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Da Rua

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    SAUDE&LIVROS Fomm
  • há 7 horas
  • 6 min de leitura

por Isabel Fomm de Vasconcellos Caetano


Assista ao vídeo onde conto essa história. Programa As Bruxas na TV Paradise


Morador de Rua na Paulista
Morador de Rua na Paulista

Olga gostava de caminhar pela Avenida Paulista aos domingos e feriados, aberta aos pedestres, ciclistas, patinadores e fechada aos carros; camelôs (que não querem ser chamados assim, se dizem “expositores”) pelas calçadas.

 

 No começo da abertura da avenida, em 2015, tinha sido bem agradável. Mas depois foram chegando as bandas de música com seus insuportáveis amplificadores. E alguns espertinhos se diziam “donos” de trechos das calçadas e começaram a cobrar das bandas pelo uso do espaço público, agora transformado em privado.

 

Olga morava, havia duas décadas, num dos poucos prédios residenciais da Paulista. Foi só 10 anos depois da abertura da avenida que um movimento, liderado por um morador de um dos edifícios residenciais, conseguiu diminuir a poluição sonora nas calçadas, depois de inúmeras mobilizações de inúmeros depoimentos de inúmeras instituições que estudam o efeito dos ruídos excessivos na saúde mental e física das pessoas e dos animais; depois de inúmeras reuniões na prefeitura e na subprefeitura de  São Paulo, depois de inúmeras reportagens sobre o assunto na TV, inclusive na Globo, de inúmeras sessões na câmara municipal, e mais dois filmes documentários exibidos no Cine Belas Artes e um enorme site com mapas de ruído, pareceres técnicos, vídeos, reportagens, enfim, todo aquele vastíssimo material que o grupo, que formara a associação “Paulista Boa para Todos”, levantara.

 

Agora, no começo de 2026, o barulho incomodava muito menos, com os eletrônicos proibidos. Olga passara 10 anos sem poder, nos dias de folga, conversar na sala de seu apartamento porque o som que entrava pelas janelas, mesmo fechadas, e até as antirruído, era absolutamente ensurdecedor. Pets com otite. Autistas em crise. Moradores que saiam de seus apartamentos para passar domingos e feriados em hotéis. Vidros de janela trincados pela trepidação dos baixos eletrônicos. Crianças nervosas e chorando por não suportar mais aquele horror. Fôra mesmo um horror!

 

E as autoridades competentes (ou incompetentes) que poderiam, se quisessem fazer cumprir as Leis já existentes que regulamentam a apresentação de artistas de rua, faziam vista grossa com medo de que, se tomassem medidas restritivas, serem acusados de estar “contra as manifestações culturais”. Por isso os moradores da avenida tiveram que se organizar e batalhar muito para chegar ao relativo sossego de agora, na Paulista do programa municipal Ruas Abertas.

 

Olga pensava em tudo isso, naquele primeiro domingo do ano, caminhando pela avenida. Entrou na banca de jornais, comprou um maço de cigarros e saiu, com ele nas mãos. Um morador de rua que estava sentado no primeiro degrau da escadaria da Fundação Cásper Líbero, disse a ela:

-- Moça, você precisa parar de fumar!

 

Olga riu:

-- É. Também acho que preciso, mas não tenho conseguido...

 

E ele:

-- Nem eu! Fico aqui rezando para encontrar no chão alguma bituca maiorzinha...

 

Olga abriu seu maço e caminhou em direção a ele, estendendo-lhe alguns cigarros inteiros. Ele levantou-se. De repente, os olhos dos dois se encontraram e, num impulso improvável, se atiraram nos braços um do outro, num maravilhoso abraço, cheio de carinho. Ele fedia. A barba por fazer roçava no rosto de Olga, mas a troca de energia entre eles tornou aquele um dos melhores abraços que Olga recebera em toda a sua vida.

 

Talvez tenha durado um minuto. O suficiente para que os transeuntes olhassem, não sem espanto, para aquela mulher bem vestida, com cara de rica, agarrada a um morador de rua, maltrapilho, sujo e fedido.

 

Afastaram-se. Ele disse:

-- Muito obrigado pelos cigarros.

E ela:

-- De nada. Bom, tchau então.

-- Tchau.

 

E ela seguiu seu caminho, bastante assustada. O que fôra aquilo? Só poderia ter sido, pensava ela, um reencontro de almas. Eles já se conheciam, sem dúvida, de outras vidas. Por isso se jogaram assim tão natural e prontamente um nos braços do outro.

 

Nos dias que se seguiram Olga se flagrou, a todo instante, arrumando alguma desculpa para caminhar pela Paulista. Mas, de fato, lá no fundo de sua alma, ela sabia que queria encontra-lo de novo. Nada. Não o viu mais. Procurou nos parques, nas alamedas transversais, chegou mesmo a perguntar por ele a alguns comerciantes. Ninguém vira um morador de rua, de roupa bege, cabelo grisalho e lindos olhos castanhos esverdeados.

 

No quinto dia ela o encontrou subindo a Alameda Joaquim Eugênio de Lima:

-- Olá ! – disse a ele – Quer um cigarro?

