A Outra Brasília
- SAUDE&LIVROS Fomm
- 3 de jul.
- 3 min de leitura

por Isabel Fomm de Vasconcellos Caetano
Assista video onde conto essa história - As Bruxas na TV Paradise
Algumas vezes, quando olhava pelas altas e largas janelas de seu escritório na sede da TV Nacional, Joana, diante da grandiosidade da paisagem da capital de seu país, parecia ver uma outra imagem sobreposta, uma imagem de quase desolação: a terra seca e vermelha do Planalto, muito pouco verde, uma vegetação rasteira com poucos arbustos, nenhuma árvore e lá, adiante, o esqueleto do que seria a Praça do Três Poderes. Mas esse quadro, ela sabia, correspondia ao que teria sido aquela vista em 1959, pouco antes da inauguração de Brasília, que acontecera em 21 de abril de 1960.
Hoje, em 30 de junho de 2026, a paisagem real vista do edifício onde Joana trabalhava era de uma grande beleza. Dois viadutos elevados, criavam faixas azuis cortando um mar de verde, formado pelas copas das muitíssimas árvores que se encarregavam, inclusive, de amenizar a secura do clima brasiliense, a cidade, toda planejada no entorno, a Praça dos Três Poderes para além, no centro da paisagem, quase no horizonte.

Porém, a visão do que seria Brasília em 1959, vista daquele mesmo ângulo da janela de sua sala, vira e mexe, vinha se sobrepor à vista da paisagem real. Por que? – perguntava-se ela.
Joana nascera bem depois da inauguração da capital brasileira. Era taurina. Do dia 21 de abril de 1990, no mesmo dia em que a sua cidade natal estava completando 30 anos de idade. Seria por isso que ela tinha tão frequentemente aquela visão de antes da inauguração, de quando a cidade ainda estava sendo erguida?
Então lembrou-se de sua amiga Beth, a paulistana que viera estudar na UNB, havia mais de 10 anos. Tinham ficado muito amigas. Joana cursando jornalismo e Beth, propaganda e marketing. Mas da última vez que Beth estivera em Brasília viera com uma grande novidade: largara seu empregão na indústria e fôra ser assistente daquela que ela considerava a mais importante, a mais rica, a mais sábia e a mais sofisticada bruxa da cidade de São Paulo, a Circe. É claro que Beth já tinha falado dela para Joana. Contara que a bruxa atendia de tailleur Chanel e flor na lapela, numa mansão num bairro nobre da capital paulistana, com um jardim estonteantemente belo, cheio de beladonas, a flor das bruxas, que recebia políticos, empresários e a fina flor da elite brasileira e que, apesar de cobrar 500 dólares por uma hora de consulta, vivia com a agenda lotada.
Foi aí que a ficha da Joana caiu! A Circe! Era a ela quem Joana tinha que perguntar o porquê daquela visão recorrente com a época da construção de Brasília.
Ligou para a Beth e conseguiu que a Circe a atendesse no próximo fim de semana, uma deferência que a bruxa só realizaria por consideração à sua amiga e colaboradora, Beth.
Joana pegou o primeiro voo direto, BSB-SP, e desceu em Congonhas. Um táxi a levou para a casa da Madame Circe. Beth não estava lá. Joana explicou o motivo que a estava levando à consulta. Circe disse:
-- Essa visão recorrente da cidade em sua construção, pode ser apenas uma lembrança. Talvez sua outra vida tenha sido aqui mesmo, no Brasil, na Terra, na época da construção da Nova Cap. E isso pode ter sido importante o suficiente para que a lembrança dessa vida venha estar presente agora, nesse seu novo momento. Mas, conjectura à parte, vamos consultar os nossos oráculos.
E Joana soube que, em sua vida anterior, tinha vindo, do sertão de Goiás, para trabalhar, com o marido, na construção da nova capital brasileira. Soube que, mesmo na simplicidade de sua compreensão daquele momento, estava testemunhando a concretização de um sonho, um sonho que enfrentara toda a sorte, toda a espécie de resistência política e econômica, um sonho arquitetônico de uma mente brilhante, um sonho político, de um líder incansável, um sonho antigo, que remontava há séculos passados, um sonho que estava escrito no coração do seu país, no centro geográfico da sua terra, um sonho pelo qual valia a pena viver e morrer.
Aquela outra que fôra Joana em outra vida saiu da casa da Circe profundamente agradecida ao Universo por ter lhe dado a chance de ver esse antigo sonho. Afinal, concretizado.
Bel, 30 de junho de 2026


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