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- SAUDE&LIVROS Fomm
- 16 de fev.
- 12 min de leitura
por Isabel Fomm de Vasconcellos Caetano
Assista vídeo onde conto essa história - As Bruxas na TV Paradise

Para Stela Maris Grespan,
médica e amiga maravilhosa, que me faz rir.
Desde muito pequena, Carmen sabia coisas que quase ninguém sabia. Por exemplo, nas aulas de história, quando vinha a famosa frase “isso jamais saberemos”, sobre uma dúvida qualquer no passado remoto da humanidade, ela pensava: “a professora pode jamais saber, mas eu... eu saberei quando morrer”.
Era pouco mais que uma menininha e acreditava que sua alma, depois de morta, retornaria a uma imensa corrente, feita de todas as almas do universo e, nessa corrente, tudo se sabia, não havia mistério algum a ser investigado, era a grande fonte de sabedoria. Certo dia, numa redação escolar, escreveu: “O Conhecimento É uma Escada para o Infinito”.
Estudiosa, ia bem na escola, mas seus pais se preocupavam com seu espírito sagaz, porém um tanto rebelde. Carmen não aceitava facilmente as regras do mundo, aquelas que ela julgasse sem sentido ou razão. Também não aceitava as diferenças sociais. Logo da primeira vez em que a levaram a um restaurante muito chique, ela perguntou: -- Por que tem esses homens aqui que ficam servindo a gente, colocando comida no nosso prato e bebida no nosso copo? Nós mesmos deveríamos fazer isso. É ridículo um homem feito, todo cheio de mesuras, a servir a gente como se fossemos mais importantes do que ele próprio.
-- Ora, Carmencita – disse-lhe a mãe, Linda – ser garçom é ter uma profissão como qualquer outra. É uma profissão digna, um trabalho, ele ganha a vida assim!
-- Maneira idiota de ganhar a vida! – respondeu Carmen – Servindo a quem poderia servir a si próprio. Por que não colocam a comida em grandes mesas para que cada um de nós vá lá e pegue o que quiser?
Rodolfo, seu pai, riu, passando a mão carinhosamente nos cabelos dela:
-- Essa minha princesa aqui tem cada ideia!
Anos depois, quando apareceram os restaurantes self-service, cada vez que estava num desses, Rodolfo lembrava-se da filha que, quando pequena, falara justamente sobre isso.
-- Mãe – dissera, um dia, a menina à Linda – Por que você fica todos os dias tendo esse trabalhão para fazer café da manhã, almoço, jantar? Vive lavando louça, vai acabar com as suas mãos! E, depois, você põe roupa na máquina, outro trabalhão, pendura tudo nos varais... Por que?
-- Ora – respondera Linda – Todas as donas de casa fazem isso todos os dias.
-- Seria muito mais lógico se aqui no nosso prédio – respondeu ela – existissem uma grande cozinha e uma grande lavanderia onde pessoas preparassem a comida para todos e lavassem a roupa de todos, em grandes máquinas, iguais às que eu vi quando fomos passar as férias naquele hotel lá em Campos do Jordão. Lá, ficamos em apartamentos, mas ninguém cozinha ou lava roupa neles. Tudo é feito por trabalhadores contratados exatamente para isso, em grandes cozinhas e lavanderias. Por que não pode ser assim nos prédios onde a gente mora? Seria mais lógico, no fim sairia mais barato. O Tio Tom outro dia estava me explicando esse negócio que ele chama de “economia de escala” – é muito mais econômico produzir um monte de coisas, tudo no mesmo lugar, do que produzir coisas iguais em lugares diferentes.
Anos depois, quando surgiram os flats, Linda pensou que sua filha já tivera essa ideia no passado. Sua filha era dessas almas – concluía -- que nasciam um passo adiante do seu próprio tempo.
A menina gostava de música. Logo convenceu seus pais a comprarem equipamentos eletrônicos que, no final dos anos 1970 e começo dos 1980, quando ela era criança, custavam caro, mas eram capazes de produzir um som de altíssima qualidade, diferente das velhas radio vitrolas que a maioria das famílias ainda tinha em suas casas. Logo, Carmen descobriu que poderia acoplar o aparelho de televisão ao amplificador de som e, girando um simples botão, (um divisor A-B, que ela descobrira numa loja de materiais na Rua Santa Ifigênia) passava a ouvir o som da TV nas potentes caixas de som que espalhara pela sala do apartamento. Girando o botão ao contrário, as caixas passavam a reproduzir o som da vitrola (ela tinha centenas de discos de vinil, os velhos LPs, e ouvia de Beatles à Maria Bethânia, passando por Tchaikovsky, que era seu compositor clássico preferido) ou do moderno gravador cassete que, sem estar ligado ao equipamento, reproduzia apenas um som de lata.
