Culpa
- SAUDE&LIVROS Fomm
- há 7 dias
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por Isabel Fomm de Vasconcellos Caetano
Veja o vídeo onde conto essa história. As Bruxas 47 TV Paradise

Luiza e Odete trabalhavam juntas num grande escritório de arquitetura quando, em 2020, aconteceu a Pandemia de COVID-19, obrigando a todos a adaptar suas vidas às novas exigências de um grande isolamento social. Mas não apenas isso. A forma de trabalhar, os faturamentos dos diversos negócios, tudo foi drasticamente afetado pela necessidade do distanciamento entre as pessoas. Assim também foi com a empresa onde as duas amigas atuavam. Nada de projetos para construir casas, edifícios, escritórios... No máximo, design e decoração... De repente, viram-se demitidas e recontratadas num regime de home office, como PJs, e seus rendimentos mensais despencaram, isso sem falar na perda da estabilidade sempre preservada pela CLT, com benefícios, seguro-desemprego, FGTS...
Ambas moravam sozinhas e, conversando pelo What’sApp, chegaram à conclusão de que, para enfrentar a nova situação, uma delas poderia renunciar a sua própria casa e passarem a viver juntas para economizar. O apartamento de Luiza era maior do que o de Odete e, assim, essa entregou o seu, juntou suas coisas e mudou-se para o da amiga. Luiza exultou. Há muito tempo estava apaixonada por Odete, mas não encontrava o momento, a oportunidade, de se declarar. Às vezes parecia ler nos olhos da outra um lampejo de paixão. Mas, agora, morando juntas, talvez acontecesse... Ambas estavam felizes com esse arranjo.
Odete chegou à casa de Luiza no dia 20 de setembro de 2020. Antes da primeira vacina brasileira estar à disposição nos postos de saúde, o que só aconteceria em fevereiro do ano seguinte. Luiza já tinha o vírus, mas ainda não desenvolvera os sintomas. Odete, logo depois de mudar-se para a casa de Luiza, rapidamente começou a ter sérias dificuldades respiratórias. Os sintomas da doença eram bastante conhecidos por todos: perdia-se o olfato, o paladar, vinha a febre... Era preciso, então, se as dificuldades se tornassem mais sérias, ir procurar ajuda nos hospitais.
Hospitais, diga-se de passagem, bastante lotados. Com médicos e paramédicos esgotados por plantões insanos e pela frustração de perder muitos pacientes para aquela doença, nova, ainda tão desconhecida, com desdobramentos surpreendentes que podiam ir da chamada síndrome de Guillain-Barré à eventual infertilidade, passando por sequelas neurológicas, respiratórias, cardíacas, e até da saúde mental.
Luiza internou Odette, cheias de esperanças as duas. Afinal, estavam apenas no começo de uma vida em comum que, desde logo, se mostrara promissora e feliz. Mas o isolamento dos doentes, então, nas UTIs, era absoluto. O máximo que se conseguia era alguma comunicação (mas essa também sempre difícil) com os enfermeiros responsáveis por cada ambulatório. Foi assim que Luiza soube que Odete desenvolvera, como sequela da infecção pelo vírus da Covid 19, a temida síndrome de Guillain-Barré, um distúrbio autoimune raro e bastante grave. O sistema imunológico da pessoa não reconhece mais o sistema nervoso periférico e passa a atacar suas células, prejudicando os nervos e os músculos. A síndrome se desenvolve de baixo para cima, paralisando os movimentos dos pés, das pernas e vai subindo e, se não detida a tempo, chega aos pulmões e ao coração, podendo assim causar a morte.
No começo da internação de Odete, Luiza ainda conseguia conversar com a amiga por celular ou nas “visitas virtuais” organizadas pelas equipes de saúde das instituições, via What’sApp, por exemplo. Mas quando a situação de Odete se agravou com o Guillain-Barré, ela foi internada numa UTI e a comunicação se tornou impossível.
Luiza deixou de dormir. Passava as noites em claro, imaginando o porquê daquilo que ela considerava uma grande injustiça: sua doença fôra leve, incômoda é verdade, mas leve, sem maiores consequências e a de Odete descambara para a temida Guillain-Barré. Ela estava ali, deitada na cama onde tinham, as duas, apenas começado a viver o que acreditavam que seria de fato um grande amor e Odete estava num leito de UTI, com aquelas máquinas fazendo “bib-bip” noite e dia, sofrendo, semiparalisada... Até que, dez dias depois, o celular de Luiza tocou. Odete estava morta.
