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O Elixir da Felicidade

  • Foto do escritor: SAUDE&LIVROS Fomm
    SAUDE&LIVROS Fomm
  • 22 de fev.
  • 6 min de leitura

por Isabel Fomm de Vasconcellos Caetano

do Livro Histórias de Mulher



Na Árvore da Felicidade,o macho cresce à sombra da fêmea.

Ela, esplêndida, bem maior do que ele, espalha seus galhos numa explosão de folhas

num tom de verde delicado e vibrante.

Ele é pequeno, troncudo, muito forte e coeso, num verde austero e escuro,

mas nem por isso menos belo.

É uma planta bonita e intrigante, a árvore da felicidade.

Delicada, porém sólida e forte.

Cresce tranqüilamente dentro das casas, em vasos profundos,

e chega aos dois metros de altura.

De perto, exala um perfume leve e muito seu.

 

Era uma tarde fria e úmida de sábado, tipicamente paulistana, ideal para se deixar ficar em casa, debaixo de cobertores, lendo, vendo TV ou tomando chá.


Augusta sabia muito bem que o clima da tarde era propício ao que decidira fazer, e preparava o espírito para a empreitada. Escolhera Helena, seu neta favorita, então com quatorze anos e uma bonita aparência atlética, condizente com a sua condição de garota bem-de-vida dos anos oitenta. Era a ela, a esta sua descendente, esportiva e saudável, que passaria o delicado e feminino segredo da família. Helena era, -pensava Augusta- entre os seus netos, a mais inteligente; viva, perspicaz e (por que não?) oportunista o suficiente. Os traços de sua personalidade eram nítidos e transparentes como haviam sido sempre, desde a infância. E, agora, ela parecia não estar vivendo a adolescência,como se tivesse passado direto ao pensamento adulto.


Augusta não escondia sua satisfação diante disso: Helena era a continuação dela própria, legítima herdeira de seu caráter e de seu modo de vida. Um modo de vida determinado pela força, pela persistência e pela certeza de vencer sempre. Helena haveria de ser -- Augusta tinha certeza--  uma extensão de sua alma, o capítulo seguinte de uma mesma história. Não fora à toa que jamais contara o delicado segredo de família a nenhuma de suas filhas; valera a pena, refletia, ter esperado por uma neta como Helena, capaz de absorver toda a extensão de tal delicadeza.

 

Estavam as duas, avó e neta, preguiçosamente instaladas em confortáveis poltronas de chintz e tinham, vinte andares abaixo, a cidade de São Paulo, estranhamente silenciosa nesta tarde de sábado. O cenário, lá fora, para além das imensas janelas de vidro (que Augusta fazia questão de manter com as cortinas recolhidas), era cinzento, frio. Aqui, uma cápsula de conforto e aconchego.

Helena esperava, um ar divertido no rosto jovem. Sabia que a avó não faria com que ela viesse a sua casa num sábado apenas para tratarem banalidades.


-- Helena, vou contar-lhe um segredo -- disse, finalmente Augusta. -- Você sabe guardar segredos?


-- Se vai me contar, vovó, é porque você sabe que eu sei...


Augusta riu e então retirou de uma caixa de jóias,sobre a mesinha ao seu lado, um pequeno frasco, ricamente trabalhado e com um lacre que parecia ser muito antigo. Continha um líquido espesso, cor de ouro.


-- Este é muito mais velho do que se possa imaginar, --disse, passando o frasco à Helena -- veio com nossos avós, quando imigraram, e estes herdaram-no dos avós dos avós deles, talvez.


-- É muito bonito. -- Helena rolava o frasco entre os dedos, erguendo-o contra a luz, observando.


-- Como você pode ver -- continuou Augusta -- ninguém nunca precisou fazer uso dele. Está intacto. É uma velha poção, preparada por pessoas muito sábias, antigos alquimistas, e está com a nossa família há muitos séculos, sempre em mãos das mulheres. Ao menos é o que diz a tradição. Trata-se de um Elixir da Felicidade.


Helena olhou para a avó com uma expressão divertida e incrédula nos grandes olhos escuros:

-- Ora, vovó, e eu que pensei que fosse o da juventude!...


Uma expressão grave de censura nublou o rosto de Augusta e Helena, prevendo uma crítica, tratou de ir mudando de assunto:

-- Alquimistas não eram aqueles charlatães da Idade Média, os magos que acabaram abrindo caminho para a química? -- perguntou.


-- Não sei o que você anda lendo, minha filha, ou o que pensam estes professores de hoje em dia, mas o que eu posso dizer deles é que os alquimistas foram, e o são até hoje, os grandes amantes da matéria; talvez tão sábios e seguramente mais profundos do que nossos cientistas contemporâneos. Os alquimistas são discretos e as suas pesquisas, que consistem em longa e persistente manipulação da matéria, visam transformá-los a si próprios muito mais do que à matéria. Por isso escondem-se e não é necessário que se revelem a olhos menos sérios...


-- Como uma maçonaria? --perguntou Helena.


