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    SAUDE&LIVROS Fomm
  • há 9 horas
  • 4 min de leitura

por Isabel Fomm de Vasconcellos Caetano


Assista ao vídeo onde conto essa história, pgm As Bruxas TV Paradise

Caspar David Friedrich , Por do Sol, 1835
Caspar David Friedrich , Por do Sol, 1835

Renato conheceu Raul num site de encontros, desses que grassam pela Internet. Começaram a conversar e Raul, que era 35 anos mais jovem que Renato, queixava-se da falta de oportunidades profissionais que existia em sua pequena cidade do interior baiano. Renato não vacilou. Convidou-o para vir “passar um tempo” na sua casa na Barra, em Salvador. No décimo andar e com vista para o mar, um quarto sobrando. Aliás, nem precisava. Porque desde que Raul chegou, a paixão era tanta que dormiam todas as noites juntos.

 

Uma manhã, depois da terceira noite de amor, Renato saiu para atender um cliente e, como sempre fazia, parou na calçada da praia para comer um acarajé na barraca de Mãe Olga. Era uma rotina de anos a fio e, com tanto tempo de convivência, Renato e Mãe Olga já desfrutavam daquela confiança e franqueza que só se encontram nos verdadeiros amigos. Ela olhou pro rosto dele, banhado pelo sol matinal e deu uma gargalhada:

-- Eita, Renato. Me deixa adivinhar. Essa cara de felicidade só pode ser um novo amor.

 

Mãe Olga era assim. Muito bruxa. Adivinhava pensamentos, até futuros, sentimentos, decifrava a alegria ou a tristeza de todos os seus fregueses enquanto esses se lambuzavam do maravilhoso e dourado dendê dos deliciosos bolinhos de feijão que Olga fritava ali mesmo, na calçada.

Perguntou:

 

-- Quem é esse agora? Onde o conheceu? Quantos anos é mais novo que você?

 

Olga sabia da história dos “paizinhos” dos gays. E das preferências sexuais de Renato. Já tinham trocado muitas confidências sobre o assunto. Tinham quase a mesma idade, tinham sido jovens nos anos 1970, quando o amor livre era uma prática descomplicada e natural, muito diferente do que é nessa década de 2020, onde os jovens criam tantos mitos em torno do sexo que o privam de sua simplicidade, de seus atributos de instinto e impulso. Olga tinha 7 filhos, de 2 pais diferentes dos quais enviuvara, e atualmente morava com um garoto, uns 20 anos mais novo que ela. Então, de amor, entendia.

 

E foi com Olga que, alguns meses depois que Raul estava morando com ele, Renato desabafou. Estava preocupado com um detalhe na vida do amante. Ele não tinha pai. No documento de identidade, só o nome da mãe e isso o envergonhava a ponto de ele desistir de uma entrevista de emprego só pra não ter que mostrar o documento. Preferiu ir trabalhar de auxiliar de padeiro no estabelecimento ali da esquina, sem carteira assinada mesmo. Renato já conversara várias vezes com ele sobre esse assunto, tentara fazê-lo entender que, nos dias de hoje, ninguém mais se importava com isso. Mas não tinha jeito, Raul tinha horror em pensar que os outros soubessem de seu infortúnio.

 

-- Se ele continuar a se recusar a mostrar os documentos pra conseguir um emprego, nunca conseguirá. Vai morrer ajudante de padeiro! E ele é um garoto inteligente, Olga. Parou a faculdade no segundo ano, mas pode continuar, se quiser. Pode ir longe!

 

A conversa entre os dois era sempre truncada, porque Olga ia falando e atendendo os clientes e fritando os acarajés, e recebendo os pix e os cartões. Mas já estavam acostumados a conversar assim aos pedaços.

 

-- Acho que você poderia ajuda-lo – disse Olga.

 

-- Mas ajudar como?

 

-- Você não tem herdeiros, seus pais e irmãos já morreram, você não tem família, não é assim? – perguntou ela.

 

-- Só tenho uma tia velhinha que mora em Feira de Santana, solteirona, nem primos me deu.

 

-- Então... Vai deixar seu apartamento pra quem? O Raul tem idade pra ser seu filho. Vá ao cartório e adote ele. Dê a ele seu sobrenome e ele não terá mais que se envergonhar...

 

Renato começou a pensar. Não é que a Olga tinha razão? Adotando Raul, o faria feliz e, teria pra quem deixar seu apartamento quando morresse.

 

Passou uma semana inteira matutando, pensando nos prós e nos contras de tomar essa decisão e, finalmente, numa noite, depois de fazerem sexo, Renato, que já consultara profundamente o seu coração e os seus sentimentos para com o amante, disse:

 

-- Raul você gostaria que eu adotasse você, formalmente, e me tornasse seu pai?

 

 Raul deu um pulo involuntário e sentou-se muito ereto na cama:

-- E você faria mesmo isso? Seria maravilhoso para mim!

 

Não sem antes agradecer à Olga, Renato formalizou a adoção e Raul passou a ser oficialmente seu filho.

 

Mas, daí pra frente a relação dos dois foi lentamente se modificando. Raul chegava do trabalho e abria os braços ao ver Renato, dizendo: “--Oi, meu pai querido!” Quando, já com o novo documento em mãos, compareceu a algumas entrevistas de emprego e achou uma colocação foi pedir a Renato conselhos profissionais e esse discursava num tom cada vez mais paternal. Começaram a passar as noites em quartos separados, afinal, filhos não fazem amor com seus pais!

 

Por essa Renato não esperava. Esperava ser o pai da Raul apenas no papel, formalmente, mas a formalidade se transferira para o cotidiano. A gratidão de Raul por Renato ter resolvido o maior problema de sua vida; o orgulho de Renato por ter sido capaz de tomar uma atitude como aquela; o carinho que passaram a sentir por aquela convivência realmente de pai e filho... Tudo isso transformou completamente o amor carnal deles em amor paternal e filial.

 

E, assim, Renato precisou encontrar um novo amante, o que acabou fazendo mesmo. E Raul, apaixonou-se por uma colega de trabalho e casou-se com ela. Dessa forma, logo-logo, Renato virou avô.

 

Bel, 2026 janeiro 19


Programa As Bruxas, na TV Paradise.

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