top of page

Fantasmas

Foto do escritor: SAUDE&LIVROS Fomm
SAUDE&LIVROS Fomm
30 de set.
10 min de leitura

veja vídeo onde conto essa história - Programa As Bruxas na TV Paradise


(história inspirada no Bar Drosophyla*, sucesso desde 1986, de Lilly Varela)


 Desde muito pequena, Ilca via fantasmas.

-- Quem é aquela velhinha sentada no banquinho ali no canto da porta da cozinha? – perguntou ela à sua mãe, quando tinha apenas 4 anos de idade.

A mãe, que já tivera outros filhos antes dela, sabia que as crianças fantasiavam. Estava muito ocupada administrando um assado no forno e disse apenas: -- É a sua imaginação!

 

E, desde esse dia, Ilca pensava que a sua imaginação era uma velhinha sentada num canto da cozinha.

 

Um dia, porém, quando já tinha uns 8 anos, folheando um daqueles álbuns antigos de fotografias, que tinham pertencido aos seus avós maternos, encontrou a imagem da velhinha que vira anos antes e descobriu que essa era a sua bisavó Felícia.

 

Cresceu vendo esses vultos que apareciam nos lugares menos esperados e logo se desfaziam no ar.

 

Aos 13 anos, resolveu criar uma árvore genealógica de sua família no notebook. Para isso, valeu-se, no começo, dos velhos álbuns de fotos analógicas, a maioria ainda em preto e branco, que tinham pertencido aos seus avós. Mas logo expandiu essa pesquisa – e atormentava seus pais com perguntas que raramente eles sabiam responder—para o Google e foi traçando suas origens até o século XVI. Era um arquivo enorme, com vários pontos de interrogação, mas, quanto mais ela avançava na pesquisa, mais via, onde quer que estivesse – na rua, na escola, no ônibus, no metrô, na academia – surgirem aqueles vultos, com trajes das épocas mais diversas, e os identificava como sendo os personagens de suas pesquisas, ou seja, os seus próprios antepassados.

 

Estava com 18 anos, preparando-se num cursinho famoso da Avenida Paulista, para o vestibular da USP, quando conseguiu um emprego numa loja do Shopping Cidade de São Paulo. Tornou-se vendedora de artigos esportivos, principalmente das mais variadas, e caras, marcas de tênis. Transferiu-se então para o cursinho noturno e passava o dia inteiro e parte da noite na Paulista.

 

Certa tarde, voltando do almoço, pelas calçadas da avenida, viu um vulto translúcido, caminhando em sentido contrário ao dela, vestido com os trajes do final do século XIX ou, talvez, começo do século XX. Já esperava que ele naturalmente se desvanecesse no ar, como acontecia com todos os fantasmas que via e vira durante a sua vida, quando, surpreendentemente, ele se aproximou dela e, caminhando ao seu lado, disse:

 

-- Boa tarde, linda moça. Permita-me que me apresente. Sou Joaquim Eugênio de Lima, o fantasma do criador dessa avenida!

 

-- Ué... – respondeu ela, surpresa – o senhor fala!

 

O Fantasma da Paulista riu: -- Claro. Sou um fantasma, mas, graças a Deus, me é dado o poder de conversar com as mulheres inteligentes que tenho encontrado ao longo de minhas andanças, em várias épocas no Tempo, aqui na minha avenida.

 

-- Ah! Mas para mim isso é uma grande surpresa! – exclamou Ilca – Pois desde muito criancinha tenho visto vários vultos translúcidos, assim como o senhor, mas eles apenas aparecem e logo se desvanecem... O senhor é o primeiro com quem consigo conversar!

 

-- Pois é – respondeu o Fantasma – Eu mesmo não posso explicar porque me é dado esse raro privilégio de dialogar com algumas mulheres, não compreendo...

 

-- O senhor só fala com mulheres?

 

-- Até agora, sim. E olhe que já estive em inúmeras e diferentes décadas no Tempo, sempre aqui na Avenida, e conheci mulheres realmente admiráveis!

 

-- Eu sei bem quem é o senhor. Li aquele livro, chamado O Fantasma da Paulista, em que a autora conta a história dessas suas andanças pelo Tempo, sempre dentro da Avenida. Mas pensei que fosse a bisaimaginação da autora que tivesse criado esse personagem, e não que o senhor existisse mesmo...

