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EXÓTICO (ou Os Pássaros Azuis)

  • Foto do escritor: SAUDE&LIVROS Fomm
    SAUDE&LIVROS Fomm
  • 22 de fev.
  • 2 min de leitura

por Isabel Fomm de Vasconcellos Caetano

do livro Histórias de Mulher

publicado em "O Diário Popular"


Isabel Fomm, Sanhaço no Jardim Pauliceia
Isabel Fomm, Sanhaço no Jardim Pauliceia

Foi bem no final do verão que começaram a aparecer os pássaros azuis.

Como em todo mistério, no começo, ninguém prestou atenção.Em meio à praia (já deserta de turistas) eles eram apenas pequenos pontos escuros que se confundiam com a poeira amarelada e com os restos do lixo de verão, que o vento levantava.

Até que um dia a praia ficou tão repleta daqueles pontos escuros que algum curioso aventurou-se, sob os fortes ventos da tarde, a examiná-los mais de perto.


No entanto, também estes acabaram por sucumbir à curiosidade geral.

 

Estranhas aves, silenciosas, estranhamente silenciosas, contrariando a lógica das aves, naturalmente barulhentas, estridentes cantadoras.

Ninguém ousou aproximar-se muito.


O fotógrafo fartou-se de enquadrá-las em sua possante objetiva e retirou-se, aflito, para o laboratório.


O turfista, desesperado, via correr de mão em mão o seu precioso binóculo.


O rádio-amador quis ser o primeiro a comunicar-se com a capital, procurando repórteres, autoridades, ecologistas...Ninguém deu muita importância.


Enquanto isto, a Câmara Municipal agitava-se, em reunião de emergência. Afinal, aquelas estranhas aves poderiam trazer dano à comunidade. Eram em número espantoso e, a cada minuto, outras e outras aterrizavam.


O professor quis fazer um discurso, citando um certo filme de Hitchicok, mas ninguém ali havia assistido a tal película.


E mais e mais aves chegavam, como que atraídas pela multidão que também crescia...


Alguns, estonteados pela silenciosa beleza das aves azuis, prenunciavam catástrofe ou remissão universal. Por estes, o velho vigário tentou encontrar, em sua modesta biblioteca, algum exemplo de migração de qualquer ave como aquela.


Mas é fato que nenhum deles poderia dizer já ter visto pássaros tão belos. Nem mesmo teriam visto, jamais, tanta beleza num vôo, tanto encanto e graça no bater das longas asas, tanta suavidade nas formas. A dança dos pássaros azuis a todos comoveu, enchendo de magia o ar.

 

Manhã seguinte a cidade perplexa reuniu-se, como se houvessem marcado o encontro, na praça central. Mal amanhecera. Chegaram todos juntos e em bloco, estranhamente silenciosos e graves, quase como os próprios pássaros. Não olharam imediatamente para a praia, talvez por medo ou estranho respeito. Ou pelo simples fato de ter distraída a sua atenção pelo fotógrafo, que passara a noite no laboratório e chegara correndo e gritando, quase a chorar: todas as fotos, todos os filmes, inexplicavelmente velados...

 

Então, alguém percebeu.

Nada se via na praia.

Correram todos para lá, alvoroçados, falando ao mesmo tempo, aos tropeços.

Inútil. Tão misteriosamente quanto haviam surgido, haviam também partido os magníficos pássaros azuis.

Profunda tristeza baixou sobre a cidade.

Ninguém disse uma palavra.

Assim como ninguém, tampouco, arriscou-se jamais a interpretar a presença daqueles belos espécimes.

Mas carregaram para sempre inexprimível saudade em seus corações.

 

 Bel, 1978, setembro, 19

 

 

 

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