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A Manicure e Falsa Pobre

Foto do escritor: SAUDE&LIVROS Fomm
SAUDE&LIVROS Fomm
há 7 dias
9 min de leitura

Atualizado: há 5 dias


por Isabel Fomm de Vasconcellos Caetano


  1. A Manicure



    assista vídeo onde conto essa história 


Morrendo de câncer. Acontecia a cada instante. No Brasil, a média está em 698 mortes por dia, segundo o INCA. Portanto, pensava Dora, sua irmãzinha era apenas uma entre quase 7 centenas de pacientes oncológicos que engrossariam a lista de óbitos dos próximos dias.

 

Vera, a irmã de Dora, sentira os primeiros sintomas havia pouco mais de um ano. Fôra tudo muito rápido. No começo, os médicos pareciam otimistas. Um tumor na pleura, que poderia ser detido com quimio e radioterapia. Não era de prognóstico tão negativo como um câncer de pulmão... Mas em três meses, estava em um dos pulmões. Em sete meses, no outro. Em um ano, nos ossos.

E, hoje à tarde, a equipe médica optara por sedar a paciente pois já não restavam esperanças.

 

Dora viera de Brasília, onde trabalhava como repórter de uma rede de televisão. Mas as irmãs eram paulistanas, nascidas e crescidas na grande metrópole. Dora ia completar 60 anos em outubro e Vera era dois anos mais nova que ela. Mas era fumante, e daquelas! Só mesmo nos meses de gravidez Dora vira sua irmã menos largar o cigarro. Mas, assim que a criança deixava de mamar em seus peitos... Lá estava Vera com o cigarro na boca. Tivera duas filhas que agora se revezavam no hospital, ao lado da mãe, nas horas em que não estavam em seus próprios empregos. Choravam, as duas, o dia inteiro. Até no trabalho, mais discretamente, mas os olhos estavam sempre marejados. Era muito cedo para ver a mãe partir.

 

Naquela tarde, quando resolveram que o melhor mesmo seria sedar a paciente, as enfermeiras foram trocar-lhe as fraldas geriátricas. A cada movimento que era feito com suas pernas, Vera gritava de dor. E Dora chorava, tentando esconder da irmã as lágrimas. E pediu, então, a Deus, que dividisse com ela a dor da irmã. Ela toparia sofrer, explicava ao Todo Poderoso, as dores no lugar dela, mas não aguentava vê-la sofrendo tanto assim.

 

Vera adormeceu rapidamente em seu sono induzido. E uma amiga de ambas mandou uma mensagem no What’sApp de Dora: -- Estou aqui com dois convites para a Beauty Fair, que está rolando no Center Norte. Também tem o stand da BellaVita que oferece duas limpezas de pele e maquiagem grátis. Passo aí na porta do Hospital em 20 minutos e te dou uma carona. Vamos lá. Você precisa se alegrar um pouco.

 

Dora sinceramente não tinha a menor disposição para um programa tão fútil naquele seu momento de dor. Mas pensou que talvez a futilidade a aliviasse e a amiga não estava perguntando, estava ordenando! Foi.

 

A marca BellaVita tinha montado um lindo salão de beleza dentro da feira. Dora, enquanto esperava sua amiga tratar da pele e se maquiar, sentou-se à uma das mesas de manicure. Suas unhas estavam horrorosas, mais feias do que aquela angústia enorme que lhe dominava, já há vários meses, a alma e o coração.

 

Não era apenas ter acompanhado a rápida evolução da doença de Vera, não era apenas ter que viver entrando e saindo de aviões na rota BSB-SP, para vir ajudar a irmã a encarar as desgastantes sessões de quimioterapia com seu inevitável e bárbaro mal estar posterior, mas era também a angústia de uma possível aposentadoria compulsória ou, pior, demissão, assim que completasse seus 60 anos, daqui a pouco mais de um mês. Na rede de TV onde trabalhava, jornalistas de estúdio, âncoras e aqueles que comandavam seus próprios programas, permaneciam no ar mesmo tendo passado até dos 70 anos de idade. Mas não os repórteres de campo, de rua, e esse era o caso dela. Dora, porém, embora soubesse que, aposentada, compulsoriamente ou por vontade própria, ou mesmo demitida, não teria problemas financeiros, tinha arrepios de horror só em imaginar-se inativa. Pensava em expandir o Blog que tinha, já há duas décadas, na Internet, criar um canal no Youtube, talvez com vídeos de entrevistas... Enfim, a angustiava a perspectiva de deixar o trabalho que ela tanto amava e ter que se reinventar... Angustiava-a a morte iminente de sua irmã e amiga. Sim, porque Dora e Vera eram mais que irmãs, eram amigas, confidentes, eram o apoio uma para a outra... Como poderia viver sem ela?

 

Pensava em tudo isso, quando sentou-se à mesa de manicure. Todas as atendentes do salão eram mulheres profundamente elegantes, seus uniformes muito bem cortados, bem maquiadas, bem penteadas. De todas as idades. Desde muito jovens até senhoras em idade certamente mais avançada.

