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Madrugada

  • Foto do escritor: SAUDE&LIVROS Fomm
    SAUDE&LIVROS Fomm
  • 15 de mar.
  • 8 min de leitura

por Isabel Fomm de Vasconcellos Caetano


Assista ao vídeo onde conto essa história, programa As Bruxas, na TV Paradise.


Riviera Bar nos anos 1970, Juvenal, nosso querido garçom, na porta.
Riviera Bar nos anos 1970, Juvenal, nosso querido garçom, na porta.

Naqueles tempos obscuros era melhor viver de madrugada. Nos bares de São Paulo, a nata dos seres pensantes, descontentes com o estado de arbítrio, censura e escuridão, se reunia, muitas vezes para cantar as poesias musicadas da MPB, as que escapavam das garras dos censores. Ana cantava, sem remuneração e como amadora, em vários barzinhos da noite paulistana: Menestrel, Jogral, Balcão de Pedra.

 

“Não põe corda no meu bloco, não vem com teu carro chefe, não dá ordem ao pessoal. Não traz lema nem divisa porque a gente não precisa que organizem nosso carnaval. Não sou candidato a nada, meu negócio é batucada, mas meu coração não se conforma. O meu peito é do contra e por isso mete bronca nesse samba plataforma.” *

 

Enquanto os inconformados se refugiavam na noite, os contentes exibiam seus carrões e suas gravatas francesas, marcas indeléveis do sucesso profissional de quem sabia levar vantagem em tudo e só se preocupava com o seu próprio umbigo.

 

Agora, que era Carnaval, estavam todos – os contentes e os descontentes da Ditadura militar brasileira – misturados nas arquibancadas e no asfalto da Avenida Tiradentes, para o tradicional desfile das Escolas de Samba. Aquele ano, 1978, marcava a consolidação de São Paulo como também protagonista da festa nacional. Foi o ano do rebaixamento de grandes agremiações como Camisa Verde de Branco e Gaviões da Fiel e também o ano da revelação de um grande sucesso: a Vai-Vai com o seu enredo São Vicente.

 

Ana torcia o nariz para o Carnaval, para o futebol, embora reconhecesse a importância e ambos não só para economia do país como para a sua maior estabilidade social. Mas de qualquer forma, para ela, carnaval, futebol e religião não passavam do que a esquerda chamava de “ópio do povo”. Porque no coração de Ana Maria, pulsava o anseio por um mundo melhor, por justiça social, pela igualdade de oportunidades, pelo direito de sonhar, de construir pontes e acessos, de amar ao próximo como a si mesmo... Assim, pelo menos dizia aquele que, há quase dois mil anos, morrera na cruz para nos salvar. Assim dizia John Lennon, imaginando um mundo onde não existissem fronteiras e todo o povo pudesse viver a vida em paz. **

 

Viver na madrugada, porém, era como estar em um período simbólico: já não era noite, mas também ainda não era dia. Exatamente como a realidade política brasileira: estavam vivendo a lenta transição de uma noite muito, muito escura, para a esperança de um amanhecer, lá adiante, com as promessas de anistia e de abertura do regime. 

 

Ainda assim, como estavam, agora, distantes de todos os seus sonhos de adolescência, julgava Ana.

 

Trabalhava, do meio dia às seis, num grande jornal. Era mais uma redatora da editoria de cidades. Enquanto batucava nas teclas de sua máquina de escrever, muitas vezes sentia a presença de “um deles”, que espiava seu texto por trás de seus ombros.

 

“Eles” estavam em toda a parte. O motorista de táxi, por exemplo, que puxara conversa com ela durante uma corrida, contando que fôra assaltado por bandidos subversivos, que levaram seu carro e avisaram que o devolveriam depois de usar o veículo para uma ação justiceira. E falara, com entusiasmo, que conseguira recuperar o carro, com a ajuda da polícia, e que tudo estava em ordem, que os tais “terroristas” não tinham mexido em nada, nem mesmo nos seus caros óculos escuros que estavam pendurados no quebra-sol do painel.

 

Ana Maria identificou aquela fala dele como uma provocação. Afinal, tinha tomado o táxi à porta da redação do jornal. Para “eles” todos os jornalistas eram de esquerda. Ele queria que ela aprovasse a atitude dos que haviam surrupiado o táxi dele. Que se abrisse, e ele então a “deduraria”. Respondeu simplesmente:

-- Fico surpresa que o senhor esteja aprovando esses bandidos. Pois eles, por fim, usaram seu carro para uma ação contra o nosso governo, e esse governo só tem trazido paz e progresso ao nosso país.