 

-- Bisaimaginação? – perguntou o Fantasma.

 

Ilca riu: -- Sempre identifico a minha imaginação com a minha bisavó Felícia. E continuou:

-- Mas estou muito honrada! É um enorme privilégio conhecer o criador da Avenida Paulista. E o senhor não foi só isso. Foi um pensador brilhante, muito à frente do seu tempo, um jornalista humanista, um empreendedor, banqueiro e urbanista! O senhor é o máximo!

 

O Fantasma pareceu inflar de repente, mas disse, com falsa modéstia:

-- Gentileza sua, cara senhorita... Como é mesmo a sua graça?

 

Ilca riu de novo: -- O meu nome, né? É isso que está perguntando. Chamo-me Ilca.

 

-- Lindo nome, que evidencia o bom gosto de seus pais. Mas, se me permite adentrar em sua intimidade, sinto que a senhorita anda meio desencantada com o rumo de sua própria vida.

 

-- Ah, seu Fantasma! Estou fazendo cursinho para a faculdade de administração de empresas, trabalho numa loja aí no Shopping, mas não quero viver vendendo tênis de marca, agasalhos esportivos, essas coisas... Não acho graça nenhuma nessa atividade...

 

-- E já pensou no que gostaria de fazer? – perguntou o Fantasma.

 

-- Tenho pensado. E conclui que eu gostaria de ter um bar!

 

-- Ótimo! – exclamou o Fantasma – Faça isso então!

 

-- Mas, como, seo Joaquim? – Meus pais nunca aprovariam e, por isso mesmo, não me ajudariam. Se eu quisesse ter... ãhn... por exemplo, uma doceria, eles até investiriam..., mas um bar!

 

-- Senhorita Ilca, estamos em 2005! Não vejo porque seus pais não apoiarem a sua iniciativa de ter um bar. As mulheres, hoje, atuam em todas as áreas que, antes, eram de exclusividade masculina!

 

-- O senhor acha isso mesmo? Devo tentar, então?

 

-- Claro! – respondeu enfaticamente o Fantasma – Converse com seus pais. Eles podem lhe ajudar no começo, mas eu tenho certeza que a senhorita terá sucesso e logo estará caminhando com as suas próprias pernas!

 

Foi assim, por causa do incentivo desse encontro com o Fantasma, que Ilca, com o apoio financeiro de sua família, inaugurou, na primavera de 2006, aquele que acabaria sendo um dos bares mais famosos da cidade: o

Anastrepha Bar, nome baseado em uma das mosquinhas de frutas.

 

Ora, Ilca não era uma pessoa... hum... digamos assim, regular. Tudo o que ela fazia era cercado de muita inventividade e criatividade. Logo, o Anastrepha se tornava conhecido por promover inusitadas atividades culturais, desde concurso de poesia satírica até o de fotos das melhores pichações em muros e paredes de São Paulo, passando por vernissages e lançamentos de livros, shows de bandas inéditas e cantores idem... E, particularmente nesse quesito, o Anastrepha acabou revelando grandes nomes do cenário musical brasileiro, lançados lá, no palco do bar e, em seguida, decolando como um foguete para o topo das paradas de sucesso.

 

O Anastrepha começou em 2006 numa garagem de um edifício decrépito no Centro Velho da cidade. Funcionou ali até 2010, quando o espaço, embora grande, se mostrou incapaz de acolher a enorme demanda de frequentadores. E foi por causa da procura que Ilca resolveu criar as suas mais tarde famosas festas temáticas. Alugava antigos galpões de depósitos ou de fábricas, sempre em bairros distantes, na periferia, e promovia suas festas através de posts intrigantes e maravilhosos que ela mesma criava, publicava e impulsionava nas redes sociais. Era o Baile da Princesa Ilca, a Festa da Cebola, a da Beatlemania e assim por diante. Resultado: lotava ainda mais o próprio bar, que mais e mais sucesso fazia, filas na porta, essas coisas.

 

Durante toda a sua existência, além de estar todas as noites, de segunda a segunda, invadido por pessoas de todos os cantos do país, muitos atraídos pela fama de suas inusitadas atrações e de suas inusitadas comidas e bebidas, vivia também lotado de fantasmas. E foi um desses fantasmas, um escocês com sua gaita de fole, que Ilca não conseguia enquadrar da sua própria genealogia, que lhe contou a origem do whisky. Em 1494, explicou o fantasma escocês, o frei John Cor, por ordem do Rei James IV, recebeu a incumbência de criar a aqua vitae, a água da vida, ou a upisge beaha e assim acabou produzindo o primeiro barril de whisky, como hoje o conhecemos. “É verdade” – explicou o fantasma escocês – “que a fórmula original acabou se deturpando um pouco com o passar dos séculos...”

