O Dia do Impossível
- SAUDE&LIVROS Fomm
- 22 de fev.
- 5 min de leitura
por Isabel Fomm de Vasconcellos Caetano
do Livro Histórias da Mulher

Souberam primeiro por causa das nuvens. Foi exatamente como tantas vezes haviam imaginado que seria e não queriam acreditar, mesmo quando veio a certeza. Haviam previsto também que não acreditariam. Estavam preparados para este terrível momento, para fazer o que era preciso fazer, mesmo sem poder acreditar que o Impossível, afinal, ocorrera.
Teriam agora que se apressar. Haviam sido treinados para isso também. Da mesma forma que o mundo era insensato o bastante para destruir-se a si mesmo pela radioatividade, era também monstruosamente eficiente: há gerações que, desde a mais tenra infância, algumas pessoas eram treinadas para enfrentar este momento.
Tudo sairia bem para eles. Eles eram os Eleitos. Olhavam para as estranhas nuvens que invadiam o céu. Esta seria a última vez que veriam o poente de Quirz 4.
Até poucos instantes, eles eram pessoas comuns. Estavam juntos há dez longos anos e com eles viviam quatro crianças, três meninas e um garoto adolescente.
Adão, abraçado à mulher, ficara muito tempo a contemplar o céu. Nenhum dos dois queria ou precisava falar. Sabiam com exatidão o que aconteceria dali para a frente. Eva colocou todo o peso de seu corpo sobre o braço de Adão, que a amparava. Pensou no triste espetáculo da morte lenta de um mundo. Tudo o que haviam construído e preservado, toda a história de seu povo forte, tudo iria ruir lentamente, numa ironia insuportável, implacável deboche a todo o conhecimento duramente adquirido ao longo de muitas eras.
Adão aparentava calma, o rosto sereno. Mas dentro dele, a despeito de todo o treinamento recebido, havia tempestades.
Eva mudara de repente. Seu rosto tornara-se duro, como se talhado em pedra, de uma beleza assustadora.
As crianças simplesmente pareciam não conseguir alcançar toda a extensão do horror que se seguiria até o final.
O final. Para Adão e Eva não seria o final.
O mundo de Quirz 4 pereceria, vítima que já era da explosão atômica. Porém toda a civilização construída naquele mundo agora agonizante escaparia da morte, armazenada que fora nas eletrônicas memórias de bordo das naves em que os Eleitos viajariam.
Há muito o Conselho dos Sábios, cujas ações não eram facilitadas por sua condição política de opositores, vinha desenvolvendo o seguro projeto de Retirada para a eventualidade da catástrofe nuclear. Catástrofe esta à qual os governantes chamavam O Impossível, ironizando o discurso dos pacifistas.
O projeto de Retirada enfrentara obstáculos e dificuldades mas, graças ao esforço de outros como Adão e Eva, agora funcionaria sem margem de erro.
No longo período das quatro gerações que trabalharam no projeto, uma casta foi se formando entre os mais destacados cérebros da pesquisa. Uma entidade elitista foi fundada, aparentemente com ares de um desinteressante clube de linguística, encobrindo sua verdadeira finalidade. Daquela entidade saíram os Eleitos, encarregados de levar, até uma outra galáxia, toda memória, eletrônica e genética, dos seres da antiqüíssima civilização de Quirz 4.
Ao redor de uma outra estrela, num outro quadrante do Universo, havia um pequeno planeta onde a vida era semelhante a de Quirz 4. Um planeta com árvores, pássaros, rios, bichos, mares, montanhas e ventos. Um pouco mais frio, uma maior intensidade nos raios ultravioleta, noites mais longas, dias mais curtos. Poucas diferenças e as mesmas condições básicas para a manutenção da vida.
Sim, muitas vezes Adão e Eva imaginaram aquele momento, tentaram vivencia-lo, discutindo suas possíveis reações, e repassaram as rígidas instruções a serem seguidas para a Retirada, sempre conscientes de que seriam dos poucos privilegiados eleitos para viver, para reconstruir seu mundo em um outro planeta, sob um outro céu, respirando um outro ar. Seriam, a partir de agora, os guardiões de uma história construída por três mil gerações de antepassados.
Um tremendo silêncio caíra sobre os vinte milhões de habitantes de Quirz 4. E este silêncio fora, para todos, uma reação nunca imaginada.
O Impossível acontecera quando a estrela Quirtz se encontrava a pino no céu da Região 7, hemisfério sul. Toda aquela região estava agora destruída e o resto do planeta sabia que a sua sorte seria ainda mais trágica: a morte lenta, inexorável, de tudo.
Antes, pensavam que, se o Impossível ocorresse, haveria pânico.
E houve apenas aquele silêncio pesado, unânime, perplexo.
Quirz 4 possuía uma eficiente rede de comunicações que unia todo o planeta. Na região onde viviam Adão e Eva, corria a tarde pelo meio quando aconteceu o Impossível, transformando em deserto um quarto do mundo.
Primeiro, a perplexidade.
Depois, o silêncio de todos.
Tinha sido assim em toda parte. O sistema de comunicações passara a transmitir, desde aquele momento, apenas imagens de cada canto do mundo, como num ritual de despedida. Nenhuma palavra. Nenhum comentário. Nenhum protesto.
Silenciosamente, todos abandonaram suas atividades e reuniram-se aos seus afetos. Nada mais havia a fazer. Apenas esperar pelo fim. Todas as atividades e os serviços perderam sua razão de ser.
Adão e Eva olharam um para o outro. Hora de partir.
Para eles, como para outros em outras regiões de Quirz 4, haveria uma chance: a de sobreviver à travessia espacial nunca antes tentada em tal magnitude, carregando em ilhas de ferro e aço a memória de seu povo. Uma ilha grávida da cultura e do conhecimento que o povo de Quirz 4 acumulara em toda a sua história.
Talvez conseguissem chegar, adaptar-se, sobreviver, gerar filhos, construir um novo Quirz, reproduzirem-se a si mesmos e à sua civilização. Esta civilização cujo orgulho levara ao Impossível.
Grande responsabilidade.
Adão, Eva e as crianças, deram-se as mãos e puseram-se a caminho.
Havia muito pouca gente por onde passavam. E ninguém falava. Era como num sonho.
Eram seus últimos passos naquele chão.
Depois, o chão de um planeta desconhecido. Sobre eles, para o resto de suas vidas e para todas as vidas que deles se gerariam, o céu de uma outra galáxia, outras estrelas por confidentes.
Estavam de partida para o terceiro dos nove planetas em órbita elíptica de uma estrela semelhante a Quirtz. Um planeta distante, enorme e azul, onde está agora a esperança.
E, caminhando, sem trocar palavra, pensaram, sem perceber que pensavam a mesma coisa, que talvez todos os recursos que o projeto Retirada reunira e todo o aparato que levavam não fosse suficiente para impedir, na nova terra, que os conhecimentos e a cultura e as tradições fossem se perdendo no decorrer das primeiras gerações e que recuassem e que se tornassem quase selvagens...
Foi um pensamento forte e decepcionante.
Pois, no fundo de suas almas, pareciam saber que a história dos seres humanos é cíclica e que o destino seria começar de novo, mas começar exatamente do mesmo princípio que antes houvera.
Bel, outubro, 1986



Comentários