Fazer para Desfazer
- SAUDE&LIVROS Fomm
- 22 de fev.
- 11 min de leitura
por Isabel Fomm de Vasconcellos Caetano
do livro Histórias de Mulher

Fazer para desfazer: fora sempre assim.
Começava logo cedo, lavando e pondo para secar a roupa da casa, que, no dia seguinte, estaria outra vez suja. Depois acordava o marido e os meninos, fazia café, que imediatamente era consumido e sobrava a louça pra lavar, que amanhã novamente seria suja. Depois, começava a lenga- lenga da comida, limpando e cortando e selecionando os alimentos para cozinhar as refeições, que seriam em breve consumidas e sujariam pratos e talheres e até o chão,que teriam que ser limpos para que amanhã novamente pudessem ser sujos... À tarde,lavar roupa pra fora e passar, para que fossem usadas e, conseqüentemente, sujas e amassadas...
Sempre, sempre assim: fazer para desfazer. Todos os dias.
Os dias eram também assim: nascia o sol e se punha.
Às vezes pensava que o mundo inteiro era assim e que todas as atividades e acontecimentos poderiam ser resumidos a esta regra: ser para não ser, nascer para morrer, fazer para desfazer.
Revoltar-se contra este tipo de chateação, para ela, seria como revoltar-se contra o movimento do sol, o suceder das estações ou alguma outra regra deste mundo de Deus.
Fôra assim com sua mãe e com a mãe de sua mãe e com a mãe da mãe de sua mãe...Bah! Desde que o mundo é mundo --pensava-- é pra isso que as mulheres servem: zelar pelo conforto, saúde e bem estar de toda a família; parir com dor os seus filhos, nem sempre tão desejados, e com dor ver a vida levá-los para qual fosse o seu destino.
Não tinha ainda trinta anos e já seu rosto se marcara, traços e linhas, e seu corpo começava a perder a elasticidade, embora braços e pernas fossem fortes, devido às muitas tarefas do dia. As noites eram mais amenas, já que seu homem se acostumara com ela o suficiente para mão exigir-lhe demais os favores, não com a fúria dos primeiros tempos, quando faziam um filho por ano.
Gostava que assim fosse, pois se tivessem continuado naquele ritmo...nem pensar! Aquilo de que dispunham para viver mal chegava para eles cinco, quanto mais se viessem outros...Botar criança pra fora era um horror, apesar de a parteira do bairro sempre conseguir fazer isso com alguma eficiência.
Lembrava-se dos primeiros tempos de casada. Na terceira gravidez fora um drama. Ele esbravejara: não podiam ter mais um filho, o que ganhava mal dava para sustentar aos dois primeiros e a eles próprios. Brigaram muito. Ela achava certo deixar nascer o que Deus determinasse. Botar filho pra fora, dizia o padre, era não só um crime contra a lei dos homens, mas um crime contra a lei de Deus, um pecado mortal... Mas foi, acabou indo: botou pra fora aquele filho e agora vivia, ainda segundo a opinião do padre, em pecado mortal. Paciência, os homens têm sempre razão --ponderava ela--ainda que não a tenham de verdade.
Agora seu homem sossegara um pouco. Ela achava até bom. Não podia ter filho mais, não. O dinheiro não dava. E não podia sequer engravidar. Se, quando por fim nascera o seu terceiro filho, a menina, ela soubesse que era possível fazer aquela operação, teria feito. Não ia agora querer passar de novo pelo aborto, aqueles ferros mexendo lá dentro de seu corpo, a dor... ah, essa não!
Ele agora vivia dizendo que ela estava feia, velha, acabada de tanto fazer para desfazer e, por isso, a deixava mais ou menos em paz.
Já tinham contado a ela sobre a filha da costureira, menina formosa, meio criança ainda, que se enrabichava por tudo quanto era macho do lugar. Diziam que seu homem, o pai de seus filhos, andava metido com a garota. Não se importara em averiguar, conferir ou, até como foi sugerido por uma vizinha, ir tomar satisfações da tal garota. Seu homem que se divertisse lá como bem entendesse. Quanto a ela, não tinha prazer, quase nunca, sempre preocupada com uma possível gravidez e ele também não ajudava muito, poucos carinhos, queria ir logo ao final, poucos estímulos e ela acabava sempre fria, sempre querendo se livrar logo daquele corpo pesado sobre o seu. A vizinha ponderava: cuidado, ela estaria se arriscando a perder o marido pra outra, ele poderia deixá-la e aí seria a desgraça; poderia não dar mais dinheiro, não se importar mais com os filhos...
