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A Velha

  • Foto do escritor: SAUDE&LIVROS Fomm
    SAUDE&LIVROS Fomm
  • há 5 dias
  • 7 min de leitura

por Isabel Fomm de Vasconcellos Caetano


assista vídeo onde conto essa história - As Bruxas na TV Paradise



Velha. Marta estava velha. Mas como? Se, por dentro, lá no fundo da sua alma, continuava tão forte e tão curiosa quanto aos 25? Mas tinha 75! O espelho lhe mostrava isso todos os dias. Só que Marta não era mulher de se dobrar. A academia garantia-lhe um corpo ainda firme e sensual. A dermatologia, com sua bioestimulação de colágeno, proporcionava-lhe a firmeza e o contorno do rosto e até a tradicional cirurgia plástica havia lhe brindado com a aparência jovial e o corpo mais delineado.

 

A humanidade, porém, estava ainda longe de alcançar a Fonte da Juventude. E a velhice era um inexorável destino. No entanto, se era jovem por dentro, poderia continuar a viver com a mesma alegria, com a mesma garra, com a mesma força de meio século passado.

 

Morrera-lhe o marido havia 4 anos. Fôra infeliz com ele por cinco décadas. O luto fôra a libertação que faltava, mas ela jamais parara de trabalhar. Sim, aos mais de 70, ainda trabalhava. Tinha sua empresa de consultoria jurídica, advogada trabalhista bem sucedida que fôra por décadas e décadas. Trabalhava hoje em home office e poucas vezes tinha que se ausentar de casa para ir a uma reunião com um cliente ou a alguma balada, happy hour, com amigos.

 

Por isso, porque saía pouco de casa, um dia sua filha Eleanor, a caçula, lhe disse:

-- Mãe, você deveria vender o seu carro.

 

-- Ué... –respondeu ela – por que?

 

Seguiu-se uma resposta cheia de dados estatísticos, que abarcavam não apenas os altos custos de impostos e manutenção dos automóveis, como também a necessidade de se fazer exames médicos cada vez mais frequentes, à medida que se envelhecia. Marta respondeu:

 

-- E o que você, minha filha, tem a ver com as minhas despesas? O meu rendimento é meu e eu o aplico como bem quiser. Além disso, qual é o problema de se fazer exames médicos mais frequentes? Isso é uma exigência do próprio passar do tempo. E é bom, para que tenhamos a certeza de estar nas condições ideias para pilotar um automóvel.

 

Marta sabia, entretanto, que aquela conversa de vender o carro era apenas a ponta do iceberg. Com a velhice dos pais, vinha para os filhos a ideia de que seria necessário “cuidar” deles, mas, em seus inconscientes, cuidar seria sinônimo de mandar, de controlar, de dirigir a vida deles, como se os próprios não fossem mais capazes de fazê-lo. Era uma espécie de vingança filial: para educa-los, na infância e adolescência, os pais evidentemente colocaram limitações a eles, os frustraram em diversas ocasiões e agora... Agora era a hora da revanche! Filhos limitando os pais.

 

Um dia, quando faltou a faxineira e o apartamento estava precisando de algumas limpezas, Delio, o filho mais velho de Marta, chegou à casa da mãe para levar um documento que ela precisava assinar e aproveitar para filar um almocinho. Comidinha de mãe é outra coisa. Encontrou Marta terminando de faxinar o banheiro principal. E se indignou:

-- Mãe, você enlouqueceu? Estava mesmo limpando o banheiro? Não sabe que esse é o cômodo mais perigoso de uma casa para os idosos?

Marta riu:

-- E quem é o idoso aqui?

-- Você tem 75 anos! – gritou ele – Não pode se arriscar a cair e quebrar algum osso!

Marta levantou, dobrada, a perna direita, fez um 4, e rindo ainda, disse:

-- Eu faço densitometria óssea, estou no trinques, e mais academia quatro vezes por semana! Quem disse que não sou capaz de limpar um simples banheiro?

 

Quando ele perguntou do almoço, ela pegou o celular e escolheu uma refeição no aplicativo.

-- Poxa, mãe! Achei que eu ia comer a sua comidinha maravilhosa!

-- Deixa de ser besta, Delio. Depois que seu pai morreu eu deixei o fogão criar teias de aranha! Odeio cozinha! Só cozinhava aos domingos, porque o seu pai fazia questão. Você sabe muito bem disso.

 

Ele sabia, mas preferiria não saber. Aliás, julgava Marta, Délio nunca a enxergara como ela realmente era. Ele a idealizava no que pensava ser a figura da mãe clássica, aquela que servia a todos em casa, a das comidinhas e mimos, submissa, governando o lar com precisão e eficiência, suprindo as necessidades de todos e sempre com um sorriso, de comercial de margarina na TV, no rosto.

 

Mas Marta nunca fôra nada disso. A vida profissional sempre esteve, para ela, à frente da doméstica. Fôra mãe para atender à pressão social e familiar e para não decepcionar o marido. Embora tenha amado, e ainda ame, os filhos. Amar, porém, não implica não lhes enxergar os defeitos.

 

Já havia uns 10 anos que eles a tratavam com a condescendência que se costuma praticar com relação aos menos capazes. A idade não tirara dela nem a capacidade profissional nem a disposição. No entanto, a cada dia que passava, mais eles olhavam para ela como se ela fosse alguém terrivelmente necessitada de proteção e cuidado.

