top of page

O Clone 2081

  • Foto do escritor: SAUDE&LIVROS Fomm
    SAUDE&LIVROS Fomm
  • há 8 horas
  • 7 min de leitura

Por Isabel Fomm de Vasconcellos Caetano

Para meu amigo médico, Dr. Artur Dzik,

que realiza o sonho dos casais inférteis.



veja o vídeo -- As Bruxas TV Paradise -- onde conto essa história 




Renné Magritte, 1966, Decalcomania
Renné Magritte, 1966, Decalcomania

Phillipa perdera o marido em apenas 7 dias. Uma pneumonia, surgida assim da noite para o dia, o matou sem piedade. Ela não se conformava. Como, em pleno 2081, com a Medicina avançada como estava, os médicos não tinham sido capazes de vencer uma simples bactéria? Na verdade, não fôra uma simples bactéria. Há décadas esses bichinhos danados vinham evoluindo mais rapidamente do que a indústria farmacêutica e os desinfetantes hospitalares. Mal inventavam algo novo –antibióticos ou produtos de limpeza hospitalar – e logo as bactérias evoluíam e ficavam imunes a eles.

 

William morrera por isso, porque fôra fazer um exame de rotina e, ninguém sabia como, adquirira aquela maldita bactéria hospitalar, pelo jeito mais evoluída que eles.

 

Estavam casados havia 40 anos. Ele tinha 80, ela, 70. Mesmo assim ainda eram ativos, estavam em forma, planejavam viajar no final daquele ano. A morte dele pegara toda a família de surpresa. Os filhos, dois rapagões bem-casados, os netos, os muitos amigos:

Todos se horrorizaram, no velório, com a extrema magreza dele. Em uma semana, perdera não só massa gorda como também muscular. Foi cremado.

 

Phillipa estava inconsolável. Amava o companheiro profundamente e sabia que ele também a amava. Os netos costumavam rir deles, sempre namorando pelos cantos, chamando-se por apelidos carinhosos.

 

Um mês depois da morte dele, ela ainda chorava. Fazia suas matérias para o jornal da Web, trabalhava bastante, mas, ao se pegar sozinha, caía no choro. Os meninos – como ela chamava os filhos – estavam ocupados demais para ir visita-la. Eram muito bem-sucedidos na vida corporativa, um médico, outro engenheiro, assim como as noras, uma arquiteta e a outra, psicóloga. Os netos viviam com a cara enfiada nos  computadores de mão, estudavam demais, queriam ser mais preparados e mais competentes do que seus pais e suas mães. Além da escola regular faziam mil cursos, on line ou presencialmente. Eram apenas dois netos (a política do filho único era adotada por todos os casais que compreendiam que seria preciso reduzir muito, ainda, mais do que já tinham conseguido, a população do planeta) e os dois netinhos pretendiam ir para o Exterior, estavam pleiteando vagas disputadíssimas nas mais importantes Universidades mundo afora.

 

Então, ninguém tinha mesmo tempo para visitar Phillipa, que passava os dias sozinha e, em algumas noites, recebia amigos, que iam ao seu apartamento, tentando amenizar a sua solidão. Convidavam-na para sair, mas ela não queria sair. Com dificuldade, saía para fazer suas matérias externas e para as reuniões presenciais na redação.

 

Desde as pandemias das décadas de 2020 e 2030 o mundo passara a adotar novos hábitos. O número de automóveis, em todo o globo, fôra drasticamente reduzido, embora estes agora fossem todos movidos à eletricidade. A maioria das atividades profissionais era feita à distância, on line ou através das holografias, projeções virtuais. Todos usavam os transportes coletivos, o planeta todo era um emaranhado de túneis subterrâneos onde circulavam os trens ultrarrápidos. As ruas e avenidas voltaram a ter árvores e flores, o verde renascera.

 

Com a diminuição de tamanho de todas as máquinas e equipamentos, graças aos avanços tecnológicos, enormes fábricas cederam lugar a imensos parques arborizados e, enfim, respirava-se ar puro no planeta. A vida se prolongava. Raramente alguém morria antes de completar seu centenário. Por isso, também, parecia à Phillipa muito injusto que as malditas bactérias resistentes tivessem levado seu amor quando eles teriam, ainda, pela frente, no mínimo mais duas décadas de vida juntos.

 

Na noite em que se completava um mês da morte de William, Phillipa teve um sonho muito estranho: estava ela numa casa, ou num hotel, e sabia que sua estada ali era apenas passagem, por pouco tempo. Mas a sua própria cama, no aposento que lhe fôra reservado, estava ali e completamente desarrumada. Foi olhar mais de perto e viu que o centro da cama estava todo molhado, desde o edredom até o colchão. Uma simpática senhora disse a ela que não se preocupasse. Iria deixar tudo em ordem antes de chegar a hora de ir dormir. Phillipa abriu o armário e percebeu que tinha se esquecido de levar camisetas.

-- Bem, não faz mal – disse ela a algumas pessoas que a cercavam e que ela não sabia quem fossem e também as via meio na penumbra, sem conseguir distinguir-lhes perfeitamente as faces – Usarei as regatas de seda!

 

De volta ao que parecia ser uma sala ou um espaço comum, de repente, ela viu William. Mas como? Ele não poderia estar ali, vindo em direção a ela. Seu corpo fôra cremado! De seu amor, com quem vivera quatro décadas de felicidade, só restavam, agora, cinzas.

