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- SAUDE&LIVROS Fomm
- há 1 dia
- 5 min de leitura
por Isabel Fomm de Vasconcellos Caetano
assista vídeo sobre essa história - As Bruxas, programa da TV Paradise

Tudo desmoronou.
Até então, Ana vivia no melhor dos mundos. Caçula de uma família de classe média alta, comerciantes numa próspera cidade do interior do Estado de São Paulo, teve a melhor educação, cursou a mais prestigiada universidade e hoje era uma bem sucedida pedagoga, diretora da mais importante escola local, onde ela própria estudara quando criança e adolescente.
Seus dois irmãos mais velhos trabalhavam na empresa dos pais deles, uma grande loja de informática, pioneira no ramo, que hoje tinha algumas franquias espalhadas pelo estado.
Seus pais se amavam, eram alegres, tinham criado os filhos com a cabeça voltada para o futuro, para a era da Inteligência Artificial e, emocionalmente, o amor que os unia se transmitia também aos seus rebentos e tornara-os, todos, pessoas seguras e confiantes, amantes da vida e da Natureza.
Mas aí chegou 2020 e, com ele, a pandemia de COVID-19.
Isolamento social significava portas fechadas no comércio e fim de faturamento. Ana estava na capital, ministrando um curso numa ONG, quando as medidas preventivas foram decretadas. Assim, no final de janeiro de 2021, com o advento da primeira vacina nacional contra o vírus sarcov, Ana foi uma das privilegiadas brasileiras a ser imunizada. Portanto, pôde viajar de volta para casa.
No entanto, o que encontrou lá foi um cenário desolador. Seus pais, vítimas do terrível vírus, estavam isolados numa UTI e seus dois irmãos, também infectados, condenados aos leitos em suas próprias casas, com suas esposas e filhos pequenos.
Ao final de um mês, todos estavam mortos. Os pais, os irmãos, as esposas e os filhos deles. Ana não podia acreditar!
Toda a sua família se fôra! Além da imensa dor da perda de todos com quem ela havia crescido, a falta da alegria das crianças, tudo resumia-se apenas a uma casa cheia de lembranças e de silêncio.
Ana conseguiu uma boa quantia em dinheiro com a venda do negócio dos pais, depois de vencidos todos os trâmites burocráticos do inventário. Aqueles meses, porém, após a morte da família, passaram para ela, como num sonho, os dias numa eterna névoa de irrealidade, de não aceitação de que tão grande luto pudesse substituir o que até então fôra uma vida feliz.
Ana vendeu a empresa, mas não a casa. Pensava fazer daquele grande casarão, com seus maravilhosos jardins, talvez uma escola.
Mas como planejar a vida quando essa estava totalmente contaminada pela morte? Os dias se arrastavam numa total imobilidade. Acordava chorando, mal se alimentava, os empregados da casa fazendo tudo para animá-la, comidinhas que ela adorava, incensos especiais... Nada parecia capaz de tirá-la daquele marasmo.
Ana, porém, mergulhada em lembranças, começava a perceber o quão sua vida fôra privilegiada, não apenas materialmente, mas emocional e espiritualmente. Pensava nas pequenas ingratidões que praticara contra seus pais e seus irmãos, que tanto a amavam. Pequenas coisas, como brigar com a mãe por causa de um vestido que não chegara da lavanderia a tempo para que ela o usasse na festa; ou com o pai, por um comentário desfavorável a um namoradinho dela; com o irmão que pegara um livro dela para ler sem ao menos pedir licença... Percebia agora a estupidez de brigar por coisas mínimas... E isso só aumentava a ausência e o sofrimento.
Até que, um dia, um pequeno pássaro pousou no parapeito da janela de onde ela fitava, mas sem ver, o bosque que se estendia para além da casa.
E, por alguma misteriosa razão, Ana se apaixonou pelo pássaro. Era um periquito australiano, todo amarelo, dourado, com uma coroa de pequenas penas negras sobre a cabeça. E ela pensou, sem nem saber porque pensava: Ele se chama Pípi” E ele voou para um ramo de uma árvore próxima. Ana o seguiu. Ele, pulando de galho em galho, de árvore em árvore, foi conduzindo a triste Ana até o bosque que cercava a cidade. De repente, Pípi sumiu.
Quando Ana entrou na pequena floresta, sentiu-se imediatamente abraçada e acolhida pelas árvores. Há meses não vivia nada parecido, uma emoção, um amor, uma energia boa e forte... Passou a ir todos os dias passear entre aquelas árvores. Mas não eram apenas as árvores. Havia uma enorme profusão de plantas e flores espalhadas por ali e Ana foi descobrindo cada uma delas, apontando a câmera do celular e identificando-as no Google. Com o tempo, começou a colher mudas para plantá-las em vasos.
Aprendeu em vários sites como fazer mudas, como cuidar de cada família de plantas, o regime de luz e de rega para cada espécie e transferiu para o terraço de sua casa toda a riqueza e variedade de seres vegetais do bosque vizinho.
Aquela nova atividade foi a grande descoberta da fase mais dura da vida de Ana. Com as plantas ela aprendeu que tudo tem o seu tempo certo, descobriu o poder da observação e a maravilha de ver que elas respondiam com beleza aos seus cuidados e carinhos. Seu terraço jardim a alegrou e mais: fez com que novas amizades surgissem, entre Ana e vizinhos e até entre aqueles que passavam pela calçada em frente à casa e paravam para admirar o espetáculo da vida verde, exuberante, que habitava a grande varanda da casa.
Um belo dia, eis que surge uma visita, ali mesmo, no terraço, no momento em que Ana cuidava de um vaso: Pípi entrou voando e atrás dele vinha uma moça muito bonita, de cabelos compridos e brilhantes que dizia: “-- Pípi, volte aqui! Venha com a mamãe.” E lá foi o pássaro pousar no seu ombro.
Era a Tamara e foi logo explicando à Ana que o Pípi vivia solto na casa dela, mas, às vezes, escapava. Que tinha feito a mesma coisa havia uns meses passados.
Ana sorriu e pensou: “As escapadas dele têm sempre um propósito...”
Tamara e Ana se tornaram amigas. E Ana seria silenciosa e eternamente grata ao Pípi por ter lhe ensinado o caminho que acabara por fazer renascer lhe a alma e o coração. Afinal, compreendera que nos bosques e nos jardins não existia a morte. Porque tudo rebrotava, tudo revivia, tudo se refazia. E isso colocava dentro dela a esperança de, talvez, de alguma maneira, algum dia, reencontrar os seus entes queridos.
Bel, 2026, julho, 28
Hoje a casa amanheceu diferente. O silêncio ocupou o lugar do seu canto, e a saudade chegou antes mesmo do dia clarear. Foram 9 anos de companhia, de peripécias, de bicadas e de uma alegria que só você sabia trazer. Obrigada por cada momento, Pipi. O amor que você deixou será eterno. Até breve, meu amor.
Amei ver o Philip participando da história de hoje
Isabel
Fiz o Pipi personagem da história de hoje no meu programa As Brux@s da TV Paradise. Oito da noite. www.tvparadise.com.br
Meu amor, suuuper obrigada pelo carinho e principalmente, pela homenagem feita ao Pipi, foi impossível conter as lágrimas rs … amei demais a surpresa e ver que a Ana pode depois de tudo, despertar a esperança novamente! Deus te abençoe sempre


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