ser errado esse êxtase que nos transportava às estrelas? Era errado, era pecado, era o mal necessário, só justificável por levar à procriação.

 

Esses homens estranhos, invadiram-lhes as casas, as vidas, tudo.

Chamaram de bruxas às mulheres sábias e as arrastaram para as suas prisões. Lá, as torturaram barbaramente, exigindo que confessassem os tais dos pecados, que elas nem sabiam o que fossem. Diziam estar agindo em nome do Cristo.

 

Ela podia lembrar-se de alguém chamado Jesus Cristo. Entre o seu povo, corriam histórias sobre um homem que tinha esse mesmo nome e que, muitos anos, talvez séculos antes, viera, ainda jovem, aprender, com seu povo, os segredos da Terra. Era um menino iluminado, vindo de distantes paragens e marcara sua lembrança entre seu povo, por sua extrema beleza, candura e capacidade de escutar e solucionar as questões que afligiam, vez ou outra, seu povo. Depois ele se fora. E dizia a lenda que se fora para um trágico destino, entre seu povo de origem. Mas... não! Não podia ser o mesmo Cristo que inspirava tanta maldade naqueles homens estranhos.

 

Torturavam seu povo, queriam que “confessassem pecados” que ninguém entendia bem o que fossem.

 

Era uma lembrança horrível. Ela fora levada, com outras mulheres, a quem eles chamavam “bruxas”, amarrada numa carroça. Depois fora submetida a um interrogatório, com perguntas às quais não tinha respostas. Ainda hoje, nesse século XXI, podia lembrar-se de ter sido “esticada” numa mesa estranha, mãos e pés amarrados, e uma espécie de roda, que fazia crescer a mesa onde ela fora deitada, esticando-lhe o corpo, quebrando-lhe os ossos, rompendo ligamentos, desfazendo-lhe as articulações. Por fim, mole como uma gelatina, fôra amarrada a um toco, um toco que fora uma de suas sagradas árvores, galhos sob seus pés e o fogo... Fora queimada, ainda viva, entre dores e horrores. Por sorte, a fumaça e o horrível odor de sua própria pele queimada, tiraram-lhe a consciência, antes da insuportável dor do fogo. Então... não seria isso o Inferno?

 

Também fôra um episódio do Inferno a noite em que ela e Auro comemoravam seu aniversário de casamento e tiveram a casa invadida. Poucos amigos estavam lá. Todas as mulheres e os dois homossexuais foram estuprados, esses, além do estupro, espancamento. Os homens amarrados às cadeiras, obrigados a assistir o espetáculo de violência sexual. E os violadores chamando-a de bruxa e chamando Auro de “professor verde”. Estavam no século XXI repetindo a história da Idade Média. Talvez por isso ela tenha se lembrado de suas outras vidas. Naquela noite tinha enfeitado as árvores do jardim com pequenas lanternas de velas iluminadas, indicando o caminho para a porta da frente da casa, velas que os agressores fizeram questão de destruir também. O motivo do ataque estava claro: eles não queriam que Aline e Auro montassem a escola ecológica no rico bairro da Cantareira, onde moravam.

 

Assim como os padres da Idade Média não queriam as ervas e os caldeirões de Allana, nem as festas que celebravam a Natureza e a Fertilidade da Terra.

 

Era a história se repetindo. Sempre e sempre.

 

E agora? Onde iria o Universo coloca-la numa próxima vida? Sim, porque essa acabaria em breve, ela tinha em si a certeza. Mas fosse para onde fosse, uma outra certeza havia em seu coração: ela seria sempre contra qualquer tentativa de negação da vida, de aprisionamento da alma e da consciência, era seria sempre, a mesma bruxa.




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