Ele queria. Ela tirou o maço do bolso, acendeu pra ele. E disse, num repente:

 

-- Não se ofenda. Mas eu acho que você gostaria de tomar um banho, num bom chuveiro. Moro aqui perto. Posso te levar pra minha casa. Você toma um bom banho, faz uma refeição, separo uns jeans e umas camisetas do meu ex-marido pra você.

 

Ele olhou pra ela, espantado: -- Moça, isso é bondade demais. Mas não precisa, não, me levar pra sua casa. O pessoal do SEAS  (Serviço de Abordagem Especial da Prefeitura Municipal de São Paulo) sempre me encaminha pra algum albergue, lá até fazem a minha barba e cortam o meu cabelo.

-- Mas você mora na rua, não é?

 

-- É sim, moça. Segundo ouvi outro dia numa TV de bar, atualmente somos 96 mil moradores de rua em São Paulo. Isso representa quase 30% da população de rua no Brasil. Aqui na cidade, 84% são homens.

 

-- E por que você mora na rua? – Olga perguntou já percebendo que ele estava muito longe de ser alguém ignorante ou de pouco estudo.

 

-- Perdi meu emprego há cinco anos, na pandemia. Depois fui perdendo tudo. Vendi carro. Moveis, casa... Não tenho ninguém. Minha mulher, que não era oficialmente minha esposa, se mandou com outro. Meus pais e meus irmãos já estavam mortos. Perdi dois irmãos para a Covid. Vendi meu apartamento, investi o dinheiro, aluguei um quarto numa pensão e fui vivendo, sempre procurando emprego, sem nunca conseguir... Dinheiro acaba, né? Um dia, me vi na rua. E aqui estou.

 

-- Mas... Mas... Você não tem ninguém? Família? Amigos?

 

-- Olha aqui, sabe aquela música “Nobody Knows You, When You’re Down and Out”?

 

-- Sim – sorriu amargamente Olga: Ninguém te conhece quando você está por baixo e por fora.

 

-- Pois é. E agora, quem vai querer empregar um morador de rua?

 

-- E qual é a sua profissão?

 

-- Sou jornalista. Trabalhava na editoria de política de um jornal alternativo, na Internet.

 

-- Mas, como jornalista, você certamente tinha uma forte network. Não encontrou ninguém disposto a lhe ajudar?

 

Não. Só promessas. Tapinhas nas costas. Frases consoladoras.

 

-- Olha – disse Olga, decidida – Eu tenho um bom quarto vago na minha área de serviço. Você pode se instalar lá. Tem banheiro, inclusive. E, de lá, você pode voltar a procurar trabalho. Mandaremos seu currículo pra Deus e o mundo, redes sociais, essas coisas. E você poderá se apresentar mais dignamente. Quando conseguir trabalho, me devolve o quarto e vai morar onde quiser.

 

Ele riu, sinceramente:

-- Que proposta mais absurda! Você não pode me levar pra sua casa. E se eu for um louco, um bandido, um tarado, um marginal?

 

-- Com esses olhos – respondeu Olga sem pestanejar – não, com esses olhos você não é nada disso! A propósito, você nem me disse seu nome.

 

-- Sou Alan Diones. E você?

 

-- Olga Paccielo.

 

E, assim, Alan foi morar na casa de Olga. Mas saía cedo e passava o dia na rua, para não atrapalhar a rotina dela, o trabalho dela, que era em home office, para não comer a comida dela... Bastava ter uma cama, uma muda de roupas, um chuveiro... Continuou se alimentando como antes: as sobras dos muitos bares e restaurantes da Paulista, os comerciantes comentando a sua nova aparência, usando jeans e camisetas do ex marido de Olga.

 

Uma manhã, passando pela escadaria da Fundação Cásper Líbero, alguém o chamou pelo nome. Era o seu antigo chefe de redação naquele jornal alternativo, que fôra seu último trabalho, havia quase seis anos passados. Convidou-o para tomar um café e disse que, agora, acabara de ser contratado por uma rádio que funcionava ali na Paulista e estava precisando de um bom jornalista político pois queria criar um podcast diário sobre o assunto.

 

Alan conseguiu seu trabalho e, no primeiro mês de salário, alugou um pequeno apartamento num prédio residencial na esquina da Av. Brigadeiro Luiz Antonio com a Paulista.

 

Olga e ele, durante os três meses que ele morou na casa dela, jamais se tocaram, jamais repetiram o abraço absurdo de seu primeiro encontro. Mas, na hora de despedir-se dela para assumir sua nova residência, no hall do elevador, agradecendo a ela tudo o que fizera por ele, seus olhos se encontraram e, como num passe de mágica, o segundo e profundo abraço aconteceu.

 

O elevador chegou. E Alan disse:

-- Sou, fui e serei, para sempre, seu amigo e devedor, querida Olga.

 

Olga fechou a porta com o coração preenchido pela alegria de ter seguido, afinal, a sua intuição e acolhido aquele homem em sua casa, num momento em que ele precisava de fato daquela acolhida e essa levava Olga à outra certeza, a de mais um dever cumprido, um dever que ela não sabia como, nem porque, mas simplesmente existira.

 

Bel, 2026, janeiro, 24


Programa As Bruxas, na TV Paradise

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