O Primeiro Dia
- SAUDE&LIVROS Fomm
- 11 de jan.
- 4 min de leitura
por Isabel Fomm de Vasconcellos Caetano

Era alguma coisa muito grande, absolutamente transformadora, que revirava dentro dela como um vulcão, ou antes, como se todos os vulcões da Terra – os 2.500—entrassem em erupção ao mesmo tempo. E, como se depois dessas, viessem os consequentes tsunamis, sacudindo o mundo todo, destruindo o mundo todo, para que esse pudesse, afinal, renascer.
Era assim que estava se sentindo internamente. Em pleno processo de absoluta destruição, para que pudesse caminhar, completamente pura, completamente virgem, completamente nova, para um renascer.
Tinha 35 anos de idade. E até então, desde que se reconhecera como uma nova alma a viver de novo sobre o planeta, toda a sua vida fôra apenas uma sequência de carências. Seus pais sempre estavam ocupados demais tentando subir na vida para dar a ela o carinho e a atenção que uma meninazinha precisava. Fôra criada por babás, empregadas e, depois, na escola, professores.
Quando aconteceu a sua menarca e ela, toda contente por ter afinal se transformado de mocinha em mulher, correra ao encontro da mãe para contar-lhe a novidade, essa dissera apenas:
-- Mas você já pediu à Ernestina para ir comprar seus absorventes?
Nada de conversa séria, de ensinamentos e de precauções, e até de ginecologista e providências contraceptivas... Nada de papo bom sobre a importância desse momento, dessa passagem, dessa transformação. Nada. Só o maldito absorvente! E pensar que quando a mesma coisa acontecera à sua melhor amiga, a Norminha, a mãe dessa não apenas conversara muito como, ainda, oferecera um chá da tarde às amigas e aos familiares femininos, para comemorar o fato.
35 anos! E sempre fôra, desde mocinha, uma mulher linda, de corpo e rosto perfeitos, de olhos grandes, expressivos, transbordando a energia boa da sexualidade, mas isso, para ela, fôra apenas mais um motivo de carência, de decepção, de desilusão mesmo. Os homens só viam nela aquela deusa sexual, o objeto a ser conquistado. E, depois, desprezado. E o que falava mais alto dentro dela, o que ela realmente esperava, era a supressão de tantas carências afetivas que colecionara pela vida. Ansiava por romance, embora, a bem da verdade, tudo o que ela sabia de romance viera dos filmes doces de Hollywood e das novelas meladas da TV ou da literatura.
Estudou. Formou-se. Triunfou na Universidade. Mestrado. Pós. Doutorado.
Tornou-se uma pessoa friamente racional e até os seus bate-papos nos bares da vida, aconteciam em linguagem acadêmica.
Especializada em Tecnologia da Informática, enfrentou tanto na faculdade quanto, depois, no trabalho, os preconceitos machistas que tratavam as mulheres como seres despidas de racionalidade ou, pelo menos, da racionalidade suficiente para encarar a dança dos algoritmos.
Foi no aeroporto. Ela estava embarcando para a Espanha, a convite da Universidade de Barcelona, para participar de uma mesa num simpósio internacional de TI. Fazendo hora para o embarque, olhava as vitrines do setor comercial quando se deparou com um livro cujo título lhe atraiu imediatamente a atenção: Todas as Mulheres São Bruxas. Entrou na livraria e comprou. Foi lendo durante o voo.
De repente, o outro lado da vida se descortinou diante dos seus olhos. Compreendeu a enorme repressão sofrida pelo sexo feminino, durante pelo menos dois milênios. E percebeu que, principalmente, essa repressão não fôra apenas relativa à sexualidade das mulheres, mas aos seus poderes intuitivos, à sua capacidade de sedução, à sua capacidade de visão. Entendeu o porquê de a igreja católica ter passado mais de 600 anos queimando, nas fogueiras da inquisição, as mulheres que não “combinavam” com o que essa mesma igreja queria delas. E, acima de tudo, percebeu que ela própria jamais encontrara em si aquele poder feminino. Mandou um e-mail para a autora, agradecendo por tê-la despertado para um outro lado de sua condição de mulher.
Na Espanha, quase que por acaso (mas o acaso não existe) trombou com alguns membros da antiquíssima Ordem Rosa Cruz e foi convidada a ir a um dos encontros numa Loja espanhola. Ouvindo os ensinamentos, que remontavam ao Egito Antigo, uma estranha certeza a invadiu. Fôra a falta de amor que a impedira de enxergar esse outro lado, essa maravilhosa força da intuição feminina, da comunicação não-verbal, da comunhão com os pensamentos de toda a Humanidade... E agora, lá estava ela, deslumbrada, por descobrir o amor, a que tanto ansiara, num simples encontro de esotéricos.
Essa descoberta, porém, não era um simples sentimento. Era mesmo como se todos os vulcões da Terra explodissem em seu peito. Era como se esse mesmo peito se tivesse rasgado e agora despejasse todos os tsunamis do desemparo que a perseguiram por toda a vida, até aquele primeiro dia.
A fria e racional Glória se tornara, num repente, apenas um poço de grandes emoções. Não apenas pelos ensinamentos, antiquíssimos, que estava, com a razão, absorvendo, mas sobretudo, pela força, pela energia que emanava das mulheres e dos homens que lotavam o auditório da Loja AMORC. Gente capaz de realizar de verdade as tais viagens astrais (que chamavam de “projeção”), de atrair acontecimentos fortuitos pelo simples poder do pensamento, de pressentir as alegrias e as tristezas vindouras pelos caminhos da vida, de se comunicar pela energia do olhar penetrante. Uma gente privilegiada, um povo talvez escolhido pelo Universo, para trazer alguma luz a esse planeta tão ensombrecido pela maldade humana.
Sim, aquele era o seu primeiro dia ali. Mas sabia que, dali para a frente, todos os seus dias seriam de incríveis descobertas e, que entre essas, estaria o amor. O amor que ela nunca vivera e que, finalmente, entre aquele grupo de pessoas, encontraria. Já o estava encontrando, afinal, naquele primeiro dia.
Bel, 02 de janeiro de 2026


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