 

Diante disso, ele simplesmente mudou de assunto.

 

“Eles” estavam em toda a parte. Na faculdade que cursara, muitos de seus colegas eram agentes do governo militar, infiltrados para identificar, entre os estudantes, aqueles que poderiam estar ligados a grupos que a ditadura classificava como subversivos ou terroristas, que conspiravam pela volta do estado de direito no Brasil.

 

Fôra na redação do jornal, fazendo uma matéria sobre as Bienais de Arte de São Paulo, que Ana conhecera aquela mulher maravilhosa. Diná Lopes Coelho, braço direito de Ciccillo Matarazzo na montagem e instalação da I Bienal, e naquele momento, 1978, diretora do MAM, Museu de Arte Moderna de São Paulo, no Parque do Ibirapuera. Diná era viúva do escritor de romances policiais, Luiz Lopes Coelho. Apesar de 40 anos mais velha que Ana, as duas – jornalista e entrevistada – viveram uma empatia imediata. Diná também era boemia, gostava da noite e, em breve, Ana passou a ir ao MAM, às oito da noite, final de expediente, para buscar Diná que, dispensando o Quirino, seu chofer que dirigia um vistoso dodge dart, se aboletava no fuskinha de Ana e saíam as duas para a peregrinação da madrugada nos bares e restaurantes paulistanos.

 

Mas, como “eles” estavam em toda a parte, estavam também nos bares, escutando as conversas alheias, procurando identificar conspirações e movimentos que visassem combater a ditadura militar.

 

A noite começava ou terminava no Bar Riviera. Lá, onde o próprio Chico Buarque fôra comemorar, em 1967, a vitória de sua música “A Banda” no Festival da TV Record, ainda era o reduto da intelectualidade inconformada com o regime autoritário. Lá estavam artistas plásticos, cartunistas, escritores, diretores de cinema, de teatro, figuras ímpares da sociedade paulistana, mas uma esquerda conhecida como “festiva”, muito diferente dos grupos organizados de resistência, como aqueles que abrigaram, por exemplo, Dilma Roussef (mais tarde presidente do Brasil), Fernando Gabeira, Marighela, Lamarca, Iara Iavelberg, Zé Dirceu, Travassos ou Amelinha Telles.

 

Mas a turma boêmia e da “festiva” tinha também o seu papel importante na resistência ao regime de arbítrio. Através da arte – desde a escrita até a arte plástica, passando pela música, pelo cinema e pelo teatro – aquela juventude antenada também deixava seu protesto, ainda que de forma dissimulada, usando analogias, figuras de linguagem, tudo para ludibriar os censores que, verdade seja dita, não eram assim tão inteligentes e perspicazes.

 

Ana passava seis horas de seu dia na redação do jornal. Algumas outras horas eram dedicadas aos trabalhos de organizações junto às comunidades carentes. Militando numa grande favela da zona sul, levando informação de saúde íntima às mulheres e também de métodos contraceptivos, Ana nunca se esquecera do desabafo de uma companheira: “O meu sonho de justiça social era mais do que ensinar operárias a limpar a própria bunda”. Mas era o que havia, naquele momento, a fazer.

 

Foi na favela que ela viu o cadeirante da loteria. Todos os dias, um vizinho o levava de carro, carona, para a Avenida Paulista, onde ia buscar o seu patrão, morador de um dos primeiros edifícios residenciais daquela via. Carro grande, ficava à noite com o chofer, já que não havia condução na madrugada e o patrão gostava também de frequentar boites e casas noturnas. Graças a esse arranjo, o cadeirante podia ir vender seus bilhetes de loteria em plena Avenida Paulista, a um público de um pouco maior poder aquisitivo do que se ficasse no entorno da favela. À tarde, voltava de ônibus e os motoristas o ajudavam de bom grado a subir a cadeira e a se acomodar num dos bancos para encarar a longa viagem de volta à periferia.

 

Carnaval. Para o cadeirante da loteria, um fim de semana muito especial, quando os clientes, entusiasmados com a festa, viam aumentadas as suas esperanças e, assim, dispunham-se a arriscar ainda mais dinheiro na sorte!

