Guerreira, A Outra.
- SAUDE&LIVROS Fomm
- 12 de mar.
- 4 min de leitura
por Isabel Fomm de Vasconcellos Caetano

Dentro de mim mora uma guerreira.
Atualmente ela anda meio cansada e, por isso, só de vez em quando se manifesta. Muitas derrotas, sabe como é? Ela está estropiada, mas não está morta. Continua lá dentro e até me surpreende quando se revela nas horas nem sempre mais apropriadas. Não sei se ela ajuda ou se, de fato, atrapalha. Mas tenho que reconhecer a necessidade da sua existência pois, quando ela se revela, apesar da adrenalina e da ansiedade, tenho que admitir que sinto-me mais...mais completa, mais feliz!
Fico aqui pensando, com meus botões, se ela nasceu nos anos 1960, ou antes, muito antes. Ãs vezes a imagino lutando em outras eras, sacerdotisa de templo celta, cortesã abolicionista no reino de Pedro Segundo ou bruxa queimada na Inquisição Espanhola. É uma visão romântica, mas muito estimulante.
Já, nos anos sessenta, ela me fez engordar, numa negação explícita e atrevida de minha própria beleza. Algo assim como se ela quisesse dizer ao mundo que valiamos pelo que eramos por dentro, por nossa cultura e posição política, pela vontade --coletiva à época-- de mudar o mundo, de tornar a vida de todos nós menos hipócrita, mais livre, mais natural, mais solidária...
Ela, naquele tempo, não era nada fácil. Feminista por natureza, nem lhe passava pela cabeça a possibilidade de sentir-se intimidada ou diminuída por qualquer macho e foi bem difícil fazê-la compreender que ainda vivia num mundo muito, muito masculino. Aliás, ela sempre preferiu a companhia de homens, embora lutasse pelas mulheres. Achava a conversa das mulheres, em geral, de uma chatice infinita, sem cor, sem cultura, só futilidade e coisas domésticas.
Por causa dela, conheci e convivi com mulheres maravilhosas, que também não se identificavam com o papel tradicional da doméstica-dondoca-burra. Ela me levou para a briga política dos estudantes contra a ditadura e, depois, para a televisão.
Foi ela também quem me empurrou para uma outra luta, a da honestidade e da coerência interior. Uma briga dificílima, que quase sempre perco.
Mas, nos últimos tempos, com a desculpa da maturidade, tenho conseguido sufocá-la. Digo a ela que se retraia, afinal nós já lutamos tanto por um mundo que acreditávamos melhor, que hoje já percebemos apenas como igual ao que sempre foi. Digo a ela que a humanidade evolui muito, muito, muito lentamente e que não há sentido algum nos ímpetos revolucionários ou nos sonhos de juventude.
Assim não a tenho visto muito em minha vida.
Antes, ela me dominava. Vivia reclamando e protestando em público. Nos bancos, quando ficavamos em filas, ela punha a boca no mundo e acabava desfrutando do privilégio de ser atendida à parte...Aí saía falando: Tá vendo? Eu reclamo, eles tentam me comprar com atendimento privilegiado e vocês, seus trouxas, ficam aí...
Acabei por convencê-la que os trouxas mereciam o fruto de sua própria touperice e covardia e abrimos uma conta num banco estrangeiro, onde não existe fila, pois todos são tratados como clientes.
Mas, agora, ao me lembrar da última vêz em que realmente vi a minha alma guerreira, sinto-me um pouco solitária e um pouco culpada. Afinal, fui eu quem a afastei e abafei. E sou eu mesma quem está sentindo falta dela.
No ano passado, quando estávamos saindo de uma baita depressão (por estarmos fora do ar), na hora da rush, entrando na Alameda Campinas para atingirmos a nossa garagem, fomos brecadas por uma comitiva para um babaca qualquer que pensa ser autoridade. Coisa de terceiro ou quarto mundo. Em plena hora do rush, mobiliza-se policiais e escoltas, gasta-se dinheiro público e ainda torra-se o saco do cidadão que quer apenas vencer os congestionamentos e chegar em casa. Ela, a minha alma guerreira, não aguentou ver aquilo.
Meteu a nossa cara prá fora pela janela do carro e começou a reclamar pro guarda. Pensei: "hoje vamos em cana!" Mas o guarda parece ter ficado com medo dela porque pedia calma e parecia concordar com o absurdo que ela, aos berros, denunciava. O que me deixou com a cara no chão foi ver que, assim que ela meteu a mão na buzina, todos os outros motoristas ao redor fizeram o mesmo, numa cena de apoio explícito. E aí nós nos sentimos umas Joanas D’Arc da vida, liderando um exército de cavalos motores em pleno rush da Paulista. Foi demais!!
Chegamos em casa, felizes, contando prá nossa empregada doméstica a nossa proeza em prol de mais cidadania e menos cretinice, em meio a inflamados discursos sobre o anacronismo e a ineficiência do conceito brasileiro da “otoridade”.
Foi com este mesmo espírito que aqueles meninos sequestraram o embaixador dos Estados Unidos, na Ditadura. Vi o filme do Barreto e ela (a minha alma guerreira) se manifestou outra vêz, talvez por um sentimento meio nostálgico, uma espécie de saudade de sonhos perdidos.
Aqueles sonhos, porém, os dos anos sessenta, os de Coehn Bendit ou os de Iara Iavelberg, passaram, acabaram mesmo, se esgotaram mais do que John Lennon poderia prever. Restaram as estrelas, a possibilidade de encontrar, no Cósmico, uma nova esperança prá este planeta fodido.
O que sobrou, então, prá minha alma guerreira? Quinze segundos de fama no congestionamento?
O que sobrou prá ela? Ataques histéricos em meses de brava TPM?
Reles e insignificantes campos de batalha, oferecidos prá quem pensava pertencer ao grande exército de mudança...prá quem pensava poder criar um mundo de paz e amor, ainda que fosse guerreando.
Minha pobre, querida, emocionante alma guerreira! A duras penas te sufocaram! E compartilhas teu leito com um conformista de direita.
Depois esperam que eu seja calma. Impossível.
Dentro de mim mora uma guerreira.
Bel, 1998, junho, 22



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