Body Scan
- SAUDE&LIVROS Fomm
- há 30 minutos
- 4 min de leitura

por Isabel Fomm de Vasconcellos Caetano
assista vídeo onde conto essa história - Programa AS BRUXAS, TV Paradise
Quando Eliana começou a perder os movimentos das mãos e dos pés, foi diagnosticada com uma agressiva síndrome neurológica funcional. De lá para cá, alguns meses se passaram em que ela foi percebendo, a cada dia, que a incapacidade de seu cérebro comandar seus músculos, só aumentava.
Agora, lá estava ela: presa a um leito de UTI, com médicos que, apesar de dedicados, apenas cruzavam os braços diante de exames que não mostravam lesões físicas, que não explicavam o porquê daquela súbita condenação à imobilidade, numa jovem de apenas 34 anos.
Então houve aquele momento em que ela acordou subitamente no meio da noite. Os muitos bip-bip eternos de todos os leitos daquela enfermaria de cuidados intensivos, gritavam numa irritante e ininterrupta orquestra eletrônica.
Eliana pensou nos muitos planos que tinha para a vida e que, agora, seriam muito mais difíceis de realizar, se não mesmo impossíveis. Um desespero surdo sufocava lhe o peito. Então ela olhou para as próprias mãos, muito brancas, inertes sobre o lençol. E recusou-se peremptoriamente a aceitar o destino que a vida estava a lhe impor.
Se o problema estava na comunicação entre o seu cérebro e os seus músculos, ela usaria a mente para reconstruir essa ponte.
Lembrou-se de uma técnica que aprendera nas aulas da Escola de Teatro, o “body scan”, ou varredura corporal, consciência progressiva do próprio corpo. Lembrou-se de como ia sentindo “pesar” casa parte do seu ser físico, iniciando pelos dedos dos pés, sola dos pés, tornozelo... e assim por diante, subindo, com apenas o pensamento, aquela sensação de peso...
Então, Eliana concentrou toda a força do seu pensamento nos dedos do pé direito. Nada aconteceu, mas ela passou a visualizar as correntes elétricas saindo do seu cérebro, descendo pelos nervos de sua coluna vertebral e concentrando-se nos dedinhos do pé. As horas foram passando e a aquele seu comando biológico era tão intenso que o suor cobria sua testa.
Finalmente, depois de horas de frustradas tentativas, ao amanhecer, seus dedos do pé direito se moveram. Aquela resposta simples foi o combustível que Eliana precisava para acreditar que seria possível.
Nos dias que se seguiram Eliana transformou seu leito de UTI num laboratório de neuroplasticidade autodidata.
Passava praticamente todo o dia em transe de pura concentração. Conversava com as próprias pernas, visualizava caminhadas na praia e ordenava aos trânsitos neurais bloqueados que se reativassem. A força de vontade dela era tão intensa que os enfermeiros começaram a notar a mudança no ritmo cardíaco sempre que ela iniciava aquelas sessões de foco.
O Dr. Américo Gouveia era o chefe da neurologia e o maior cético daquele hospital universitário. Confiava apenas em exames de imagens e dados quantitativos. Para ele, a paralisia de Eliana era um enigma frustrante e desafiador. E a ideia de que ela poderia melhorar usando a força do pensamento, apenas uma lorota perigosa e insana. Naquela manhã, quando os dedinhos do pé direito de Eliana se moveram, Dr. Américo passava sua visita de rotina, cercado por residentes em neurologia.
-- Esse movimento que a senhora narra ocorrido há pouco, não passou de um reflexo involuntário, dona Eliana –vaticinou o médico, ajustando os óculos para melhor conferir o prontuário eletrônico. – O bloqueio das suas vias motoras é severo. Não alimente falsas esperanças!
Helena olhou bem nos olhos dele e manteve a voz firme, voz que ela começava a recuperar, antes apenas um sussurro:
-- Não, doutor. Não foi um espasmo, um reflexo involuntário. Foi a minha vontade! E, breve, eu sairei desse hospital andando com as minhas próprias pernas.
Dr. Américo suspirou, vendo a reação de Eliana apenas como negação psicológica. Mas recebia, abismado, os relatos dos pequenos progressos cotidianos da paciente do leito n.13 da UTI de seu hospital.
Eliana, segundo os relatórios, já conseguia suspender as pernas 10cm acima do colchão onde estava deitada e mantê-las suspensas por alguns segundos.
Na terceira semana da internação, Dr. Américo, como fazia frequentemente, passeava pelos leitos da UTI acompanhado de seus residentes.
-- Observem – disse ela aos médicos estudantes – como os membros da Dona Eliana não reagem aos estímulos, tocando o joelho dela com o martelinho de reflexos.
Nada acontecera. Mas Eliana disse:
-- Doutor, o senho está testando meus reflexos físicos. Agora teste meu comando mental – disse ela fechando os olhos.
E os médicos viram, abismados, que os dois calcanhares dela começavam a deslizar pelos lençóis e que seus joelhos lentamente iam se dobrando. Dr. Américo arregalou os olhos e gaguejou com o rosto pálido:
-- Isso é cientificamente improvável!
-- A ciência estuda o que já foi feito, doutor – respondeu Eliana, sorrindo de leve, mas já com os olhos brilhando – Eu estou ocupada em fazer o que o senhor diria que é impossível...
Nas semanas que se seguiram, Eliana era o assunto dominante no hospital. Ninguém conseguia explicar como ela, lentamente, ia recuperando todos os movimentos do corpo. A ciência conhecia o poder da mente, narrava casos de doentes terminais que tiveram uma súbita e inexplicável melhora apenas para poder viajar e morrer ao lado de seus entes queridos, em outra cidade; registrava inexplicáveis remissões de tumores que, antes, pareciam malignos, mas nunca ninguém ali presenciara uma aplicação de foco mental tão disciplinada e implacável.
No dia de sua alta, Eliana saiu do quarto em cadeira de rodas, como era praxe. Mas, chegando ao estacionamento, onde um motorista de aplicativo a esperava, ela caminhou em direção ao carro, com todos os movimentos corporais plenamente recuperados.
No hospital todos sabiam que Eliana não tinha família. Poucos anos antes, no auge da Pandemia da COVID-19, Eliana, que estava fora do Brasil, tinha sido o único membro de sua família a escapar da doença. Seus pais, irmãos, cunhada e sobrinhos, que se negaram a seguir as regras do isolamento social, todos morreram.
Por isso, o Dr. Américo costumava dizer a si mesmo e aos seus colegas que, provavelmente, a paralisia de Eliana era algo psicológico, psicossomático, que ocorrera como consequência do trauma da perda familiar e que, por isso, ela conseguira se recuperar.
Já Eliana sabia que milagres acontecem e acontecem pela força do pensamento, o que jamais foi segredo para bruxas como ela própria.
Bel 2026, agosto, 08



Comentários