-- Sim, mais ou menos... -- respondeu uma Augusta surpresa.


-- E o que, exatamente, faz este elixir da felicidade? -- quis saber a menina.


-- Ora, simplesmente proporciona a felicidade. Bastam algumas gotas para que tudo se torne fácil para quem o ingere: todos os caminhos se abrem, todas as oportunidades surgem...


-- Ninguém usou? Você não o usou? -- perguntou Helena -- Você sempre me parece feliz...


Augusta deu um longo suspiro e teve um vôo rápido por sobre dezenas de anos vividos. Sorriu ao responder:

-- Talvez nunca tenha necessitado.


-- Mas você foi feliz sempre? -- provocou Helena.


-- Não exatamente. Pois ao contrário do que parece, ser feliz não é imprescindível todo o tempo.

Augusta não se abalou ante o escândalo que viu estampar-se na face da neta. Continuou:-- Quando minha mãe revelou-me o segredo, foi num dia assim cinzento como o de hoje, eu não me julgava feliz. Sabia que era privilegiada, tinha estudos, falava línguas, era bonita. O mundo me esperava! E eu estava decidida a provar ao mundo e a mim mesma que a felicidade é alguma coisa que se pode conquistar sem a ajuda de artifícios. Eu queria merecer minha própria felicidade, construí-la...


-- E conseguiu?


- Acabei conseguindo. É verdade que a sorte me ajudou. Mas sorte nada mais é do que o pensamento construtivo e positivo...


-- Mesmo assim --interrompeu Helena -- você deve ter tido momentos difíceis ou tristes na vida. Por mais que pensasse de uma maneira positiva há acontecimentos infelizes que não dependem da vontade...


-- Você vai descobrir que não há quase nada independente de nossa vontade. Mas também tive momentos infelizes em que me julguei vítima dos acontecimentos. Nestes, eu procurava então acreditar que, se tudo fosse felicidade, nada mais seria felicidade. Para saber-se feliz é preciso conhecer a infelicidade, não acha? É como lhe digo: felicidade não é imprescindível todo o tempo...


-- E então --interrompeu novamente Helena -- você nunca encontrou um motivo para tomar o elixir!


Augusta pensou outra vez na surpreendente maturidade de Helena, que erguia novamente o frasco contra a luz:

-- Isto é um segredo então? -- perguntou.


-- Sim. 


-- Nunca contou a mais ninguém, só a mim agora? Por que? Por que não a alguém mais velho do que eu, se você tem tantos filhos e netos?


-- Porque para se ter um segredo é necessário merecê-lo e você o merece.


-- Sou a mais parecida com você, não é? Pelo menos é o que a minha mãe sempre diz...


Augusta sorriu.


Uma sombra passou pelo rosto de Helena quando perguntou:

-- Você não está doente, está?


-- Não seja impertinente! -- enfureceu-se Augusta-- Tenho apenas, -apenas, está ouvindo?-- sessenta e quatro anos. Ainda freqüento os restaurantes que interessam, viajo na temporada e cumpro minhas obrigações na fábrica... Ora, para todos vocês, jovens, todos os mais velhos são muito velhos...


Imediatamente, como se arrependida da própria rispidez, fez um carinho desajeitado no ombro direito da neta, como quem limpa um cisco imaginário da malha.


Helena voltara a erguer o frasco contra a luz:

-- Nenhuma gotinha... Como você pode estar certa de que funcionará? E se estiver estragado, contaminado... poderia matar, envenenar...


-- Nossa família o recebeu de mãos corretas. Tenho plena confiança na tradição. Quanto a fazer mal... Você acha que a felicidade pode fazer mal? A felicidade de uns pode ser a infelicidade de outros..


-- Como você pode ter certeza de que ninguém nunca o tomou? Nem umas poucas gotinhas?


-- O lacre parece muito antigo --disse Augusta, tomando o vidro das mãos da neta -- mas é possível. Algumas gotas não fariam diferença no volume... -- respondeu, ela também a girar o frasco contra a luz. Empertigou-se na poltrona:


-- Agora ele é seu e  quando chegar o momento você saberá o que fazer dele.

E ficaram um instantes caladas, a observar a tarde pelas janelas. Depois, Helena levantou-se, deu um longo e mal disfarçado bocejo e explicou:


-- Tenho que ir agora, vovó. Minha mãe quer o chofer às seis e meia.

 

Augusta fechou a porta e foi guardar o frasco (que agora era de Helena) antes de vestir-se para o jantar, atividade na qual consumiria as próximas duas horas. Seria um compromisso social de rotina, agradável porém, com um de seus velhos sócios.


Estava tranqüila. Sentiu saudades do marido morto há quatro anos e soube-o, naquele momento, muito próximo. Tinha certeza, pensou enquanto acomodava o precioso e delicado vidrinho no macio forro da caixa de jóias, que, dali para a frente, Helena tentaria com todas as forças, ser feliz.


Afinal, passara para a sua mais querida neta o segredo do elixir da felicidade.

 

Bel, 1986, julho, 07

 

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