Fotografia
- SAUDE&LIVROS Fomm
- há 7 horas
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por Isabel Fomm de Vasconcellos Caetano
Veja vídeo onde conto essa história - Programa As Bruxas, TV Paradise.

Quem já nasceu na era digital dificilmente pode imaginar o encanto e a magia de um laboratório de revelação de fotografias analógicas. Ana Marta descobriu isso muito cedo, com seu pai, fotógrafo profissional. Tinha ela apenas 9 anos de idade, nos anos 1970, quando Augusto a levou pela primeira vez a uma câmara escura, seu laboratório fotográfico.
O ambiente bem escuro, lógico, para não “velar” as fotos que se revelariam no papel especial da Kodak.
Afinal, fotos analógicas são impressões da luz em materiais preparados para ser sensíveis à luz (à base de prata, que escurece, por exemplo, ao sol).
No laboratório, apenas uma luz vermelha, à qual o papel era insensível. Estamos falando, é claro, de fotografias em preto e branco.
A revelação de fotos em cores era bem mais difícil, bem mais cara, exigia outros banhos químicos e quase todos os fotógrafos trabalhavam muito mais com preto e branco do que com cores. Para cores, todos preferiam os “slides”, que eram como os filmes negativos, mas só que reversíveis.
Traduzo: da mesma maneira que se tirava um rolo de filme da máquina fotográfica (um rolo ou uma chapa, dependendo do formato da máquina) e se colocava num tanquinho de mão, completamente vedado para qualquer raio de luz, com os devidos produtos químicos (revelador, água, fixador) e se obtinha uma tira de filme 35mm com 24 ou 36 quadrinhos (fotogramas), sendo cada um deles uma pequena imagem transparente em negativo (o que era branco ficava preto e vice versa), para os slides se usava o mesmo método, com “banhos” (produtos químicos) mais sofisticados e se obtinha uma tirinha de pequenas fotos coloridas que eram então recortadas uma a uma e colocadas em pequenas molduras que, quando dentro de um aparelho ótico, podiam ser projetadas numa tela ou numa parede, mostrando cada foto em tamanho grande.
Mas a magia mesmo, pensava Ana Marta, estava no processo de revelação das fotos em preto e branco. Era assim: tirado o filme negativo do tal tanquinho de revelação, punha-se a película para secar. Depois esse filme (com suas 24 ou 36 fotos em negativos – dizia-se 24 ou 36 “poses”) era colocado num aparelho ótico, como um projetor de slides virado de cabeça pra baixo, que projetava essa imagem negativa numa pequena mesa. Ajustava-se o tamanho da imagem, o foco, a quantidade de luz, de acordo com o tamanho da fotografia em papel que se queria obter.
Era preciso ter bastante prática para saber por quanto tempo o papel fotográfico deveria ser exposto ao negativo que seria projetado nele. 1 minuto? 30 segundos? Desligava-se o aparelho (que se chamava Ampliador) e jogava-se o tal papel, já sensibilizado pela luz, portanto, numa pequena banheira cheia de revelador.
Aí o milagre acontecia!
O papel, mergulhado no produto químico na banheirinha, ia de fato revelando a imagem... Ana delirava com aquilo. Ver o papel, branquinho, ir se transformando devagar numa maravilhosa fotografia em preto e branco! Aí também era preciso ter prática para saber quando retirar o papel (ou a foto ficaria escura ou clara demais) e joga-lo no tanquinho de ácido acético e depois num outra com uma substância chamada fixador. Essa substância é que iria impedir da foto ir “desbotando” com o passar do tempo.
Depois, era só colocar pra secar (ou esmaltar – numa esmaltadora elétrica ou de costas para um simples azulejo) e pronto!