 

A manicure que começou a fazer as unhas de Dora deveria ter, por baixo, uns 70 anos de idade. Os cabelos grisalhos, certamente naturais, a pele bem tratada, a maquiagem perfeita... Dora a observava e sentia-se estranhamente atraída por aquela mulher, como se quisesse ser sua amiga, ou como se tivesse sido sua amiga por toda a vida. Ela trabalhava com rapidez e precisão. Dora perguntou:

 

-- Você sempre foi manicure?

 

Ela levantou os olhos, encontrou os olhos de Dora e sorriu:

 

-- Não. Faz pouco tempo que sou. Fiz um curso no SENAC.

 

-- E o que você fazia antes?

 

-- Ah, um trabalho muito repetitivo. Fui aconselhada a mudar e resolvi fazer isso, então.

 

Dora ficou pensando que trabalho repetitivo seria. Era uma mulher muito bem cuidada, falava um português correto, com o sotaque da elite paulistana. Não parecia ser uma mulher do povo. Mas percebeu que ela não queria falar sobre seu trabalho anterior e não fez mais perguntas. Falaram do clima, a súbita onda de frio que invadira a cidade, agora no final do inverno, a poucos dias da primavera. Falaram sobre a grande diferença existente entre a lã sintética e a natural e cada vez mais Dora foi se convencendo que aquela manicure já fôra uma mulher, senão rica mesmo, de classe alta sem dúvida.

 

As unhas estavam lindas! Enquanto finalizava o trabalho, a manicure disse:

 

-- Preciso lhe dizer algo importante e muito particular. Me permite?

 

-- Sim, é claro! – respondeu Dora.

 

-- Quando vêm para esse mundo, -- disse então a manicure -- as almas escolhem o seu destino. Resolvem como e quando aprenderão certas lições através, inclusive, do sofrimento. Então, por isso, você nunca deve desejar tomar para si, parte das penas que as pessoas que você ama estão a sofrer. Deixe que elas vivam o seu destino. Afinal, é o destino que, antes de encarnarem, suas almas escolheram. Se você o dividir com elas, em suas próximas vidas, elas terão que repeti-lo por não o ter vivido, afinal, plenamente agora, nessa vida.

 

Dora ficou olhando para a mulher, com o espanto escarrado nos olhos.

 

-- Não me pergunte como eu sei... – sorriu novamente a manicure – Apenas sinto. Percebi que você precisava ouvir isso.

 

E um grande alívio atingiu a alma de Dora. Toda a sua angústia parecia ter sido fisicamente removida de seu peito, de sua mente.

 

-- E só mais uma coisa – continuou a manicure – Não tema por seu próprio futuro. Quase sempre as mudanças vêm para melhor.

 

Subita e completamente aliviada, Dora queria abraçar aquela mulher, mas... como? Disse apenas:

 

-- Muito obrigada por suas palavras. Você não pode imaginar o bem que elas me fizeram. Mas ainda não sei seu nome.

 

De novo, aquele sorriso de mil estrelas parecia iluminar todo o ambiente.

 

-- Meu nome é Circe – respondeu a manicure.

 

E Dora pensou:  Nossa! Até o nome dela é de bruxa!

 

 

(Na próxima, você vai descobrir como a Circe, a bruxa mais rica e mais sofisticada de São Paulo foi trabalhar na Beauty Fair como uma simples manicure...)

 

2. Falsa Pobre

assista vídeo onde conto essa história.  



Circe sempre tivera uma vida privilegiada. Nascera rica, estudara no exterior, descobrira, ainda muito jovem, a misteriosa história de sua própria origem, neta de ciganos, ela que acreditara que sua mãe viera da Europa e não de um acampamento à beira do Rio Pinheiros, em São Paulo.

 

Fôra sua avó cigana, descoberta só na adolescência, que a ensinara a reconhecer suas capacidades de bruxa. E, como tal, ela passara a vida, atendendo à elite paulistana num casarão cercado de uma urban jungle esplendorosa e mágica e cobrando 500 dólares a hora de consulta. (Mas atendendo de graça, também, aos menos favorecidos, na calada de noite).

 

Agora, que estava chegando aos 70, e sua filha Morgana, apesar de ter ficado paralítica, em nada dependia dela, sendo uma mulher feliz; suas assistentes Mariana e Beth davam mais do que conta do recado de atender aos seus clientes, e então, assim, ela estava se dando o direito a tirar umas férias.

 

-- E pra onde você vai? – perguntou Mariana.

 

Circe sorriu:

-- Para o mundo dos pobres!

 

Sim, era isso que ela queria da vida agora. Queria compreender em profundidade o que era viver sem privilégios, com pouco dinheiro, muitas obrigações, sendo apenas mais uma mulher do povo.