O que se seguiu foi ainda mais triste. A família de Odete já viera do interior, onde moravam, temendo o trágico desfecho. A mãe e uma irmã estavam instaladas numa pensão no Brás, viviam chorosas e com medo, usando sempre as máscaras de proteção e temendo pelo desenlace que, afinal, foi exatamente aquele que a todos ameaçava. O enterro, ainda mais triste. As vítimas da pandemia eram sepultadas em caixões hermeticamente fechados. Ninguém podia se aproximar sequer para uma despedida.
Ao saírem do cemitério, a mãe de Odete disse à Luiza:
-- Graças a Deus que a sua covid foi leve e não trágica como a da minha pobre filha, mesmo tendo sido você a contaminá-la.
As palavras dela atingiram Luiza como um tapa na cara. Daí em diante tornou-se ainda mais inconformada. Sentia-se culpada. Dizia que, antes de receber Odete, deveria ter ido se testar para ver se tinha o vírus. Que fôra relapsa, irresponsável... Com alguém que, afinal, ela amava e respeitava.
A partir de então, todas as conquistas de Luiza lhe pareciam imerecidas. Se alcançava uma promoção no trabalho, não conseguia sentir-se feliz, pois não se achava digna. Se fazia exames médicos de rotina e, apesar de ter tido a COVID, constatava que sua saúde estava em ordem, sentia-se culpada por estar viva e sadia enquanto Odete perdera a vida por culpa dela, que a contaminara. E a culpa, com o passar do tempo, foi se transformando em depressão. Acordava chorando, invariavelmente, todas as manhãs. Engolia um café solúvel, se metia sob o chuveiro, sem vontade de se produzir para ir ao trabalho, sem vontade de trabalhar, sem vontade de nada. Foi emagrecendo. A pele foi perdendo o brilho. Os cabelos, se ressecando, os fios se partindo. As unhas, sem manicure, foram se quebrando e acabaram cortadas rente. Abandonou a pós graduação, pois não tinha paciência para, depois de um dia estafante de trabalho, ainda encarar uma sala de aula.
Já não tinha o mesmo rendimento no escritório, desistia facilmente das vendas que se mostravam mais difíceis, não se concentrava mais com a mesma eficiência nos projetos dos quais participava.
Num fim de tarde, quase um ano e meio depois da morte de Odete, quando a vida já se normalizava, graças às vacinas e o pesadelo das mortes pelo SARS-CoV-2* se afastava, afinal, a dona do negócio onde Luiza trabalhava a chamou e disse simplesmente:
-- Luiza, não sei e não quero saber quais são os problemas que você está enfrentando na vida particular. Mas o fato é que esses estão interferindo no seu desempenho profissional, que caiu, no mínimo, pela metade. Portanto, a minha sugestão é que você procure uma ajuda especializada para a solução de seu problema, seja ele qual for e que, dessa forma, volte a ser a mesma de antes. Se financeiros, procure um consultor. Se afetivos, um psicólogo. Se de saúde, uma junta médica. Mas você tem um mês para recuperar a sua boa performance ou eu terei que substituir você. Espero que compreenda que estou lhe dando uma chance.
-- Chance? Ela está me dando uma chance? Chance de que? – desabafou Luiza com uma colega, com quem fôra almoçar.
--Olha, Luiza, todo mundo lá no escritório já percebeu que você ficou assim...
-- Assim? – respondeu Luiza com agressividade – assim como?
-- Assim como você está agora! – quase gritou a amiga – Você perdeu o pique! – E pensou, mas não disse: -- Você está um trapo.
E continuou: -- Todo mundo sabe que você ficou assim depois da morte da Odete. Todos nós sentimos a perda dela, todos nós gostávamos dela. Mas a pandemia levou muita gente, Luiza, não apenas a Odete. Nós ainda estamos aqui, vivos, temos que tocar o barco, seguir com a vida, não adianta olhar para trás. É pra frente que se anda.
Os olhos de Luiza encheram-se de lágrimas. Fitou a amiga e disse, em voz alta e pela primeira vez em tanto tempo:
- Lucinha, fui eu que matei a Odete. Não a pandemia.
-- Ora – respondeu a outra – Como assim? Como você matou a Odete? Ficou maluca?
E então Luíza começou a contar a Lucinha toda a história de ter contaminado a amiga, sem saber, ela própria, que já estava doente. Falou de seu sentimento de irresponsabilidade para alguém que ela de fato já começara a amar... Não poderia nunca – explicava – ter recebido Odete em casa, sem antes fazer o teste, sem máscara, com aperto de mão e abraço... O abraço da morte! – finalizou dramaticamente.