 

Ana conquistara um espaço, no jornal, onde escrevia crônicas assinadas, além de sua atuação como repórter e redatora da editoria de cidades. Inspirada no cadeirante da loteria, criou uma longa crônica onde comparava a rotina daquele rapaz paralítico a vender a esperança da riqueza aos trabalhadores sofridos e mal pagos, com a situação do Brasil e também com o Carnaval. A festa alienante, a abundância só acessível por um golpe de sorte. O imobilizado era quem vendia a esperança

 

Diná e ela estavam no Riviera, plena madrugada, quando viram entrar no bar, nervoso, muito vermelho, o editor do jornal de Ana, um espanhol anarquista:

-- Ana – foi logo dizendo ele, sentando-se à mesa onde elas bebiam. – Aconteceu uma coisa muito séria com a sua crônica de hoje. Algum dos censores deve ter lido e, agora há pouco, em plena madrugada, “eles” invadiram a sala das máquinas do jornal para retirar a sua página. Os gráficos sabem que eu moro perto, me ligaram, pulei da cama, fui correndo pra lá. E “eles”, não contentes em impedir que parte do nosso jornal circule daqui a pouco, de manhã, ficaram me pressionando, querendo o seu endereço, para ir à sua casa buscá-la para “prestar esclarecimentos”.

Consegui convencê-los de que a sua crônica não era política, era poética. De que você não passava de uma burguesinha rica, que mora no Brooklin, com seus pais empresários, que não tem ligação alguma com nenhum movimento de resistência... Mas mesmo assim, se eu fosse você, sumiria por uns tempos. Consigo, no RH, uma antecipação de férias pra você. Suma por umas duas semanas, deixa essa poeira abaixar.

 

Diná disse: -- Vá passar essas semanas no meu apartamento do Guarujá.

 

À porta do Riviera, na avenida Consolação com Paulista, a poucos quilômetros da passarela do samba da Tiradentes, ainda chegavam os sons dos sambas enredos, rompendo o silêncio da madrugada.

 

Na saída do bar, quando Ana meteu a chave na fechadura da porta do fuska, ouviu a sirene. “Eles” estavam parados logo ali e vieram correndo, a grande C14, as janelas apontando metralhadoras, desceram 5 ou 6, um “deles” disse:

-- Ana Teixeira? Queria nos acompanhar à nossa central para prestar esclarecimentos...

Diná se adiantou:

-- Como assim, capitão? Essa moça está sendo presa? Onde está o mandado de prisão?

 

-- Não, minha senhora. Precisamos apenas colher o depoimento dela.

 

-- Por que? Qual é a questão?

 

A essa altura dos acontecimentos, quase todos os frequentadores do bar já lotavam a calçada e formaram um círculo em torno “deles”. O capitão não se sentia assim tão seguro.

 

Diná disse:

-- Ela não vai a lugar nenhum sem um advogado. Vou entrar no bar e ligar para o meu ex-marido, Dr. Canuto Mendes de Almeida, para que alguém do escritório dele a acompanhe nesse depoimento.

 

Os repórteres já tinham sido chamados. E, por mais que a censura, depois, os impedisse de publicar a história, os flashes das máquinas fotográficas entraram em ação.

 

“Eles” perceberam assim que tinham sido derrotados e resolveram recuar.

-- Muito bem, -- disse o capitão – dado o avançado da hora, vamos esperar que a senhora Ana Teixeira se apresente voluntariamente à nossa central amanhã ou depois para prestar os esclarecimentos necessários. – E bateram em retirada.

 

A galera, na calçada, comemorou, com aplausos, gritos e assobios. Mas Diná, na manhã seguinte, mandou Quirino, seu chofer, buscar Ana em casa e leva-la para o Guarujá, onde ela passou as três semanas seguintes.

 

Escapar das garras “deles”, escapar da tortura enlouquecedora, era o verdadeiro milagre!

 

Ana ainda viveria mais 7 anos sob as botas dos militares. E, quando veio a abertura, percebeu que não conseguia mais escrever livremente. A autocensura estava introjetada nela como uma praga. Levou mais uns bons pares de anos para recuperar a fluência natural do texto.

 

Pensava nas torturas sofridas por suas irmãs, durante 6 séculos, na Idade Média. Não era muito diferente hoje. Na verdade, era quase igual. Mas ela lutaria pela sua própria liberdade de expressão, lutaria sempre, pelos seus ideais de vida, lutaria porque sabia que, apesar “deles”, a bruxa, dentro dela, seria maior e mais forte do que qualquer repressão.

 

 

 

* Plataforma – João Bosco e Aldir Blanc

** “Imagine that are no countries… Imagine all the people, living a life in peace” – Imagine, John Lennon

 

Bel, 2026, fevereiro, 12


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