 

Fez um curso de manicure no Senac, alugou um pequeno apartamento num prediozinho humilde na Cidade Tiradentes* e, depois de enfrentar inúmeros fracassos na tentativa de trabalhar em salões de beleza (por causa de sua idade), acabou conseguindo ser admitida num instituto de beleza para idosos ricos, que funcionava numa travessa da Avenida Paulista.

 

Todos os dias, levantava antes do amanhecer. Preparava seu próprio café da manhã (teve que aprender sozinha a fazer tudo isso: descascar uma fruta, passar o café, fazer um sanduiche...). Ela, por toda a vida, encontrara seus desjejuns prontos e servidos por diligentes empregados domésticos. Saía, então, caminhando por mais de um quilômetro até o ponto de ônibus, esperava que o coletivo (que nunca estava exatamente no horário) aparecesse, entrava no carro lotado, algumas vezes alguém cedia lugar a ela, mas quase sempre os assentos destinados a idosos e deficientes já estavam ocupados.

 

O trajeto até o centro da cidade levava de uma hora e meia a duas. Dali ela embarcava no metrô – também a essa hora sempre lotado – e descia na Avenida Paulista. Por sua condição de idosa, conseguiu um bilhete único que permitia que ela não precisasse pagar nenhuma tarifa nos transportes públicos. Se tivesse que pagar, seria um rombo em seu orçamento.

 

Circe estava decidida a viver, pelo menos, por um ano, como se fosse mesmo uma mulher pobre. Às vezes, quando aparecia uma questão urgente, permitia-se falar, por What’sApp, com uma de suas assistentes. Mas era raro.

 

Nesse ano, ela vivenciou várias situações de discriminação: pela sua idade, por ser mulher, por ser pobre... Viu o desprezo nos olhos dos ricos pouco sábios e dos pobres menos pobres do que ela própria. Ficou sabendo dos mais loucos boatos, da vizinhança, que corriam sobre ela: uma velha, morando sozinha, sem marido, sem filhos, sem amigos... Compreendeu completamente como era viver sem os privilégios dos quais desfrutara por toda a sua existência.

 

Houve até aquele dia em que uma de suas clientes no salão dissera:

-- Meu Deus! Como a senhora é parecida com a Circe, a cartomante!

 

E Circe acabou sendo escolhida, na sua empresa, para participar, como manicure, da Beauty Fair de 2026. Usava, nessa sua vida de falsa pobre, os seus dois primeiros nomes: Maria Antônia. Não usava o Circe, por óbvio. Foi nessa feira a única ocasião em que se permitiu que seus poderes esotéricos revelassem à sua então cliente Dora o que essa estava precisando ouvir. E, quando Dora perguntou seu nome, ela respondeu: Circe. Maria Antônia Circe.

 

A irmã de Dora estava morrendo por um câncer. Ela própria, Dora, temia que, chegando aos 60, fosse demitida da TV onde era repórter. Circe a tranquilizou., dizendo à Dora que não desejasse tomar para si o destino de alguém que lhe era querido, porque as almas escolhiam seu destino na Terra, antes de chegar até aqui e, se ela carregasse o fardo pela irmã, a estaria impedindo de cumprir o destino que ela mesma escolhera e condenando-a a repetir, na próxima vida, esse mesmo fardo. Quanto ao futuro, jamais se deveria teme-lo porque todas as mudanças, encaradas com coragem, acabam sendo para melhor.

 

Então, de repente, depois de se deixar levar por aquela súbiota vontade de ajudar a moça, visivelmente angustiada, que estava à sua frente, Circe compreendeu que precisava voltar para a sua própria vida, que lá é que estava o seu dever e a sua missão. Cedendo ao impulso de revelar à Dora o que a sua mente adivinhava na alma dela, percebeu que o seu lugar era exatamente onde sempre estivera: na posição da bruxa mais rica e sofisticada de São Paulo. Enfim, que essa era a sua real missão nessa vida.

 

Sua experiência pelo mundo dos pobres, no entanto, carecera de algo absolutamente fundamental: o medo. Uma mulher idosa, vivendo na periferia, tendo apenas um salário pequeno para se manter, sendo vítima de inúmeras discriminações, tinha o medo do futuro por companhia. Circe, não. Circe estava naquela vida de pobre apenas de passagem, não precisava temer o futuro, porque, de fato, era rica!

 

Apesar de agora, poder compreender melhor as angústias do povo pobre a quem atendia na madrugada, Circe percebia que a sua experiência, naquele ano, não fôra completa e jamais poderia ser. A sua vida de pobre era apenas uma mentira.

 

No entanto – e isso era um consolo – algumas realidades ela havia apreendido, como resultado da experiência, e esperava que isso a fizesse compreender melhor os pobres a quem atendia.

 

Voltou para a sua real condição levando no peito uma grande tristeza. E, para rimar, também uma certeza: por mais que houvesse empatia, ninguém jamais conseguiria se colocar num lugar que não era o seu.

 

Bel, 2026, setembro, 11

 

*Cidade Tiradentes – bairro da periferia distante da Cidade de São Paulo.

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