-- E aí? – perguntou Ilca, ansiosa – Você conhece essa fórmula original?

 

Ele não só a conhecia como a transmitiu para Ilca, que fez questão de anotar tudo no seu celular, pensando que aquilo, um dia, poderia ser útil.

 

Naqueles idos de 2010, Ilca estava casada com Estéban, um bem sucedido cabeleireiro, cujo salão original já espalhara franquias por todo o país e foi ele quem saiu a procurar um local mais adequado para a instalação do Anastrepha, que já não se continha naquela garagem de origem.

 

Caminhando pelo centro da cidade, Esteban topou com uma mansão abandonada, nos Campos Elísios. Por sorte, estava para alugar. Por falta de sorte, era um imóvel tombado pelo Patrimônio Histórico Nacional. Deu um trabalhão e custou uma enorme série de demandas burocráticas, mas Ilca e Estéban conseguiram colocar em ordem a velha casa e inauguraram lá, com uma festa de arromba na qual a principal atração era uma banda de rock escocesa e de sucesso internacional, a nova sede do Anastrepha Bar.

 

Eram cinco ambientes com decorações temáticas: afro, oriental, europeia, baiana e paulistana. Em cada um deles, exposições de artes plásticas, livros e apresentação de conjuntos musicais característicos de cada tema. Era um deslumbre! Muito mais que um bar, uma experiência cultural!

 

Em 2016, com o bar indo de vento em popa, reformaram o velho (e maravilhoso) banheiro do segundo andar da casa e o transformaram numa destilaria de whisky. Chamaram um mestre escocês que ficou absolutamente deslumbrado ao ver aquela fórmula original de 1494 e disse:

-- Sim! Essa fórmula parece resgatar alguma coisa que as nossas atuais destilarias perderam...  Alguma coisa que intuíamos que havia de fato se perdido...Era exatamente isso que estávamos procurando há anos... Como foi que conseguiram essa fórmula?

 

E Ilca respondeu:

-- Foi um fantasma escocês que apareceu pra mim...

 

E caíram todos na risada.

 

A verdade é que, se o Anastrepha Bar já era um sucesso, maior ainda foi o sucesso do whisky paulistano “Water of Life”.

 

Sobreviveram, inclusive, à Pandemia de Covid, em 2019 e 2020, graças à comercialização de seu Whisky exclusivo.

 

Mas, de 2021 em diante, alguma coisa parecia degringolar... Começara com os processos trabalhistas. Todos os que se tornavam funcionários no Anastrepha acreditavam que Ilca era milionária e, ao se demitirem, invariavelmente inventavam alguma causa trabalhista e, dada a proverbial parcialidade da Justiça do Trabalho, que tendia sempre a dar ganho à parte mais fraca, Ilca se viu mergulhada nas primeiras dificuldades financeiras. Além disso, depois de quase um ano fechado por causa do isolamento social imposto pela pandemia, o número de frequentadores parecia diminuir a cada noite.

 

Afinal, onde fôra parar o sucesso que a acompanhara pelas últimas duas décadas? Pensando nisso, Ilca preparava o bar para a festa de comemoração de seus 20 anos de atividades. Mas não conseguia encontrar a necessária criatividade e o necessário entusiasmo para – ela sabia – fazer da festa um grande happening!

 

Era uma noite de segunda-feira. A festa aconteceria dali a apenas três semanas, numa quinta. Ela estava fechando o bar, os últimos frequentadores se despediram havia pouco. Tivera então apenas seis mesas ocupadas, nos cinco ambientes que comportavam mais de 150 clientes... Se tivera vinte, fora muito!

 

A preocupação com o aluguel da casa, já vencido, caríssimo, com os muitos embates com o patrimônio histórico, a cada manutenção que se fazia necessária numa casa de mais de 100 anos de idade e tombada! Quase cinco anos – pensou Ilca – quase cinco anos de dificuldades com o dinheiro, com os empregados, com o faturamento... estava esgotada. Pela primeira vez na vida, pensava em simplesmente desistir. Já começara, na pequena lojinha que mantinha no andar térreo, a vender muitas das peças decorativas, dos pratos, ricas porcelanas, das taças raras antigas de puro cristal... estava começando a desmontar o que amealhara nesses 20 anos de atividade... Um enorme desânimo tomava conta de sua alma.

