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Encantadora

  • Foto do escritor: SAUDE&LIVROS Fomm
    SAUDE&LIVROS Fomm
  • 24 de jan.
  • 6 min de leitura

por Isabel Fomm de Vasconcellos Caetano


Veja o vídeo onde conto essa história, As Bruxas na TV Paradise


Meg já estava na casa dos cinquenta anos de idade quando perdeu, para um ataque de asma, a sua filha mais velha. No velório, o marido da morta, alta madrugada e só eles dois ainda ali, com os olhos cheios de lágrimas, olha bem para Meg e diz:

 

-- Tenho que confessar uma coisa. Só me casei com a sua filha para poder estar sempre perto de você. E agora, que seu marido se foi e a minha mulher também, talvez possamos realizar o nosso sonho e ficarmos, os dois, juntos.

 

Meg dá um salto para trás e quase cai do banco de madeira onde ambos estavam sentados.

 

-- Pára com isso! Você não está no seu juízo perfeito!

 

Mas ele continua:

-- Eu te amo, Meg. Te amo desde o primeiro dia em que te conheci!

Sei que você também me ama!

 

-- Vou esquecer que você disse tudo isso, desrespeitando a sua própria esposa, minha filha, que ainda está aqui, nem enterrada foi; desrespeitando o meu próprio luto, já que você certamente não sabe o que seja luto! Te amo como meu genro, como se fosse um filho, não como amante! Vá embora! Quero ficar sozinha com ela.

 

Levantou-se, completamente abalada por aquela confissão maluca de um moleque, que nem trinta anos completara ainda, e foi para perto do caixão da filha, acariciou-lhe os cabelos e as lágrimas correram soltas, então.

 

Meg sabia muito bem de seu próprio magnetismo pessoal. Passara toda a vida, desde mocinha, e até mesmo depois de casada com Tom, ouvindo inúmeras declarações de amor e paixão de muitos homens que a cercavam. Sabia o quanto era bonita, o rosto perfeito, o corpo perfeito, os cabelos brilhantes, os olhos de profunda expressão e uma voz firme e aveludada, ao mesmo tempo. Além de tudo isso, tinha um humor impagável, uma inteligência aguda e uma forma só sua de descrever a realidade das coisas. Em sua casa de campo, morcegos viviam no vão entre a lage dos tetos e as telhas. Faziam barulho às vezes e ela dizia: “Estão ouvindo? São as minhas andorinhas da Áustria”

Se, porventura, acordasse com o intestino solto, anunciava: “O dia hoje foi uma alvorada de merda!”

 

Fazia rir a todos, uma alegria contagiante, um sorriso de mil dentes, e sempre aqueles ditos espirituosos, as piadas mais engraçadas e inteligentes.

 

Era também magnética na sexualidade. Os homens enlouqueceriam por ela. Casara-se aos 22 anos com um rico industrial e eles tiveram duas filhas. No entanto, à medida que as fábricas dele prosperavam, cresciam, davam empregos, apesar da vida aparentemente tranquila, alguma coisa não ia bem no cérebro de Tom. A doença depressão o foi atingindo aos poucos. Era rico, tinha uma mulher maravilhosa, duas filhas sadias, mas nada parecia bom para ele. Se chovia, era um problema, iria ter congestionamento aos baldes na cidade de São Paulo. Se fazia sol, era também um problema, porque viria aquele calor absurdo. Se as ações de suas fábricas subiam na bolsa, era um perigo. Poderia ser apenas uma bolha no mercado e bolhas estouram. Se desciam, era outro perigo, a desvalorização poderia continuar até a derrocada.

 

No começo dos anos 1990, a imprensa deu grande destaque a um novo medicamento psiquiátrico que, finalmente, surgira das muitas pesquisas da Indústria Farmacêutica. E “depressão” deixou de ser um estado de espírito para mostrar a sua verdadeira natureza química. No cérebro do deprimidos faltavam dopamina e serotonina, as substâncias da motivação e da alegria. O tal novo medicamento prometia repor esses fluidos, assim como os remédios para o diabetes “repunham” no pâncreas a insulina faltante.

 

Meg conseguiu, depois de muita conversa e insistência, fazer com que o marido fosse se consultar com um renomado psiquiatra paulistano. E ele começou a tomar o tal remédio. Duas semanas depois estava mesmo resmunguento, até sorria às vezes. Seis semanas depois, no café da manhã, disse:

 

-- Meg, eu não vou mais tomar essa porcaria de remédio.

 

-- Ué! Por que?

 

-- Ora, porque ele faz com que eu me sinta bem!

 

-- Mas é justamente esse o objetivo!

 

-- É! – exclamou ele – Mas é um efeito artificial! Não tenho nenhum motivo real para me sentir bem!

 

-- Como não? – respondeu ela, não sem indignação – Por acaso sou eu? Você não me ama mais? Tem outra? E mesmo que seja isso, você tem duas filhas inteligentes, elegantes; tem as suas fábricas, vive com conforto...

