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Amor Inconveniente

Foto do escritor: SAUDE&LIVROS Fomm
SAUDE&LIVROS Fomm
há 7 minutos
9 min de leitura

por Isabel Fomm de Vasconcellos Caetano


Assista vídeo onde conto essa história - Programa "As Bruxas" n.77 na TV Paradise


O sol se punha sobre o mar da orla. Um espetáculo de azuis e lilases e vermelhos e alaranjados, a se contrastar e refletir no marzão verde-azul da Bahia. Era domingo e Luiza dirigia seu fuska mais devagar do que de costume, sabendo que exagerava na cerveja gelada, e com o sol de Salvador – “Não há outro igual a esse”, pensava – entranhado no corpo quente, espalhando-se pela pele bronzeada, como uma benção. “Agora eu quero ver se vão me chamar de paulista quando eu desfilar pela Praia da Barra.”

 

Era um pouco difícil ser paulista na capital baiana, naquela segunda metade dos anos 1970. Havia tantos, como era o caso dela, que se transferiam das capitais do sudeste, principalmente do Rio e São Paulo, para Salvador, devido a grande demanda por profissionais qualificados pelas muitas indústrias que agora estavam se instalando ali, grandes empresas levadas pelos incentivos fiscais, fazendo com que os habitantes locais estivessem desenvolvendo um certo preconceito contra “os sulistas”, como os chamavam; diziam que eles tinham vindo roubar-lhes a Bahia e seus empregos. “São tão brancos – afirmavam os baianos – que, em uma manhã apenas sob o sol das nossas praias trocam imediatamente o seu tom de pele verde-escritório pelo vermelho camarão”

 

Mas a hostilidade contra os profissionais paulistas e cariocas, que ora se instalavam na capital baiana, não se resumia às piadinhas. Ela mesma, logo que chegara, inconsciente dos perigos escondidos em colocar seu carro para trafegar pela areia das grandes praias da orla – que ia de Amaralina à Itapoan, 15km amarelos e fofos que as ondas lambiam – caíra numa vala e atolara o fuska a ponto de mal conseguir abrir a porta do carro. Logo vieram muitos rapazes, rindo, e ergueram o automóvel para move-lo dali. Um deles viu a placa do veículo e gritou para os outros: -- Chi... Ela é paulista!

 

Do mesmo jeito que tinham facilmente levantado o carro, imediatamente o soltaram e esse caiu com um estrondo surdo, afundando ainda mais suas rodas no atoleiro.

À Luiza só restou sair caminhando, pedir ajuda numa das poucas casas que existiam nas imediações e implorar por um telefone que lhe trouxesse uma ajuda profissional antes que a areia fosse engolindo mais e mais o seu precioso fuskinha azul.

 

Lembrou-se disso então, não sem um certo ressentimento, mas sua lembrança foi logo atropelada pela insistente buzina atrás dela. Pelo retrovisor viu aquele possante carro esporte branco, a paixão mais recente dos jovens brasileiros de classe média alta, um Puma.

O rapaz que o dirigia (naquele tempo podia-se ver os ocupantes dos carros através de suas janelas pois os vidros fumês estavam longe de ser inventados), abriu um sorriso, guinou o volante para a esquerda e emparelhou perigosamente com o fuska azul de Luiza, na avenida Octávio Mangabeira. Fez um sinal para ela, pedindo que encostasse, mostrando que queria conversar.

 

Luiza tinha ido trabalhar em Salvador, por um motivo diferente daquele que levavam jovens profissionais do chamado “Sul Maravilha” para lá. Ela era, em São Paulo, uma brilhante redatora numa grande agência de publicidade. Seu diretor de criação, no entanto, sabia bem que ela não se conformava com a situação política do Brasil, sob as botas dos militares. Sabia que ela fôra militante de organizações clandestinas de oposição ao regime, em seus tempos de universidade. E sabia, ainda, que, muito recentemente, ela se desquitara de seu jovem marido. Achava que ela corria um certo perigo e, por isso, resolveu tirá-la de São Paulo e a transferiu para a filial baiana da agência. Isso acontecera havia quase um ano e Luiza estava contente com o trabalho e com a vida boa que levava na capital da Bahia. Morava num daqueles prédios da famosa Avenida Sete, construída no alto de um morro que         acompanhava o contorno da baía de Todos os Santos e que tinha andares para cima do leito da avenida, mas também os tinha para baixo. O apartamento de Luiza – alugado – era 7 andares abaixo e tinha um terraço que dava para o mar. Não havia praia ali, apenas pedras e uma pequena linha de areia que se ampliava um pouco nas horas de maré baixa.

