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Conversa de Abelha

  • Foto do escritor: SAUDE&LIVROS Fomm
    SAUDE&LIVROS Fomm
  • 22 de fev.
  • 4 min de leitura

por Isabel Fomm de Vasconcellos Caetano

do Livroi Histórias de Mulher


"Em dez mil anos de história, não houve um só dia de paz na terra"*

J.A.Gaiarsa, programa Condição de Mulher, 29 agosto 1995.

 

 

"Na colmeia, depois do ato nupcial os zangões são simplesmente mortos

pelas rainhas"

 

 

Isabel Fomm, 2000, Abelhas nas Dálias do Orotur, Campos do Jordão
Isabel Fomm, 2000, Abelhas nas Dálias do Orotur, Campos do Jordão

-- O problema é o seguinte, mamãe: eu realmente acredito que deveríamos dar uma oportunidade aos homens! -- explodiu por fim Carlota, cansada de tentar dizer a dura verdade através de metáforas e simbolismos que sua mãe teimava em fingir que não entendia.


A mãe estancou por um segundo, como que atingida fisicamente pela rispidez da menina. Respirou fundo antes de responder, procurando uma tranqüilidade que estava longe de sentir:

-- Minha filha, na sua idade é muito normal desejar que os homens possam viver conosco. Afinal, parece muito injusto que vivam assim confinados e condenados a uma existência breve. No entanto, se você tivesse tido a oportunidade de visitar um depósito de homens, nem sonharia com esta possibilidade. Os homens são uma espécie inviável, você sabe muito bem que eles trazem no seu código genético o componente violento da agressividade. Isto os torna incompatíveis com a vida civilizada.  -- e aqui Thereza amenizou um pouco a voz: -- Deve estar escrito em nosso código genético que teremos de ser sonhadoras na adolescência...


-- Droga, mãe! -- quase gritou Carlota. -- Eu não sou mais criança. Não venha querer me enganar. Eu sei muito bem que os homens eram iguais a nós, na Antigüidade. E tem mesmo quem diga... -- Carlota engasgou ante o olhar de perplexidade lançado por Thereza, mas engoliu em seco e continuou, em tom mais baixo, já sem coragem de olhar para a mãe:


-- Há quem diga que os homens, em tempos muito antigos, é que mandavam no mundo... e  até mesmo em mulheres.


-- Ah, Carlota, não me venha agora com estas bobas fantasias de igualdade. Olhe a sapiência da mãe natureza: criou os homens apenas com a função reprodutiva. Eles não têm absolutamente nenhuma capacidade criativa. Só sabem brigar e só se importam em cultuar o físico e o seu aparelho reprodutor. Desde muito pequenos já lançam olhares lascivos às mulheres e fazem sexo uns com os outros antes de atingirem a plena maturidade reprodutiva. É natural portanto que eles vivam apenas até completarem a sua contribuição ao banco de esperma; tão natural que o mesmo acontece na natureza  com outras espécies. Agora me diga o que você anda lendo, quem foi que enfiou estas idéias subversivas na sua cabeça?


-- Você vai negar que os homens viviam até a morte natural, como as mulheres, antigamente?


-- Ninguém nega que nos tempos primitivos era assim. Mas, graças a boa deusa, a humanidade evoluiu e as mulheres, naturalmente superiores, foram aprendendo a controlar a bestealidade do ser humano através da restrição adequada aos seres agressivos e violentos. Você não pode se esquecer que nos tempos primitivos jamais houve um só dia de paz na Terra.* Em algum lugar, ou em muitos lugares ao mesmo tempo, havia sempre guerra. Por que? Porque neste tempos havia a influência masculina na humanidade. Machos não foram criados para influir na humanidade. Eles são apenas o fator reprodutivo...


Carlota fechara a cara. Seus sentimentos estavam em conflito. Arriscou:

-- Mas nós não poderíamos, então, usar os homens adultos, em serviços públicos, como o preparo de alimentos e o cuidado com as crianças?


-- Ah... -- suspirou Thereza-- a juventude é um tempo de sonhos... Carlota, entenda de uma vez por todas: os homens são uma espécie violenta. Passaram séculos em guerra, morrem facilmente de doenças que têm a sua origem nas tensões nervosas. Poucos chegariam à idade adulta. E para que? Para disseminar a violência em nosso mundo?


-- Até parece que vivemos em paz.

-- É claro que vivemos em paz, Carlota.

-- E a guerra com as africanas?

-- O que há entre a Federação dos Reinos e a Africaoriente são apenas diferenças ideológicas, Carlota. Nada parecido com uma guerra.

 

 Por causa desta conversa, Thereza resolvera pedir permissão ao escritório da Madre Magister do Reino para levar sua filha ao matadouro de homens antes que Carlota atingisse a idade adequada para tal. Isto só seria possível com uma autorização especial. No entanto também não seria difícil obter permissão. As meninas desta geração estavam sendo vítimas de uma campanha (talvez insuflada pelas africanas) que pregava maior tolerância para com os homens.

A maioria dava de ombros a esta campanha e às suas ainda tímidas repercussões na mídia. Deixar os machos viverem livremente ou não era questão sem importância, uma discussão realmente fútil.


Havia, no entanto, quem fosse ainda mais longe e propusesse que se deixasse viver TODOS os homens e não apenas os que apresentassem uma melhor herança genética. É bem verdade, refletia Thereza, que eram poucos os espécimes masculinos gerados no Grande Ventre Federal, órgão responsável pelo abastecimento de machos e seleção e congelamento de sêmen.

 

Thereza lembrava-se de sua visita, na adolescência, ao Grande Ventre. Tivera a oportunidade de ver pequenos machos engatinhando nos seus alojamentos apropriados e, na tenra idade, eles podiam até se passar por meninas, tão meigos e bonitinhos.

"Mas não se iludam! -- advertiam as guias que levavam as adolescentes -- dentro de muito pouco tempo começa a manifestação de sua agressividade natural, começam os genes a falar mais alto! E esta doce aparência feminina desaparece sob a máscara de uma sexualidade perniciosa e de uma violência atávica."


Sim, Thereza sabia que precisava levar Carlota o quanto antes ao Grande Ventre e aos Depósitos de Homens para que a menina visse com seus próprios olhos a baixeza e a promiscuidade daqueles seres cuja única função era a de dar origem a novos espécimes e que, por isso, não haviam sido dotados, pela natureza, de outros atributos criativos. Homens, refletia ela, são a essência da força reprodutiva. Por isso mesmo não existem para criar sabedoria, filosofia, ciência. Existem em estado bruto, de violência latente, essência do Caos. Pobre Carlota, adolescente e iludida com fantasias de igualdade. Esta é, sempre foi e sempre será a condição humana.


Bel, 1995, agosto, 29

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