Ah, os filhos! Já era tão difícil manter os meninos na linha, com tanta gente ruim em volta, tanta porcaria e tanto perigo importado da cidade grande, tanto mau exemplo pela televisão...
Mas ele não deixaria os filhos, não. E nem desfaria o seu casamento. Podia se enrabichar, afinal a moça era bonita, jovem, era até bem normal isso. Mas só isso. Do mesmo jeito que o seu dever era fazer para desfazer e ela não reclamava, não abria mão, ele também. Ele era um homem decente, direito, trabalhador, então a vizinha não via? Ele havia jurado no altar e no juiz que constituiria com ela uma família e com ela ficaria -- como eram mesmo aquelas palavras que se diziam nos casamentos?--"até que a morte os separe". Ele havia jurado e gente de bem, como ele, não juraria à toa. Disso ela tinha certeza. Agora, de outras coisas, nem sempre.
Nunca estava certa sobre seus filhos dizerem ou não a verdade sobre o que faziam o dia inteiro pelas ruas da cidade. Confiava na educação que lhes dava, é verdade, mas eles eram ainda tão pequenos e a cidade tão cheia de armadilhas...Melhor nem pensar. Estava tentando criá-los como sua própria mãe a criara: pobre, mas orgulhosa de sua decência e honestidade. Achava, inclusive, difícil ser decente sem ser pobre. A riqueza é plena de tentações do diabo e os ricos que conhecera eram, de uma maneira ou de outra, um pouco indecentes. Sentia, no entanto, que, nos dias de hoje, ser pobre era uma grande vergonha e não podia, por mais que pensasse, descobrir porque. Os filhos zombavam dela, rindo: "a mãe não 'tá com nada..." Mas quando ela os via dormindo, na tranqüilidade do sono das crianças, achava que nada de mal poderia vir daquelas criaturas que haviam saído de dentro dela, por quem ela vivia a fazer para desfazer. Tinham 11 e 10 anos, os meninos e 8, a menina. A menina, aquela sim, era a sua alegria! Uma meninazinha bonitinha, que nascera depois do aborto. Uma menina de temperamento bom, gênio fácil, sempre alegre e serena. Sorte ter conseguido vaga para ela numa dessas novas escolas do governo, diziam que lá, durante todo o dia, as crianças recebiam uma educação melhor, mais completa, além de que recebiam também alimentação...
No mais íntimo do seu ser, era pela sorte da filha que ela temia. Quando pensava no destino que a aguardava...Queria acreditar que aquela meninazinha tão meiga e doce poderia escapar, de alguma maneira, do fazer-para-desfazer que parecia ser o destino de seu sexo. Por esse sonho inconfesso é que se matava de lavar roupa para fora, tentando assegurar que a menina, a sua única menina, pudesse continuar os estudos quando terminasse o primeiro grau e assim entender melhor o mundo, pois acreditava que as pessoas de muito saber terminavam por levar uma vida bem melhor do que a vida daqueles, que como ela própria, ignoravam quase tudo. A filha, com estudos, poderia arrumar um trabalho bom e decente. Menos ignorante poderia até conseguir um marido em melhor posição que o dela, que pudesse dar-lhe mais que uma casinha, como a deles, mal equilibrada num morro tomado recentemente pelos barracos, um morro que não virasse favela...
Ah, ignorante eu posso ser, mas burra não sou não -- pensava. Ainda bem cedo fora ela própria trabalhar como doméstica, lavadeira e até na cozinha do restaurante do posto, na rodovia, trabalhara. Sorri à lembrança do restaurante: fora lá que conhecera o marido...Uma paixão! Mas hoje tinha um pouco de medo dessas coisas da paixão... Quando a filha crescesse haveria de adverti-la quanto aos enganos que uma pessoa pode cometer sob o efeito da paixão. Nisto, o seu falecido pai bem que tinha razão, tanto falara ele contra as paixões. Ainda bem que ele está morto -- pensou -- torcendo a última peça de roupa daquela tarde. Ouviu lá adiante, num barraco vizinho, o plim-plim da televisão. Seu pai era motorista, chofer de gente rica, família importante e tradicional da cidade, e muito antes de qualquer um deles, convivera com a televisão. Era por isso --explicava ele então -- que "enquanto o povo se maravilhava com a maquininha, eu já falava no perigo de uma pessoa se meter na paixão das outras, como acontecia nas histórias da televisão".