Um dia, teve que trocar os cabos de som de uma das caixas porque a cachorrinha da casa, Julieta, roera todo o cabo, no dia em que, sem perceber, Carmencita deixara cair atrás de uma das caixas um pedaço de hamburger.
-- Essas coisas parecem ter vida própria! – exclamou ela irritada com a confusão de fios e cabos que saíam e entravam no equipamento de som – Vivem se enroscando! Um dia ainda vão inventar um jeito da gente poder mandar o som pelo ar, assim como se faz com a eletricidade ou com as ondas de TV! Aí eu me livrarei dessas porcarias desses fios, que parecem cobras vivas!
Quando, décadas mais tarde, comprou seu primeiro equipamento de som com caixas wireless, sem fio, pensou que seu sonho, afinal, estava realizado! Nada de fios presos às paredes, juntando pó ou se enroscando atrás dos equipamentos!
Outra coisa que ela vivia dizendo era que os telefones deveriam ter imagens. Achava ridículo um aparelho daquele tamanhozão, preso à parede por um cabo (outras vez os malditos fios!!) e que só servia para falar e ouvir.
Carmen já tinha 15 anos quando Linda parara de tomar pílulas anticoncepcionais porque julgava que estava entrando na menopausa. Seus pais acreditavam que ter apenas filho único, ou filha única, era uma atitude que contribuía para o futuro do planeta que, naquela época, já estava ficando lotado demais de seres humanos. Percebiam que, se a população da Terra inchasse daquela maneira como vinha inchando, acabariam por esgotar os recursos naturais. O Japão e a China, por exemplo, diziam eles, já estavam a enfrentar um excesso populacional expressivo.
Mas o que Linda pensara ser a menopausa, revelou-se apenas uma gravidez. Começar tudo de novo nessa idade? – pensou ela. Fraldas, mamadeira, bercinhos... No entanto, tanto ela quanto Rodolfo eram contrários ao aborto e, assim, um dia, nasceu Pedro.
Até então, Carmen tinha a segurança de saber que seus pais proveriam tudo o que fosse necessário para que ela pudesse realizar, na vida, os seus sonhos, que incluíam uma Universidade onde ela pudesse estudar a Ciência e a Tecnologia. Estava por demais interessada nas leis que regiam o Universo e a Natureza e que proporcionavam o grande avanço tecnológico que vinha ocorrendo na Terra ao longo daquele século XX, onde nascera. Primeiro pensara em cursar História, mas logo percebeu que era sim a ciência, quem contava a verdadeira história da humanidade em termos de progresso e tecnologia.
Quando nasceu o irmãozinho, Carmencita também sucumbiu aos encantos dos bebês; ajudava Linda a cuidar dele, brincava, feliz, com ele, ajudou-o a dar os primeiros passos e a aprender as primeiras palavras.
No entanto, seu mundo começou a ruir quando ela pediu aos pais que a matriculassem – estava então no último ano do segundo grau de ensino – no melhor cursinho para vestibulandos. Ela sonhava entrar no ITA - O Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA) que é uma instituição universitária pública ligada ao Comando da Aeronáutica e funciona no Departamento de Ciência e Tecnologia Aeroespacial, na cidade paulista de São José dos Campos. Carmen queria estudar Engenharia Aeronáutica, mas também Eletrônica e até de Computação. Queria tudo. Sabia que aquelas enormes máquinas criadas por Charles Babbage (considerado o pai do computador) e Alan Turning (considerado o pai da informática moderna), nas décadas de 1940 e 1950, estavam se miniaturizando e, em breve, dominariam o mundo.
Linda e Rodolfo titubearam:
-- Minha filha, esse cursinho que você quer é o mais caro do Brasil! Custa uma fortuna por mês! Não podemos pagar por isso. Você é tão inteligente, vai tão bem nos estudos, pode se preparar para o vestibular num curso mais acessível.
-- Você não podem pagar porque estão investindo dinheiro no Banco para garantir os estudos futuros do Pedro! Pensam que eu não sei? Não sou boba, não. Desde que ele nasceu é com o futuro dele que vocês se preocupam. Eu passei para o segundo plano! – disse ela, com os olhos cheios de lágrimas – Isso é porque ele é menino e eu sou apenas uma mulher. Vocês acham que vou me casar e esquecer essa história de ser uma cientista. Mas não vou! Eu nasci para ser cientista e vou conseguir, com ou sem a ajuda de vocês!
Rodolfo e Linda, pacientemente, tentaram explicar à filha que o investimento no futuro de Pedro era necessário, afinal, quando ele nascera, seus pais já estavam chegando à casa dos cinquenta anos de idade e ninguém poderia prever o futuro, não poderiam saber se, dali a 10, 15 anos, ainda teriam a mesma renda, ainda teriam condições de proporcionar a ele tudo o que puderam proporcionar a ela.