Aos 16 anos, Ana arrumou um emprego de fotógrafa no jornal de seu bairro. (Hoje seria repórter fotográfica). Fazia fotos de tudo, mas o que ela mais gostava de fazer eram retratos. Retratos de pessoas, clássicos, no chamado “plano americano” na forma de enquadrar da câmera, ou seja, o rosto da pessoa e parte do colo. E, com o tempo e com a prática, seu olhar foi se apurando, se apurando e, ao ver a pessoa através do visor reflex de sua moderna câmera Pentax, ela sempre descobria o melhor ângulo, a melhor iluminação, o melhor jeito, enfim, de produzir um retrato que ia além das próprias feições da pessoa fotografada, mas era também capaz de revelar-lhe o humor, a personalidade ou o espírito.
Logo começou a ser procurada por conhecidos e, mais tarde, por estranhos, para fazer retratos. Todo mundo queria ter um porta retrato em casa com uma foto de si e de seus filhos, netos, avós... Desde que a fotografia fosse assinada por Ana Marta. Montou um pequeno estúdio na Rua Augusta e, com a ajuda do pai, já aposentado, pôs-se a faturar. Estava ficando famosa. Até em revistas especializadas suas fotos já tinham aparecido. Depois, começaram a vir artistas de cinema e TV, todos querendo ser clicados pelas objetivas de Ana.
Um belo dia entrou no studio um sujeito gordo, muito bem-vestido. No entanto, com aquela cara de Irmãos Metralha. “Deve ser um mafioso”, imaginou ela, rindo-se por dentro.
Tirou algumas fotos dele. Nunca eram muitas. No máximo 4 ou 5, para poder captar o melhor momento, a melhor expressão do fotografado. Quando foi ao laboratório para revelar as fotos dele, à medida em que o milagre da revelação acontecia, notou que havia uma espécie de sombra em torno da cabeça dela.
O que seria? Se houvesse uma sombra qualquer em torno dele, ela a teria visto na hora de fotografar. Seria um defeito do ampliador? Alguma peça solta lá dentro que pudesse produzir aquela sombra? Era, no entanto, uma sombra que acompanhava as linhas do retrato dele, deveria estar no negativo... sem dúvida. Revelou a primeira foto, ansiosa por descobrir o que, afinal, poderia ser aquela coisa esquisita e, assim que pôs a foto a secar, acendeu as luzes.
Lá estava a sombra, na foto revelada, uma coisa escura mesmo, circundando perfeitamente a imagem dele.
Ora, como foi que não vi isso no fundo infinito do studio?
Retirou o filme original, negativo, do ampliador. Em branco, a sombra se mostraria ainda mais nítida. Mas, para sua surpresa... o negativo não mostrava nada, além do homem retratado. Olhou com uma lupa, cada fotograma... Nada!
Tentou novamente. Em cada foto dele, revelada, aparecia a sombra.
Chamou Augusto, o pai, para mostrar-lhe aquele estranho fenômeno. O pai desmontou o amplificador para ver se alguma peça, alguma lente, estivesse com alguma distorção, qualquer defeito que pudesse produzir aquela sombra tão certinha, tão delineada... Nada!
E agora? Como entregar as fotos para o homem, com aquela sombra?
A única solução que encontraram foi recortar, com muita precisão, um pedaço de cartolina que colocaram sobre o papel fotográfico, delineando exatamente a figura dele que o negativo projetava, para impedir que a sombra se reproduzisse. Deu certo. Mas foi extremamente trabalhoso.
O mistério, embora contornado pela cartolina, permanecia. Não encontraram nenhum explicação para aquilo.
Uma semana e muitas fotos depois apareceu uma senhorinha, muito elegante e ainda trazendo na face o esplendor da beleza que o tempo, nela, não destruíra. Era uma pessoa muito alegre e bem-humorada e Ana Marta adorou fazer-lhe os retratos. Quando foi ao laboratório... ops! Uma nova sombra aparecia delineando a imagem da senhora. Mas, desta vez, eram pequenos raios de luz, em torno dela, como se alguém tivesse riscado, com uma agulha bem fina, aqueles traços no próprio filme negativo. O mesmíssimo mistério, sem explicação técnica alguma! Ana Marta teve que, para obter as fotos dela sem aquela aura luminosa em volta, usar novamente o recurso da cartolina.