Tudo na televisão, para o seu pai, --lembrava ela-- era perigoso: gente que se matava uns aos outros, como se fosse a coisa mais natural do mundo, fazia com que todos se acostumassem à brutalidade. Até dos programas de humor, ele reclamava. E os hábitos deste povo da TV então! Deus me livre! Todos uns mal educados, mexeriqueiros, desleais...Assim eram as histórias contadas pela TV e assim, portanto, seriam as pessoas.
Aqui, ela tinha que discordar do pai. A TV não era tão importante assim, a gente era aquilo que os caminhos da vida faziam a gente ser, não a TV...Mas mesmo assim, repetia para seus filhos o dis curso paterno e eles achavam muito engraçado, zombavam dela. Quando crescessem --acreditava-- perceberiam, como ela logo percebera o perigo e a bobagem da televisão.
Bom mesmo fora aquele dia em que a moca da assistência social falara aos moradores de lá sobre o perigo de se acreditar cegamente na televisão. Ela ficara tão orgulhosa! Orgulhosa por ter dito muito antes o que (graças a seu pai, reconhecia) aquela moça que sabia tantas coisas dissera. Por isso, ficara mais de uma semana se gabando para as amigas. Um das suas amigas (amigas, não --corrigia-se em pensamento-- conhecidas) até falara mal da moça da assistência, mas fora por puro despeito.
Começou a pendurar a roupa no varal.
Estava num bom lugar para isso: no alto do morro, a casa no centro de um terreno inclinado,o sol batendo sempre, mas os barracos da favela ameaçadoramente perto do alto do morro, avançando a cada dia.
Lá embaixo, na rua de periferia da cidade, juntava gente.
Se chove --pensou ela-- adeus baderna de manifestação!
Farejou o ar, caçando chuva. Hoje não chove, decidiu. Tinha certeza. Lavadeira acaba se entendendo bem com a metereologia, assim, por pura necessidade. Quase tudo que ela entendia nesta vida, aliás, era por pura e simples necessidade.
Antes de entrar para fazer o jantar (que seria desfeito...) olhou novamente para a rua: sabia mais ou menos do que se tratava, mas não esperava que o protesto pudesse unir tanta gente. Em poucos minutos a rua lá embaixo ia se enchendo de gente, alguns carregando faixas e cartazes. A polícia já aparecera, rondando devagar, num camburão cheio de janelas por onde saíam armas e caras que ela sabia malfeitas e ameaçadoras. Um terror. Um arrepio de medo percorreu-lhe o corpo. Viu, lá de cima, que os homens encostaram três viaturas numa esquina e viu-os entrar, com sua postura arrogante, no bar. Aquilo estaria lotado de gente, a uma hora dessas... O que vale, refletiu ela, é que tem jogo da seleção na TV e o ajuntamento pode passar pelo simples desejo de todos de assistir a transmissão ali do bar. Manifestações, ela sabe, são coisas proibidas, acabam sempre em polícia descendo o cacete nos coitados que reclamam...
Começou a ficar apreensiva.
Queria que o marido chegasse logo e também as crianças. A menina ficava na escola até o fim da tarde e os meninos, depois de fazer a lição à tarde, iam brincar lá embaixo, com os garotos do bairro. Que chegassem, meu Deus, antes que a briga estourasse lá embaixo.
Naquela semana houvera numa reunião de trabalhadores rurais, na Igreja e lá se armara aquela manifestação,marcada justamente para o dia do jogo (que eles julgavam um circo montado para distrair a consciência dos trabalhadores da luta por seus direitos). A idéia era se concentrarem ali, na entrada da cidade, e dali saírem em passeata pela cidade, antes do início do tal jogo, quando as pessoas estariam voltando do trabalho. Ela ouvira um trecho do discurso do líder deles, quase que por acaso. Ouvira os planos, mas não tivera paciência para as razões, além do mais, ninguém ali na sua casa trabalhava na lavoura, não era assunto de seu interesse.
Por isso mesmo, melhor entrar. Fechou a porta da casa pensando no jantar e concentrou-se em no seu fazer para desfazer.