 

Depois de aceitar o convite do rapaz do puma branco para que fossem tomar um drink na Barra, ela propôs terminar o papo, que estava ótimo, em seu apartamento. Ele pensou que estava fácil demais. Mas não sabia que a casa de Luiza, em Salvador, era chamada de “Consulado do Sul” e, todas as noites, principalmente nos fins de semana, recebia inúmeros amigos dela, paulistas e cariocas e alguns curitibanos, agora radicados na cidade, e, assim, logo eles começaram a chegar.

 

No bar, Luiza ficara sabendo que ele se chamava Jorge e que viera de São Paulo para trabalhar, por um ano, numa fábrica que recentemente se instalara no Centro Industrial de Aratu. Era um jovem executivo da área de finanças e estava mais preocupado com a sua carreira do que com os problemas do Brasil. Mas ela o achou absolutamente encantador, embora o classificasse como um daqueles contentes-com-a-ditadura, aqueles que usavam gravatas largas em não acreditavam que havia tortura e terror nos porões do regime.

 

Ruivo, bonito, quatro anos mais velho que ela, Jorge era também inteligente, lírico, gostava de literatura e de cinema de vanguarda, coisas que não combinavam bem com a sua posição de contente com o regime. Mas Luiza encantou-se com ele. Quando o convidou para ir à sua casa, estava pensando em inseri-lo no rol de seus amigos, enquanto ele estava pensando que era convidado para compartilhar a sua cama.

 

Ouviram música, discutiram política, viram o sol, depois do crepúsculo, ir sendo substituído pelo firmamento coalhado de estrelas que se refletiam no mar, fumaram sua maconha de sempre e, já tarde da noite, foram se despedindo da anfitriã. Jorge ficou. Mais um whisky, mais conversas sobre o trabalho de ambos, sobre os baianos ilustres, de Caetano Veloso a Jorge Amado, de Carybé a Olga de Alaketo, de Gil à Gal e Bethânia. Há muito, desde o fim de seu casamento, Luiza não se sentia tão envolvida por um homem. Acabaram, claro, na cama, e fizeram aquele amor dos anjos, cheio de ternura e gozo.

 

Manhã seguinte, segunda feira, tomaram café da manhã, servidos pela funcionária doméstica de Luiza, a negra Rosália, que chegava bem cedo – depois de despachar seus sete filhos para a escola -- e arrumava a bagunça deixada pelos convidados e preparava aquele desjejum à moda baiana, que incluía umbu e acarajé. Enquanto os servia, Rosália lançava olhares cúmplices e risonhos a Luiza. As duas tinham ficado amigas, naquele ano de diária convivência e tinham se ajudado mutuamente em duas ocasiões importantes.

 

Um dia, Luiza perguntara a ela porque, aos 34 anos, tinha 7 filhos e ela explicara que, a cada vez que tinha um companheiro e ficava grávida, o cara ia embora. Vinha outro e a história se repetia. A cada gravidez, o pai do feto a abandonava. E Luiza, desesperada:

-- Mas por que não toma pílula, criatura de Deus?

-- Porque o médico do posto disse que eu teria problemas de circulação e sem receita a farmácia não vende.

Luiza pediu à sua irmã que lhe mandasse várias cartelas de pílulas, que em São Paulo eram vendidas sem receita, e as dividiu com Rosália. Mas, quando, apesar da pílula, de repente a menstruação de Luiza atrasou por 2 meses, foi Rosália quem trouxe o chá vermelho que resolveu o problema.

 

Naquela manhã de segunda, quando Jorge saiu, Rosália abraçou Luiza, com um sorriso iluminado e disse:

-- Que bom que você achou um amor!

 

Luiza riu: -- Ei! Calma lá! Foi só uma paquera de praia, ontem à tarde.

 

-- Não – disse Rosália subitamente séria – Eu sei bem reconhecer o amor quando o vejo. Esse cara é o homem da sua vida, Luiza!

 

-- Acho que não – respondeu a outra – Ele é um executivo da área de finanças, paulista como eu, e o maior desejo dele é fazer uma carreira internacional. Para isso, vai precisar de uma esposa.

 

-- Então – interrompeu Rosália – você!

 

Luiza gargalhou:

-- Não sirvo pra ser esposa de executivo! Sou livre. Jamais me submeteria na vida a ser apenas a sombra de um homem. Ele precisa de uma mulher que se orgulhe desse papel de sombra e de escada, que esteja preparada a pular de um país para outro, ao sabor das promoções dele; que seja capaz de servir jantares a pessoas que se reúnem por mero interesse profissional e/ou comercial. Eu não sou nada disso, Ro! Eu recebo pessoas em casa por prazer, porque essas pessoas têm afinidades e se completam, nunca por têm interesses comerciais e/ou profissionais umas com as outras. Não quero largar o meu trabalho para acompanhar um marido a outro país, onde nada terei para fazer, a não ser organizar a vida dele! Não sou essa mulher, essa esposa, que ele precisa! E, pra piorar, sou desquitada! Ele precisa, para manter as aparências, de uma mulher que possa se casar com ele, não apenas no cartório, mas em qualquer rito religioso. Não existe divórcio no Brasil!