Desta vez, Augusto simplesmente exclamou:
-- Aura! É isso, minha filha! Por algum motivo misterioso a sua câmera está registrando a aura dessas pessoas. A escura, no caso daquele senhor de maus bofes e agora, a aura luminosa, no caso dessa senhorinha que é mesmo um anjo de pessoa!
-- Aura, pai? Que aura?
Então Augusto explicou que alguns místicos diziam que todas as pessoas têm, em torno de si, uma aura invisível para os olhos humanos. É a energia que emana da alma de cada ser. Alguns privilegiados, ou bem treinados, -- explicava ele – eram capazes de “ver” a aura das pessoas e, assim, saber de antemão com que tipo de gente estavam lidando.
-- Pai, isso é loucura! O que você está chamando de “aura” não aparece nos negativos, só nas ampliações! Como pode ser?
-- Não sei – disse Augusto, pensativo.
E resolveu levar os negativos para ampliá-los em outro laboratório.
As fotos voltaram perfeitas, sem sinal algum de qualquer “aura”.
-- É muito estranho – disse ele à filha – não aconteceu no laboratório do meu amigo. Só acontece aqui. Já sei! Deve ser você. Você deve ter uma sensibilidade especial que “enxerga” a aura de algumas pessoas e as transmite, na hora da revelação, para o papel.
-- Pai, isso não tem nenhuma lógica! – respondeu Ana, já meio brava.
-- Mistérios e fenômenos paranormais não têm mesmo explicação. Pelo menos, hoje em dia, talvez no futuro...
-- Você está afirmando que eu seria, então, alguma espécie de Bruxa, com poderes mentais, capazes de detectar a aura de algumas pessoas e, o que é pior, transmitir esse pensamento para o processo de revelação das fotos?
-- Todas as mulheres são bruxas – respondeu ele – Quero dizer, todas têm alguns poderes que poderiam ser classificados de sobrenaturais, mas que, de fato, devem ser muito naturais.
-- Vou colocar uma placa na porta do studio – disse Ana, em tom de piada – “Fotografe a sua Aura, se você der sorte!”
-- Ganharíamos ainda mais dinheiro...
-- Pai! Você enlouqueceu? Estou brincando.
-- Quer ter certeza de que é você quem está transmitindo as auras para essas fotos reveladas? Venha comigo ao laboratório do meu amigo. Revelei as fotos lá e nada aconteceu. Se você estiver junto, pode acontecer lá também. Se não acontecer, então eu vou revirar esse nosso laboratório de cabeça pra baixo até descobrir o que está causando isso!
Ana titubeou. Teria coragem?
Mas foi. E, de fato, com ela presente no laboratório, as fotos ganhavam sua aura.
Começou a chorar, apavorada.
O dono do laboratório, a quem o pai dela já explicara sua teoria, disse apenas:
-- Não chore, moça! Esse é um dom que o Universo lhe deu e, creia, dá a muito poucos. Quando aparecer outra aura em alguma foto, mande pra cá, eu revelo pra você e a aura não aparecerá, se você não estiver aqui.
-- Dom? – exclamou ela – Isso está me cheirando à maldição!
-- Não, minha filha – disse Augusto – Não despreze os privilégios que a Vida lhe proporciona! Mistérios assim a gente tem que aceitar sem discussão!
-- E de que me servirá isso, afinal?
-- Você descobrirá! – disse o amigo do pai – Não há nada sem propósito sob o céu!
Algum tempo depois, apaixonada, fez fotos do namorado. E, para sua surpresa, a aura dele era tão escura quanto a do tal Irmão Metralha.
Casou-se, afinal, com outro homem, cuja aura apareceu para ela, no laboratório, bastante luminosa.
Teve filhos. Dois, um casal. Fotografou-os aos montes, mas nunca apareceu aura alguma nas fotos.
Morreu aos 70 anos de idade, ainda tocando seu estúdio, ajudada pelo filho, agora homem feito, que mostrava um enorme talento para a fotografia. Porém, então já trabalhavam com fotos digitais que, para seu alívio, não mostravam a aura de ninguém.
2021, setembro, 08



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