-- E, por causa do futuro dele, o meu futuro que se dane! Eu preciso desse cursinho, afinal quero ir para o curso superior mais disputado do país! Lá só entram os que estão muitíssimo bem-preparados!
-- A USP? – perguntou Rodolfo.
-- Claro que não, pai. O ITA!
-- Mas o ITA é em São José dos Campos! – exclamou ele – E o curso é em período integral! Como você acha que vai poder morar em outra cidade e se manter fazendo um curso que toma o dia todo?
-- Vou trabalhar num bar, numa lanchonete, qualquer coisa que funcione à noite. Consigo uma bolsa. Arrumo uma república de estudantes para morar, qualquer coisa, mas eu vou conseguir!
Carmencita crescera, mas nem por isso perdera o poder de saber coisas que muito pouca gente sabia. Quando, por exemplo, saía de carro com o pai e ele, desesperado, não encontrava uma vaga para estacionar, ela dizia: -- Vire ali, na primeira esquina à direita e você vai achar uma vaga. Dito e feito. Rodolfo seguia o conselho da filha e, mal dobrava a esquina, lá estava uma automóvel saindo de uma vaga, onde ele, afinal, estacionava.
Também sabia sempre as horas, mesmo sem consultar o relógio. Por exemplo, estava estudando na mesa da cozinha e sua mãe dizia:
-- Nossa. Meu atrasei demais lavando essa salada. O jantar não estará pronto quando seu pai chegar.
Ela erguia a cabeça dos livros e respondia:
-- Calma, mãe. Ainda são 5 horas e 17 minutos.
A mãe ia olhar o grande relógio da sala e lá estava: 5h17.
Ou então, Carmencita falava:
-- Tem uma coisa aqui que eu não estou entendendo, nessa lição de história. Mas acho que o Tio Tom pode me explicar.
E Linda respondia:
-- Liga pra ele!
-- Ah, não precisa não. Ele vai passar aqui essa tarde, quando sair do trabalho, tem um assunto que ele quer conversar com meu pai.
Dito e feito! No fim da tarde, sem avisar antes, chegava o Tio Tom.
Saber coisas que quase ninguém sabia, no entanto, não era nada demais para Carmen. Sempre fôra assim. Ela sabia, na escola, quando algum colega estava “colando” na prova e sabia que aquele rapaz que a convidara para ir ao cinema e tentara beijá-la na sala escura era, de fato, namorado firme de outra menina. Quando, tomando um sorvete na lanchonete, depois do filme, o garoto se dissera apaixonado por ela e pedira para namorá-la, ela respondera:
-- Você vai terminar o seu namoro firme com a outra menina?
O rapaz, assustado, perguntou:
-- Quem disse que estou namorando firme?
-- Ninguém – respondeu ela – Eu simplesmente sei.
Muitas e muitas coisas ela sabia. Entre elas, a que entraria na faculdade que queria e que seu curso seria um sucesso, de notas altas, e que se formaria com distinção, depois de ter aproveitado todas as benesses que o ITA proporcionava aos bons alunos, inclusive visitas a importantes empresas e instituições associadas, no Exterior.
Conseguiu, depois de muito choramingar, que Rodolfo a levasse a São José dos Campos, num sábado, para visitar a escola e conseguir informações. Ficou sabendo assim que teria direito à moradia, alimentação e assistência médica, por uma mensalidade irrisória. Ficou sabendo também que poderia optar por seguir a carreira militar e, como aspirante, já teria um bom salário. Mas não estava interessada. Ela sabia que não suportaria a rígida disciplina militar por toda uma vida; no curso, ainda seria capaz de aguentar tudo aquilo, apenas porque estava perseguindo seus sonhos. Inscreveu-se para o vestibular do final do ano seguinte. Apenas 140 vagas, 30 reservadas aqueles que seguiriam carreira militar.
Mesmo assim, Rodolfo e Linda ainda não estavam dispostos a pagar a alta mensalidade do cursinho pré-vestibular que ela queria. Por isso, com apenas 16 anos de idade, Carmen arrumou um emprego de assistente de ensino numa escola particular do bairro onde morava. Propôs aos pais: você pagam a mensalidade de um cursinho menos caro, algum que vocês pensaram em me matricular, e eu vou para o cursinho que quero, pagando a diferença com o meu salário da escolinha.