Lucinha pegou a mão de Luiza sobre a mesa do restaurante, num gesto de grande carinho:
-- E quem te garante – perguntou – e quem pode garantir que o vírus que contaminou Odete veio de você? E se veio de alguém com quem ela esteve antes ou até mesmo depois de estar com você? Ou você acha que era a única pessoa com covid nessa cidade de milhões e milhões de habitantes?
Luiza nunca pensara nisso. Para ela, a verdade absoluta é que o vírus que contaminara Odete partira de seu corpo, por sua respiração... E por todo esse ano e meio carregara essa culpa que a estava corroendo por dentro..., mas..., mas talvez Lucinha é que estivesse certa! Afinal, estavam vivendo naquele momento o auge da Pandemia.
-- Como você pode saber? – insistia Lucinha – Como você pode saber quem contaminou quem? E você? Você sabe quem passou o vírus para você? Não, é claro que não... E nem poderia mesmo saber! Então pare com essa autotortura absurda!
Até essa conversa, Luiza jamais duvidara de que fôra ela quem transmitira o vírus para Odete. Mas... E se não tivesse sido?
-- Ah! --- suspirou Luiza – Se, ao menos houvesse uma maneira de descobrir se fui ou não eu...
Existe uma maneira – disse Lucinha, com firmeza. Vou passar o contato da Circe para você.
-- Circe? Quem é Circe?
-- A Bruxa mais sofisticada de São Paulo. Ele vai te dar a resposta que você tanto precisa!
Assim, Luiza foi mais uma paulistana a se consultar com a Circe e a se deslumbrar com a casa em que a bruxa atendia, com os jardins de orquídeas, beladonas e azaleias, com a elegância da própria Circe e de suas assistentes...
Explicada a questão, Circe perguntou ao baralho comum se a contaminação de Odete acontecera pelo contato com Luiza ou com qualquer outro portador do vírus da COVID. E o baralho respondeu que não, que não fôra pelo contato com Luiza. Então, Circe foi para a bola de cristal e o que viu, dentro dessa, foi uma praia de areia amarela e grossa, ondas quebrando, ainda altas, bem rente à linha de separação entre a água e a areia. Sem dúvida, concluiu Circe, uma praia de mar aberto, talvez na orla de Salvador.
Perguntou:
-- Luiza, você nunca pensou, depois da morte da sua amada, em mudar radicalmente de vida?
Não. Ela não tinha pensado. Mas a ideia a agradou. Mudar. Esquecer a vida antiga, a morte da companheira recém conquistada, a decepção, a frustração, a angústia... Começar de novo, outra vida, noutra cidade, com outra gente, outro tudo...
-- Nunca pensou – prosseguiu a bruxa – em abrir seu coração e sua mente para o seu lado interior, seu lado intuitivo, esquecendo um pouco essa racionalidade que te faz pensar apenas em termos de causa e efeito, ação e reação? Essas são coisa lineares, Luiza! A vida não é linear, é circular! É feita por voltas, curvas, bolhas!
Luiza sorriu. E imediatamente percebeu que havia mais de um ano não sorria... A cruel morte de Odete – entendeu, por fim – tinha aberto em sua vida uma outra visão de mundo. Sim, a culpa que ela sentira por tanto tempo era linear. Mas a descoberta do amor, ainda que para, depressa, perder esse mesmo amor, era circular. Porque a fazia refletir sobre o destino, sobre a descoberta, sobre a perda, sobre a desesperança e sobre essa inacreditável necessidade de prosseguir, de prosseguir, de prosseguir, passando por cima das dores, das culpas, dos obstáculos e até mesmo do destino.
Olhou para Circe com carinho. Será que essa mulher tem consciência da força que é capaz de transmitir a quem vem procura-la? Sim, porque, de repente, sem saber porque, Luiza estava se sentindo forte!
Na segunda feira seguinte Luiza foi ao escritório de um headhunter e uma semana depois estava vendendo seu apartamento mobiliado e fazendo as malas. Ia integrar a equipe de arquitetos de uma grande empresa em Salvador, Bahia. Levava na mochila o porta retrato com a foto dela e de Odete, sorridentes, no dia em que tinham ido morar juntas. Mas era só isso. A lembrança de um quase amor que a crueza da pandemia ceifara pela raiz.
Mas tinha que recomeçar. Como milhões de pessoas, no planeta, que perderam seus entes queridos para a doença, também o estavam fazendo, construindo recomeços, porque afinal, se tantos se tinham ido, também tantos ainda estavam aqui!
*Severe Acute Respiratory Syndrome Coronavirus 2
Bel, 2026, fevereiro, 14



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