As crianças apareceram logo, muito excitadas, comentando que a rua lá embaixo estava toda cheia de policiais armados e enormes cães farejadores, tanques e jipes espalhados por todo o caminho da cidade para casa... Parecia um filme.
Nada demais para os tempos que estamos vivendo --pensou ela, acostumada à presença do exército nas ruas e dos policiais que de vez em quando subiam o morro fazendo prisões e muito barulho.
O marido veio mais tarde, contando que, para subir, precisara mostrar aos policiais sua carteira de trabalho, imprescindível documento naqueles dias, o único que os terroristas ainda não haviam conseguido falsificar.
Todo o bairro, pelo jeito, estava cercado e a pequena multidão de manifestantes comprimia-se no meio da rua. "Eles já estavam se sentindo acuados..." --comentou o marido.
A violência estava no ar.
Jantaram e ela apressou-se em por as crianças para dormir, ordenando-lhes que simplesmente se deitassem e conservassem os olhos fechados e ouvidos também, fingindo não ouvir e sem se importar com o que pudesse ocorrer.
Tentou fazer o mesmo --não se importar-- sentada na sala ao lado do marido, olhos fixos na tela da TV. Estavam chegando a um importante momento no capítulo daquela noite, quando o galã descobre ser, afinal, filho bastardo do vilão milionário, que fora amante de sua mãe nos tempos dos cassinos, quando tiveram sua atenção despertada pelo forte ruído de passos que corriam pela estreita rua que lhes passava pela janela. Em seguida, vieram os tiros. E os gritos. Alguns muito, muito próximos. Sirenes subiam rapidamente pelo morro, aproximando-se, tiros soando com mais força.
-- Estão perseguindo alguém que fugir aqui pra cima. -- disse ele, levantando-se, antes de tudo explodir.
Foi o estrondo de três rajadas de metralhadora perfurando a parede, imediatamente seguidas pela explosão da parede, que veio abaixo sob o impacto de um jipe.
Quando, segundos depois, tudo clareou, não havia parede alguma entre a sala e o quarto e a rua. Meio jipe entre escombros, no chão, o corpo do líder dos manifestantes. Debaixo do que restava da parede que o jipe tombara, os restos do beliche e da pequena cama da menina. Ela viu horrorizada, os cabelos claros da filha, que escapavam de sob o que restou do estrado da cama.
O resto foi só desespero e dor.
As lembranças vinham em uma confusa seqüência de imagens, como nas lembranças de um sonho. Policiais, médicos, todos estranhos, a invadir-lhe a casa semi destruída. Calmante. Vizinhos. Lençóis. Cheiros estranhos. Tudo absurdo...O marido sempre ao seu lado, sempre abraçado, sempre de mãos dadas... As crianças,meu Deus, o que aconteceu às pobres crianças?
Os três pequenos corpos foram devolvidos pela polícia em pequenos e toscos caixões lacrados. Isto depois de muito esforço e horas intermináveis de peregrinações e papeladas. Ela não chorou. Ficou trancada dentro da dor seca que lhe corroía a alma.
O jornal dizia --contaram a ela-- que as crianças haviam sido mortas pelo trabalhador atropelado pela polícia. Ela sabia que era uma versão impossível, mas nada disse.
Chamaram a ela e ao marido para uma reunião, na Igreja, com as lideranças dos trabalhadores e o padre. Ela ouvia as palavras, alguma coisa compreendia, sentia a solidariedade de todos. Mas não chorava.
Ficava pensando nas muitas tardes passadas lavando a roupa de outros e pensava no dinheiro que estava juntando aos pouquinhos e pensava no destino que pensara construir para a filha e que a filha, afinal, não teria.
Pensava nestas e em muitas coisas para concluir que, neste mundo, tudo era uma questão de fazer para desfazer.
Pensava e sentia a presença e a ternura do marido, como há muito não sentia, há tanto que nem se lembrava mais. Era irônico que uma tragédia o tivesse trazido de volta. E agora que estavam próximos outra vez certamente ela faria de novo. De novo, com prazer, amaria o marido e conceberia outros filhos, embora a dor por estes, ela o sabia, a acompanhasse para o resto de seus dias.
Não. Ela não chorou.
Era uma mulher forte.
Tinha muito por fazer.
Bel, 1986, julho



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