Conversa de Planeta
- SAUDE&LIVROS Fomm
- 22 de fev.
- 2 min de leitura
por Isabel Fomm de Vasconcellos Caetano
do Livro Histórias de Mulher

Diz a Terra à Marte:
- Você vê, meu querido, esta infecção que me devasta parece agora ter conseguido um veículo para expandir-se até você. Sugiro que você invente logo um anticorpo prá exterminar com qualquer exemplar deste vírus que, por essa via, venha a atingí-lo.
Marte boceja.
- Imagine, cara amiga. O ambiente que me cerca não é propício à vida deste tipo de vírus...
- Mas eles acabarão dando um jeito.
Está certo que nem incomodam tanto, embora pensem que incomodam, pois desvatam apenas uma pequena camada de minha pele. Mas isto me torna um pouco feia, desfigurada. Embora, é claro, toda a energia que importa esteja bem guardada e protegida no centro do meu ser.
- Viver em mim -- retruca Marte, com ares de pouco caso--
seria para este vírus como viver no seu interior.
- Nunca! Em meu interior eles seriam destruídos instantaneamente. Na sua pele, podem proliferar, se desenvolverem os mecanismos adequados para isso. Não se esqueça que alguns deles chegaram mesmo ao meu satélite, embora não tenham proliferando sobre a pele da coitadinha da minha menina...
A Terra tornou-se subitamente melancólica e suspirou:
- Ah, às vezes posso entender os pensamentos deles... Por isso, os castigo, mas não posso destruí-los... Eles pensam... e eu chego quase a amá-los por isso...
Marte fêz sério:
- Bom, você poderia destruir a maior parte deles e conservar alguns, para preservar-lhes o pensamento.
- Não dá. Eles têm uma singularidade absoluta. Cada um é absolutamente diferente do outro e assim o seu pensamento. Destruir esta singularidade seria contra as leis cósmicas.
- O que você vai fazer então? -- pergunta Marte.
- Eu? Me conformar. Afinal, como disse um deles certa vêz, " é preciso que eu suporte duas ou três larvas se quiser conhecer as borboletas"
- Mas será que eles evoluirão tanto assim a ponto de assimilarem-se a um ser tão nobre quanto a borboleta?
Talvez -- suspirou a Terra -- Talvez...
Bel, 1977, setembro



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