 

Foi então que viu, na sala principal, uma senhora, bem velha, mas ainda muito bela, bem vestida, em trajes de outro século, translúcida como o eram todos os seus fantasmas, sentada na antiga cadeira de balanço. Lembrou-se imediatamente de sua bisainspiração e a senhora lhe disse:

 

-- Só você, Ilca, seria mesmo capaz de dar tamanho bom uso a essa minha linda mansão!

 

-- Acha mesmo? – perguntou Ilca, reconhecendo naquela fantasma a matriarca paulistana, Maria Antônia Prada Fernsby. – Mas, de repente, senhora, não estou tendo mais o mesmo sucesso que sempre tive com esse empreendimento...

 

-- Você reparou em quantas samambaias maravilhosas sobrevivem no jardim dessa casa? São muito antigas e se renovam com o tempo.

 

-- Sim – respondeu Ilca que, desde o primeiro dia ali, se encantara com a exuberância e a incrível variedade de samambaias que enfeitavam os jardins da mansão.

-- Pois é – disse o fantasma de Maria Antônia – Foi meu marido quem as mandou trazer de todas as regiões do Brasil, quando construiu essa casa. Nosso sobrenome, Fernsby, quase desaparecido hoje em dia na moderna Inglaterra, é relativo às samambaias e ele sabia disso. É um sobrenome medieval. Veja, essas plantas sobrevivem aqui há mais de um século. Algumas às vezes pareciam desaparecer, mas logo novos brotos dela começavam a surgir na terra que as contêm e elas reviviam exuberantes.

Ilca, minha querida, tudo no mundo pode reviver, incluindo o seu sucesso com esse bar.

 

-- Mas como? – perguntou Ilca – Já tentei de tudo... os clientes parecem ter desaparecido e antes brotavam mais que as suas famosas samambaias.

 

-- É o seu pensamento! – exclamou a velha senhora.

 

-- Como assim, o meu pensamento?

 

-- Sim. Desde que você começou a enfrentar dificuldades, na pandemia e nos tempos que se seguiram a essa, seu pensamento mudou. Antes, você era puro otimismo e entusiasmo, mas desde que enfrentou as primeiras dificuldades, seu pensamento foi se transformando. Carregada de ansiedade, a cada novo problema, mais negativa se tornava sua maneira de pensar. Você precisa reverter isso, menina. Você precisa reviver o pensamento otimista e, fazendo isso, reviverá também o seu sucesso.

 

Disse isso e desapareceu, desvanecendo-se no ar e deixando uma nova esperança no peito da cansada Ilca, que passou a pensar que, sim, que talvez fosse possível...

 

Daquele dia em diante, os internautas viam reaparecer nas redes sociais inúmeras e criativas postagens sobre o Anastrepha e, os que já o conheciam, sentiram vontade de reviver os bons momentos que passaram lá, tempos atrás, e os que ainda não conheciam, tiveram uma irresistível vontade de o conhecer.

 

Assim, três semanas depois, a festa de comemoração ao aniversário do Anastrepha, lotou as suas seis salas. Seis? Mas não eram cinco? Agora, eram seis. Junto ao terraço, num cômodo um pouco menor, Ilca criou a sala Maria Antônia Prada Fernsby, homenagem à antiga dona daquela mansão, cheia de retratos, inspirados em velhas fotos da matriarca que ela descobrira na Internet e que fez reproduzir, em pinturas a óleo, gravuras e desenhos, todas essas obras pintadas por um famoso artista plástico, antigo frequentador do bar. Arte vendida em leilões de parede, que, em muito, aumentavam a receita, já gorda, proporcionada pela volta de um público, agora, de novo, fiel.

 

Bel, 2026, setembro, 28


* Drosophyla (a mosquinha das frutas), bar fundado por Lilian Varella, em 1986, até hoje brilhando à Rua Nestor Pestana, 163, no centro da cidade de São Paulo.

**Anastrepha fraterculus: Mosca-das-frutas sul-americana.



Comentários


bottom of page