 

De nada adiantaria, sabia Marta, tentar conversar com os filhos racionalmente. Sua intuição – aquela que nunca lhe falhara – dizia claramente a ela que a imagem que os filhos faziam dela hoje – a de uma velha dependente e incapaz para muita coisa – era fruto do desejo deles e que jamais renunciariam a isso. Eles realmente acreditavam que a velhice era sinônimo de restrição e impotência e não de experiência e sabedoria.

 

Fôra a sua intuição que a fizera ganhar muitas das causas que defendera na Justiça. Ela sempre sabia quando alguém estava mentindo ou omitindo ou exagerando. Sabia a hora exata e a palavra perfeita para virar a primeira decisão de um magistrado. Mas fôra também a sua intuição que a levara a consultar a bruxa mais sofisticada (e cara) de São Paulo.

 

Ela estava então com mais de 60 anos quando procurou a ajuda da bruxa. Seu marido e pai de seus filhos, com quem ela se casara apaixonada aos 20 anos de idade, desde o começo da vida em comum, a traía. Ela sempre soube. A proverbial desunião das mulheres fazia até com que algumas das amantes dele entrassem em contato com ela, no passado, por telefone, depois por email e depois ainda pelas redes sociais. Diziam coisas como “ele diz que você é ruim de cama” ou “pode ir juntando os trapos porque sou eu quem vai morar com ele aí nessa casa que você pensa que é sua” e outras pérolas da estupidez humana. Ela nunca quis se separar dele por causa dos filhos. Acreditava que os filhos seriam mais felizes e equilibrados se vivessem na ilusão de que seus pais se amavam. Nunca também ela brigou com ele na frente de Délio ou de Eleanor.

 

Mas, quando ele ficou doente e preso ao leito, cercado pelos caríssimos e nem sempre gentis cuidadores profissionais, ela começou a ter um sonho recorrente. Estava numa espécie de templo, cercada por colunas gregas, e o marido, ao seu lado, se transformava num tigre e esse animal então a abraçava, apoiando-se nas patas traseiras, como se fosse ainda um homem, sua enorme língua percorria seus peitos, pescoço, rosto e o sexo dele a penetrava. Ela acordava suando e completamente molhada de gozo.

 

Contou para a sua ginecologista, que a atendia desde mocinha e já tinha se tornado uma amiga. A médica, Dra. Guilhermina, riu: -- Você está precisando encontrar esse tigre!

 

Será? – pensava ela—Mas aos 70 anos encontrar um amante?

Para os homens, sem problemas. Mas eles, assim com o seu próprio marido, aos 70 preferiam as de 30 ou 40. Mulheres de 70 eram condenadas a serem apenas avós...

 

Por sugestão da Beth, amiga de sua filha Eleanor, acabou indo consultar a Circe. E a bruxa lhe disse:

-- Circe, a bruxa grega de quem orgulhosamente carrego o nome, transformava homens em animais. Lembra da história do Ulisses e de seus marinheiros tornado porcos? O tigre, na mitologia grega, está associado ao Deus Baco, o deus do Vinho e das orgias. O animal representa a força e o poder de conquista. Certamente já houve e ainda haverá um tigre na sua vida. E, provavelmente, em Atenas. Sonhos recorrentes estão sempre ligados às vidas passadas.

 

Marta riu:

-- Meus filhos pensam que eu sou assexuada.

 

Circe também riu:

-- Os jovens sempre pensam nos mais velhos como cartas fora do baralho.  – E, mudando de assunto, mas nem tanto: -- Estou enganada ou você é viúva?

 

-- Ainda não – respondeu Marta – mas provavelmente serei. Meu marido está muito doente, teve um câncer no pulmão que se espalhou e agora está no cérebro. Está semi-inconsciente e o prognóstico é que a vida dele acabe em algumas semanas.

 

E, agora, 4 anos depois dessa consulta, o sonho ainda aparecia, um pouco diferente, mas basicamente o mesmo, em algumas noites.

 

Depois de ver sua filha querendo que ela vendesse o automóvel e, com ele, sua autonomia e seu filho esperando que, depois de velha, virasse cozinheira, teve uma ideia.

 

Abriu o computador, pesquisou as melhores condições, checou se seu passaporte ainda estava na validade e comprou a passagem para dali a duas semanas.

 

Convidou os filhos, seus cônjuges e os netos, para um almoço no domingo imediatamente anterior a sua viagem. E, à mesa, avisou, para o espanto de todos, que em algumas horas estaria embarcando em Guarulhos com destino à Atenas.

 

Seria uma excursão, perguntaram os filhos. Horrorizados, descobriram que ela viajaria completamente sozinha. Seguiram-se uma série de protestos e péssimas conjecturas sobre todos os imensos perigos de “uma mulher da sua idade”  fazer sozinha uma viagem internacional para uma cidade estranha como a capital da Grécia.

 

Marta apenas sorriu.

 

Quando seu avião alçou voo e ela se viu, acima das nuvens, mergulhada num mar de estrelas, teve a absoluta certeza que, em Atenas, encontraria seu Tigre, afinal, e começaria com ele uma nova história, dessa vez, de amor.

Bel, 2026 agosto 02

  

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