Carmen, como ela própria sabia de antemão, foi aprovada em 3º lugar entre os 139 colegas admitidos com ela. No primeiro ano do curso, o serviço militar era obrigatório. Da sua turma, ela era a única mulher e tinha apenas mais 8 colegas mulheres em turmas mais adiantadas. Eram profundamente desprezadas por seus colegas homens que viviam dizendo coisas como “mulher não tem pensamento racional” ou “elas estudam aqui, recebem as benesses públicas, mas estão desperdiçando o dinheiro público. No final, se casarão, terão filhos e abandonarão a profissão apenas para serem mães e donas-de-casa”.
No ITA, Carmen aprendeu a sua mais difícil lição na vida: ficar de boca calada, nunca expressar o que realmente sentia e pensava sobre a disciplina militar, não reagir aos comentários machistas de colegas e professores e fingir-se completamente assimilada por aquele modo, para ela, muito estranho de ver, e de viver, a vida.
O resultado dessa disciplina mental foi a lenta perda de seus poderes intuitivos. Já não sabia dizer as horas sem olhar para algum relógio. Já não podia saber, de antemão, que matéria cairia na prova. Já não podia adivinhar as verdadeiras intenções dos rapazes que tentavam se aproximar dela.
No quinto ano do curso – ela optara por Engenharia da Computação – visitou a sede a IBM, em Armonk, Nova Iorque, nos EUA, com alguns colegas, levados em avião da FAB. A International Business Machine Corporation, fundada em 1911, já nas primeiras décadas do século XX, adotara os famosos cartões perfurados, precursores das primeiras máquinas de computação. Carmen imaginava estar sonhando. Aprendeu muito nas duas semanas em que a turma do ITA viveu praticamente o dia inteiro dentro da empresa gigante.
Formada, foi trabalhar na sede da IBM brasileira, em São Paulo, sua cidade querida e natal, na Rua Tutoia.
Levou anos para recuperar seus poderes intuitivos. Para tanto, no final dos anos 1990 ela, que já tinha pleno acesso à Internet havia algum tempo, descobriu na World Wide Web algumas escolas de mistério que remontavam à Idade Média, como a Ordem Rosacruz, recriada na França em meados do século XV.
Nas férias do trabalho, viajava sempre ao Velho Continente e fez alguns cursos nessas escolas antigas. Sabia porém que não recuperaria seus poderes aprendendo suas velhas técnicas. Tinha que recuperá-los dentro de si mesma. Agora estava propensa a concordar com seus colegas machistas: Mulheres não têm apenas o pensamento racional, mas vão muito além disso, a Natureza as dotou de um sexo sentido, de uma intuição que as capacitava a abrir outras portas da alma e da consciência.
Em suas muitas andanças pela Europa, aprofundou-se na história das civilizações celtas, dizimadas pelos cristãos, e compreendeu, em profundidade, a origem de sua alma de Bruxa. Procurava, depois de algum anos, quase em desespero, reaver aquela capacidade juvenil de saber coisas que quase ninguém sabia. Mas pouco estava conseguindo. Os cinco anos de “racionalidade militar” que impusera a si mesma, sufocando sua verdadeira personalidade rebelde e progressista, pareciam ter cobrado dela um preço muito alto.
Nunca se casou e muito menos teve filhos. Tinha alguns amantes, inclusive no Exterior. O trabalho a consumia. Tornou-se uma das mais respeitadas executivas de filiais estrangeiras de TI dentro da IBM. Vivia grande parte do tempo em conferências e encontros em vários países do mundo, a cara sempre metida em qualquer tela.
Foi em 2020, quando veio a Pandemia, que ela passou ao regime de Home Office, como quase todos os seus colegas e tudo – da rotina diária aos encontros internacionais – passou a ser on line. Ela estava então com mais de 45 anos de idade.
Um dia, tarde da noite, ainda trabalhando, perguntou-se, afinal, se a madrugada já ia alta e, antes mesmo de conferir a hora na tela do seu computador, soube que eram 4h10am.
Riu. Será que seus poderes estavam afinal voltando?
Na manhã seguinte abriu a geladeira e viu que, exceto pelas refeições congeladas que ela comprava regularmente, em embalagens individuais, o refrigerador estava quase totalmente vazio.
Foi ao computador, abriu o What’s App e contatou a mercearia próxima onde sempre fazia compras. Saladas verdes e de frutas, prontas para consumo, alguns gramas de “vrust”, 150g de queijo
Gorgonzola, 5 minipães integrais e já ia teclando “1 pote de requeijão cremoso” quando decidiu que não. Não compraria o requeijão, o que estava comprando, para apenas si própria, seria suficiente para os próximos dias.
Mais tarde, quando o entregador trouxe suas compras, disse:
-- Hoje tem brinde, Dona Carmen.
-- Oh... obrigada.
E o brinde era um pote de requeijão cremoso.
2021, setembro, 05



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