Presságios
- SAUDE&LIVROS Fomm
- 22 de fev.
- 3 min de leitura
por Isabel Fomm de Vasconcellos Caetano
do livro "Histórias de Mulher"

Sabia que alguma coisa ia acontecer.
Algo diferente e muito grande, que quebraria a rotina e talvez mudasse o destino. Sabia. Tinha certeza. Porque, naquela semana, estavam a ocorrer os mais estranhos absurdos.
Houve aquela manhã em que o bule de café saltou, sem aviso e sem estímulo, da boca do fogo para o chão, fazendo uma sujeira dos diabos; e a tarde em que o canário --morto há meses-- cantou por mais de dez minutos na gaiola vazia e abandonada a um canto, no quintal. Ah, sim... e as aranhas!...Uma invasão delas.
Foi só quando apareceram, fora de propósito, aquelas aranhas espalhando-se aos montes por todos os cantos da casa, foi só então que se deu conta das muitas coisas estranhas que estavam acontecendo nos últimos dias. A lata de lixo, por exemplo, não exposta ao sol ou a eventuais passantes, que pegara fogo por combustão espontânea... Mistérios.
Então, quando as aranhas invadiram-lhe a casa, lembrou-se.
Há anos não tinha presságios.
Houvera tempo em que eles eram comuns e vinham sempre acompanhados pela invasão de aranhas.
Sorriu à lembrança.
Os presságios! Tivera-os quando esperava o primeiro filho. Quando esperava, por noites intermináveis, que o marido voltasse da roça distante onde arranjara um trabalho. Sabia sempre, na ausência dele, qual seria o momento de sua volta. As árvores lhe diziam. Ou as aranhas. Ou os pequenos desarranjos da Natureza. Então ela se enfeitava, arrumava melhor a casa e ia esperá-lo no cruzamento da estrada principal. E ele talvez pensasse que tinha uma mulher sempre arrumada...Era engraçado. Mesmo que ele levasse semanas para voltar, ela sempre sabia...
Mas e agora? Tantos anos passados, morto o marido, crescidos os filhos...para que presságios? Tudo na vida tinha que ter uma razão, uma necessidade...
Alguma coisa grande estava para acontecer. Tinha certeza. Sabia com os nervos, sabia com o corpo cansado, sabia com os olhos que estranhavam as tardes, sabia com os ouvidos, a identificar novos ruídos no farfalhar do vento nas folhas. E, lá bem dentro, temia.
O que estaria a Natureza tentando dizer-lhe agora? Coisa boa é que não poderia ser.
Os longos anos de trabalho, os olhos que já viram de tudo um pouco, desmentiam qualquer esperança. Temia pelo filho mais novo, que partira para a cidade. Temia pelo outro filho, pela nora e pelos netos, que moravam ali com ela, trabalhando a terra já gasta. Seus filhos, temia por eles, pela menina, a única que tivera e que Deus já levara. Temia pelos filhos que não tivera, aqueles que botara prá fora de seu corpo, graças àquela mistura de ervas...
A terra, o que estaria querendo dizer-lhe a terra agora, produzindo seus absurdos presságios fora de hora?
Que o mundo andava de pernas pro ar, sabia. Tinha rádio em casa. Mas hoje quase nem ligava o aparelho, cansada de ouvir tristezas. Na vila próxima podia ver televisão, às vezes. E por estas e outras sabia que o mundo andava torto. Ouvia histórias... Mas não! Não era isso. Por um instante pensou que talvez fossem as máquinas as responsáveis pelo desaparecimento dos presságios.
Quem precisaria deles, quando se podia saber tudo pelas máquinas? Tudo o que acontecia em todas as partes do mundo podia-se saber pelas máquinas...
Por mais que pensasse, não podia atinar. Por que, afinal, teriam sumido e, de repente assim, ressurgido os presságios? Por que o bule a mexer-se sozinho, o canário morto a cantar, a roupa no varal teimando em não secar, as aranhas brotando por entre as frestas, dos ralos?
No fim do dia sentou-se lá fora e escutou atentamente o vento a soprar. Temia que ele lhe trouxesse a notícia de mais um de seus filhos...morto? Havia conflito nas terras. Armas. Brigas. Invasões... Não. Também não era isso...
Foi deitar-se, intrigada.
Sonhou que era jovem outra vez. E que passavam aranhas pelo chão da casa, como um pequeno exército, milhares delas. E que o bule caía sozinho de cima do fogão. E que os pássaros voavam de costas. Então vestiu o vestido mais novo, ferveu uma erva para passar nos cabelos (negros, de novo, os cabelos) e ajeitou flores no vaso, enfeitando a casa e fazendo-se bonita para ir esperar o marido à beira da estrada. Para a sua alegria, lá vinha vindo ele. Caminhava devagar e parecia muito bonito e alegre. Acenou para ele, sorrindo como se houvesse na vida motivo para tão largo sorriso.
Acordou.
Amanhecia.
Olhou-se a si mesma e notou qualquer coisa diferente.Saltou da cama e foi se olhar no espelho. Tinha de novo trinta anos. Mas podia ouvir a respiração dos netos para além da cortina divisória e ouvia os filhos em seus afazeres matinais.
Foi então que olhou pela janela.
Do outro lado, o marido lhe sorria.
Ágil como uma gata saltou para fora. E se foi com ele.
1980



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