 

No entanto, ele estava ali e vinha caminhando por um corredor, em direção a ela. Foi então que notou: ele, lindo, impecavelmente vestido, como ela própria o vestira para o funeral... mas com apenas 1 metro de altura, como se fosse uma criança...

 

Assustada com tudo aquilo, um pensamento cruzou-lhe a mente. Perguntou às pessoas que a cercavam:

-- Isso significa que, se eu tiver um filho agora, ele será o William redivido?

 

Nenhuma resposta.

 

Imediatamente lembrou-se: Não poderia ter filhos! Já tinha 70 anos de idade. Outra lembrança porém veio-lhe como um raio: seu amigo, grande amigo, Dr. Alex, era um dos maiores especialistas do mundo em reprodução assistida, sempre conseguia sucesso em engravidar os casais inférteis, fosse lá por qual método fosse. E disse em voz alta: -- Mas o Dr. Alex poderia dar um jeito!

 

Acordou, ainda muito impressionada por aquela imagem de um mini William que vira no sonho.

 

Na mesma tarde, conseguiu que o amigo a recebesse em seu consultório e contou-lhe o sonho. Dr. Alex respondeu:

 

-- Não é mais novidade, no mundo, mulheres bem mais velhas que conseguem engravidar e levar essa gravidez a bom termo. Embora haja, no meio científico, muita controvérsia sobre essas gestações tão tardias, é também senso comum que hoje a longevidade é alta e uma mulher, aos 70, viverá o suficiente para criar seu filho e educa-lo antes que ela se vá. Quer tentar?

 

Phillipa titubeou:

-- Ora, Alex, foi apenas um sonho.

 

Ele respondeu:

-- Acho que não. Porque você veio aqui imediatamente me contar.

 

Ela riu, um riso frouxo:

-- Não. Não quero ser mãe do homem que amei e com quem vivi por quatro décadas. Além disso, quem me garante que, se eu engravidar, será ele quem voltará à vida? Não... Foi apenas um sonho e eu vim lhe contar porque você estava nele.

 

-- Talvez ele a ame tanto que queira estar novamente ao seu lado, ainda que como um bebê. – disse o médico.

 

-- Como isso seria possível?

 

-- Hoje, você sabe – respondeu o médico – somos capazes de obter um óvulo seu, embora você não tenha mais ovários – a partir de uma simples célula tronco de seu aparelho reprodutor. E também posso clonar os espermatozoides dele pelo mesmo processo.

 

-- Mas como? – perguntou ela assustada – Dele agora só restam cinzas.

 

-- Não das cinzas – respondeu o médico – mas através do DNA que ele deve ter deixado em sua casa, numa roupa, numa escova de dentes, num aparelho de barbear... Basta uma célula e o clonaremos, ou melhor, clonaremos o aparelho reprodutor dele e selecionaremos um único espermatozoide.

 

-- Já me desfiz de tudo – respondeu ela –Doei as roupas, tudo, até o aparelho de barbear... Mas... espere, serviriam os implantes dos ouvidos? Ainda estão na gaveta da mesa de cabeceira dele, têm um pouco de cera, inclusive.

 

-- Servirão! – disse animado o Dr. Alex. – Quer tentar?

 

Um ano depois, Phillipa deu à luz a um bebezão sadio e forte. Quando foi trazido pela enfermeira para que ela o acolhesse em seus braços, logo após o parto, ela o reconheceu: era ele! Era William que voltava para ela, que voltava para receber o seu imenso amor.

 

Phillipa morreu com 107 anos. William Jr., então, era um homem feito, formado e bem encaminhado na vida. Ainda solteiro, porém.

Durante toda a vida dele, ela foi reconhecendo nele a mesma personalidade de seu marido William, a mesma generosidade, o mesmo bom humor, a mesma brilhante inteligência. Amou-o como filho como o amara antes como companheiro. Tinha consciência de que não deveria sufoca-lo com seu amor e, muito menos, com as lembranças de quem ele fôra em outra vida. Policiou-se. E jamais contou a ele o sonho que tivera. Dissera apenas que ele nascera de uma tentativa, por Reprodução Assistida, pouco antes da morte do pai, de terem mais um filho.

 

Em seu leito de morte, o filho caçula estava ao seu lado, e disse a ela:

-- Mãe, você vai partir agora. Mas nos encontraremos novamente. Eu sei que sou a mesma alma que habitou o corpo do homem que foi o meu pai. Sei que voltei à Terra para poder continuar ao seu lado. Só não sei qual foi o seu feitiço, dessa vez, para trazer-me de volta. Mas sei que a amei como esposa e companheira como a amei, nesta vida, como mãe dedicada e carinhosa que você sempre foi.

 

Phillipa suspirou:

-- Meu filho, meu amado, tivemos a graça de viver quase mais quatro décadas juntos, sei porém que sempre estivemos e sempre estaremos juntos pelo Universo afora. Nosso amor transcende os nossos papéis na vida. Também não sei qual foi a minha bruxaria que trouxe você de volta para mim. Mas foi. Foi o feitiço dos sonhos aliado à ciência do Dr. Alex. Adeus, meu amor. Ou, melhor, até a próxima.

 

Depois que Phillipa partiu, alguns meses apenas depois, William Jr. apaixonou-se e se uniu a um companheiro. Nunca contara a Phillipa que era homossexual. Mas viveu até a morte ao lado de seu companheiro, Joaquim . Sabia que não eram apenas as mulheres que, aqui na Terra, podiam ser Bruxas.

 

25 de agosto de 2021

 


Comentários


bottom of page