 

-- Eu te amo Meg, você sabe disso, sempre soube. Amo as nossas meninas. Mas vivo sempre com essa espada de Dâmocles sobre a cabeça, temendo te perder para algum desses caras que vivem dando em cima de você o tempo todo, mesmo debaixo do meu nariz. Temo pelo futuro das nossas meninas. Acho que o marido da nossa mais velha não a ama de fato e nem sei porque ele se casou com ela. E ela com essa asma terrível, que a atormenta desde criança!

Temo pelos nossos negócios, com essa economia maluca que impera no Brasil, com esse presidente confiscador de poupanças, com essa ministra detestável! Como é então que, com tanta coisa a me angustiar, eu posso me sentir bem? Não vou tomar mais esse remédio. Felicidade artificial em cápsulas! Não vou entrar nessa nunca mais.

 

Três meses depois dessa conversa e um dia depois do casamento – uma festa de arromba, que reuniu toda a elite paulistana – de sua filha mais nova, Meg acordou tarde. A casa, estranhamente silenciosa. O carro de Tom ainda parado no jardim, próximo ao portão e o chofer fumando, entediado, encostado à carroceria. Meg entrou na cozinha e perguntou às empregadas: -- Onde está o Tom? Já tomou café?

 

-- Não, senhora – uma delas respondeu – O sr. Tom ainda não desceu.

 

Como não descera? Não estava na cama, quando ela acordou. Nem no chuveiro.

 

Com um incrível, forte e já doloroso pressentimento, Meg correu para a biblioteca da casa. Lá estava ele. Deitado de costas sobre a grande mesa de leitura, muito bem vestido, o terno bem cortado, o colarinho perfeito, a gravata francesa, os sapatos italianos. Tudo respingado em vermelhos. Até os livros mais próximos da mesa.

O revólver, calibre 45, ao chão. Tinha dado um tiro dentro da boca, o cérebro espalhado no entorno.

 

“—Infelizmente, a depressão severa quase sempre deságua em suicídio.” – sentenciou mais tarde o psiquiatra.

 

Depois da morte do pai, a asma da filha mais velha piorou bastante. A mais nova, que voltara da lua de mel para o enterro, desenvolveu a triste bulimia, ela que sempre lutara contra a obesidade que, inclusive, era também o problema da vida da mais velha.

 

Meg começou a sentir-se culpada. Culpada por sua beleza, por seus incríveis encantos. Achava que as filhas invejavam seus atributos, que tinham passado a vida tentando competir com ela, sua mãe, A Deusa do Encanto e da Sensualidade. A mais nova, recém casada, inteligente..., mas feia! A mais velha, gorda! E Meg pensava que não soubera, mesmo com seu amor tão forte, resgatar Tom daquela depressão galopante.

 

A mais velha morreu, de uma crise muito brava de asma, apenas seis meses depois do suicídio de seu pai. E veio então aquela estúpida confissão de seu genro!

 

Enlutada, decepcionada, quase desesperada, Meg resolveu “se enterrar” na casa de campo da família, em Monte Verde. Cidade pequena, embora abarrotada de turistas na alta estação de inverno, a colocaria a salvo dos olhares cobiçadores que, agora, tanto a incomodavam. Era uma cinquentona. Mas continuava atraindo os homens, continuava exercendo aquela incrível fascínio...

 

Quase um ano depois, que passara trancada na casa, passeando por seus grandes e maravilhosos jardins, fotografando as flores e as borboletas e os pássaros, voltou à casa de São Paulo, para o batizado da sua primeira neta, filha da sua filha mais nova.

 

Armou uma grande festa! Convidou amigos e familiares. Os empregados comemorando a volta da patroa ao lar original.

 

Sua filha levou um colega de Universidade à festa. Rick, era o nome dele. E ele, quando viu Meg, instantaneamente se apaixonou por ela! Ele era mais novo que a filha mais nova dela. No começo, ela achou aquilo, ele apaixonado por ela, um absurdo! Sentiu-se atraída pelo olhar dele, pelo carinho que transbordava da voz dele, pelo corpo, perfeito (como o dela) dele, pelas conversas inteligentes.

Mas sentia-se como uma avozinha tarada. Fingia-se de morta, quando estava com ele. Tentava negar seus próprios sentimentos, o amor que já invadia seu coração e sua alma.

 

Um dia, depois do banho, olhou-se no espelho, nua. E o que o espelho lhe devolveu foi a imagem de uma Meg, já beirando os sessenta anos de idade, linda e ainda jovem! E disse pra si mesma: Eu o quero! Eu o amo!

 

Viveram felizes, juntos, pelas próximas três décadas. As más línguas comentavam: “Meg e seu garotinho”; “O filhinho da Meg”.

Mas o que importam as más línguas? Ele a ressuscitou. Ela o transformou. E viveram juntos, morando na casa de Monte Verde, até a morte dela, aos oitenta e dois anos!

 

Foi o milagre do amor! Depois que ela morreu, Rick, que era artista plástico, se descobriu homossexual. E foi viver com um companheiro, todo o amor que descobrira em Meg.

 

Bel, 2026, janeiro, 16. Inspirada na história de Magdala – Maria de Magdalena de Almeida Prado Bastos, a Bruxa Encantadora. Em memória.

 


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