 

-- Ah... – fez Rosália decepcionada – Mas o amor tem que ser maior que tudo isso!

 

-- Infelizmente não o é – respondeu Luiza.

 

-- De qualquer modo – disse Rosália, afastando-se em direção à pia da cozinha – eu tenho certeza de que ele é o grande amor da sua vida.

 

-- Imagine! – riu Luiza – é só o paquera de ontem.

 

E Rosália, subitamente muito séria:

-- Pode ter certeza que é muito mais que isso. Nunca erro, nessas coisas!

 

Jorge e Luiza passaram juntos aquele ano inteirinho em que ele trabalhou em Salvador. Ele só ia ao hotel, onde estava hospedado, para trocar de roupa. Viveu todo aquele ano na casa dela, todas as noites. Saíam juntos todos os fins de semana. Praia. Teatro. Cinema.

Amavam-se como dois desesperados porque, embora nenhum deles tocasse no assunto, ambos sabiam que, quando ele voltasse para São Paulo, aquele amor terminaria. Jorge entendeu que aquela mulher era livre e independente demais para ser a esposa de um executivo multinacional. Luiza sabia muito bem que não era ela a esposa que seria conveniente para ele. E sabia ainda que, se insistissem em levar a vida juntos, acabariam ambos infelizes.

 

Estavam abraçados na cama, depois de uma noite de amor feroz, o sol já surgia para além da vista do terraço do apartamento de Luiza. Ele disse:

-- Chegou a hora. Vou voltar para São Paulo. Você sabe, vamos ter que nos separar. Lá, existe uma namoradinha de adolescência que espera por mim. A família dela montou um apartamento nos Jardins, mobiliou, proveu de tudo o que é necessário e já marcamos a data do nosso casamento. Eu não a vi, durante todo esse ano aqui na Bahia. Ela telefonava, escrevia, pedia que eu fosse passar um fim de semana com ela, ou que ela pudesse vir passar um fim de semana aqui. Mas eu fui enrolando. Inventei mil desculpas porque apenas queria estar com você, meu amor! É você que eu amo! Mas não desgosto dela...

 

-- Sim – interrompeu Luiza – e ela é a mulher certa para você, a que vai te acompanhar na carreira, te dando apoio, suporte. Case-se sim com ela e seja feliz!

 

Jorge tentou abraça-la, mas ela se desvencilhou. Disse simplesmente:

-- A vida é muito mais que amor, não é?

 

Naquele fim de semana foram juntos para São Paulo. Revezando-se na direção do Puma, venceram os 2 mil quilômetros de rodovias em 25 horas. Em São Paulo, foram direto para o apartamento onde ele iria morar com a esposa.

 

-- Quero te amar, pela última vez – disse ele – na cama em que dormirei com ela. Quero ter sempre a sua lembrança comigo.

 

Luiza voltou para Salvador no primeiro voo da segunda-feira seguinte. Sem derramar uma lágrima.

 

Era 1976. Cinquenta anos se passaram. Luiza achou um grande amor, casou-se com ele, viveram 45 anos juntos até a morte dele.

 

Nunca mais ela ouviu falar em Jorge.

 

Quando veio a Internet, ela bem que o procurou, em todas as redes, nos sites de empresas, nos clubes de executivos... nada!

 

Mas nunca o esqueceu. Sabia, que a força daquele amor, haveria de irromper, de alguma forma! Sabia que a sua querida Rosália estava certa no que dissera da primeira vez que os viu juntos.

 

Até que um dia, entrando num banco na Avenida Paulista, avistou aquele velho senhor, sentado à mesa de um dos gerentes, a cabeça grisalha deixava ver uns fios ruivos. O terno elegante, o porte altivo. Luiza estava com 75 anos, ainda bonita, graças aos cuidados possíveis. Tinha dois filhos e três netos. Ousou aproximar-se da mesa onde ele estava e, com o coração aos pulos, disse:

 

-- Desculpem-me interromper. O senhor por acaso é Jorge Gonçalves Jansen?

 

Seus olhos se encontraram e um sorriso de mil estrelas iluminou a face dele. Finalmente, estavam livres, de quaisquer amarras, para viver o amor no tempo que lhes restasse.

 

Bel, 2026, outubro, 17



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