O Manifesto Beringuele
- SAUDE&LIVROS Fomm
- 22 de fev.
- 3 min de leitura
por Isabel Fomm de Vasconcellos Caetano
do Livro Histórias de MUlher
para Roberto Carvalho, o Bruxo.
O computador esclarece que a tradução da maneira de expressar o pensamento (algo diferente da fala humana) empregada na comunicação dos beríngueles, está longe de ser exata. Certas expressões combinam-se de uma maneira inédita, jamais registrada antes em seus quase infindos bancos de dados. Assim sendo, explica ele, para a interpretação do texto tem-se que considerar a existência de um contexto imponderável, já que se trata de outra raça, outro planeta, outro ambiente, outra evolução histórica, outra forma de ser, pensar e existir deste Universo.
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Transcrição da mensagem inteligente transmitida por alguém de algum lugar chamado "berínguele"(palavra o mais próximo possível semelhante ao som da comunicação deste povo) na última terça feira, 3h30am, horário oficial da Terra, pelo satélite periférico de comunicações Alfacis 327:

Nosso contato visual, revisto e analisado, inúmeras vezes, por todo o nosso planeta, do servidor ao sábio dos sábios, conclui com certeza que o vírus que ataca vorazmente o terceiro planeta em órbita da estrela amarela de nove servos, no caminho branco das estrelas, deve sofrer algum tipo de interferência construtiva.
O vírus está se reproduzindo a uma velocidade assustadora e há um sério risco de que alguns deles possam escapar da crosta protetora que envolve o citado planeta (e da qual eles próprios dependem para viver, mas que podem armazenar e carregar consigo num sistema de encapsulamento quando escapam da crosta para o espaço aberto do nosso céu) e, neste caso, virem se reproduzir aqui, em pleno Cosmos.
Como esta reprodução é rápida e acontece em progressão geométrica, os vírus que infestam o terceiro planeta podem se constituir em séria ameaçada à Vida no Universo.
Em apenas 200 voltas completas em torno de sua estrela, os vírus do Terceiro Planeta multiplicaram-se a si mesmos e aos instrumentos de destruição. Eles provocam cadeias terríveis de reações na Vida do planeta, exterminando outros seres móveis como eles, e devastando seriamente a pele do planeta. Neste período de tempo (200 voltas completas)as imagens aproximadas do planeta mostram o extermínio de grandes partes verdes, a destruição de inúmeras populações móveis-- em parte muito semelhantes aos seus próprios algozes e certamente pertencentes a um outro elo da evolução deles próprios -- o que parece extremamente incoerente com os princípios regentes da Vida.
Tudo portanto indica a necessidade de uma intervenção nossa no sentido de, se não exterminar completamente a causa, pelo menos deter a sua expansão e reprodução.
O planeta ainda não foi totalmente devastado, embora muitas formas de expressão da alma tenham sido definitivamente extintas e muito da pele do planeta, roubada e destruída ou transformada. Se pudermos interferir positivamente lá, livraremos a consciência Universal de mais uma dúvida quanto a morte de seres destrutivos, mas que têm seu papel indubitavelmente nos elos da corrente da Vida Mental em nosso Universo.
Resolvemos então que parte da nossa Mente Berínguela deverá se subdividir e tomar forma de vírus isolados (que eles próprios chamam de "pessoas" ou "seres humanos" ) completamente dotados de todas as características deles e repletos de todas as informações pertinentes à vida e à história deles e, lá, inseridos os nossos vírus no habitat dos vírus do Terceiro Planeta, tentar desviar o rumo que eles têm agora e talvez salvá-los (e também às nossas consciências) do extermínio.
Foi assim que, quando os Beríngueles chegaram à Terra e se misturaram entre nós, algumas autoridades do planeta estavam alertas para detectá-los e identificá-los. Mas desconfiavam que os próprios beríngueles soubessem disso, pois não poderia ser casual a transmissão de sinais codificados (traduzidos pelo computador) com uma mensagem tão ecologicamente correta.
Assim, foram tomadas as primeiras providências para começar a caça e a matança dos possíveis beríngueles que estivessem entre nós.
08 junho 1997



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