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- SAUDE&LIVROS Fomm
- 21 de nov. de 2025
- 4 min de leitura
por Isabel Fomm de Vasconcellos Caetano

Adriana e Joel, seu namorado, estavam naquela grande avenida paulistana, e quando, ao passarem diante de um hotel, ele disse:
-- Nossa! Não me conformo com a transformação desse velho prédio, que foi sede do Grupo de Comunicação Natureza por mais de 100 anos. É um absurdo modificarem assim, sem nenhum respeito à memória da cultura brasileira, esse prédio que, por um século, foi berço de tanta coisa importante na vida artística do nosso país!
Adriana riu.
-- Se quiser evitar ouvir o mais indignado dos discursos sobre esse fato, jamais o mencione a minha mãe...
-- Sua mãe?
-- Sim – respondeu ela – Minha mãe, Flávia, foi a jornalista editora do Caderno de Cultura do Jornal Natureza, na época em que o grupo completou 100 anos. Ela foi também uma das responsáveis pela organização do evento que comemorou o centenário. Em 2004, você sabe.
-- Poxa! Que maravilha! Não sabia dessa história da sua mãe.
-- Ela era completamente apaixonada por esse prédio – continuou Adriana, e riu de novo – e ficou possessa quando o grupo se mudou para outras instalações e vendeu o imóvel para essa cadeia de hotéis. Ela perdeu o emprego por causa disso. Naquela época, eu era um bebê, mas meus pais sempre comentam o esforço dela para protestar, numa Internet que ainda estava em sua infância no Brasil, bradando a quatro ventos exatamente o que você acaba de dizer: que era um desrespeito à memória da cultura nacional. Ela conseguiu até dar entrevistas a programas de televisão, falando sobre a importância de se manter o prédio do Grupo Natureza como um espaço cultural. Queria que ele fosse tombado, que virasse um centro de cultura e arte, como a Casa das Rosas, na Paulista. E hoje todo mundo já esqueceu essa história. O hotel foi descaracterizando totalmente o prédio com reformas e reformas..., mas como é que você sabe disso, Joel?
Aí foi a vez de ele rir:
-- Sou sobrinho bisneto de um dos grandes astros que brilhavam na Rádio Natureza.
-- Cruzes! Sobrinho bisneto de quem?
-- Já ouviu falar no Palhaço Bom de Bola?
- Hahaha... – riu Adriana – um dos fantasmas que a minha mãe encontrou antes do Centenário.
-- Fantasmas? – perguntou ele.
E assim Adriana contou a história dos três supostos fantasmas que sua mãe, a jornalista Flavia, encontrara na “cobertura” do prédio do Grupo Natureza, em 2003 e em 2004, antes do Centenário: respectivamente, o Palhaço Bom de Bola, a Cantora Dora Bastos e o próprio dono do Grupo, Armando Faria. E disse:-- Eles, explica a minha mãe, todos vindos diretamente dos anos 1950. Eu já naveguei várias vezes pelo site do Grupo Natureza e, embora eles só tenham hoje aquela TV a cabo, a memória e as histórias do grupo estão muito bem preservadas lá.
-- E a sua mãe? Foi mandada embora do emprego porque protestava sobre a venda do prédio... E aí?
-- Aí ela foi trabalhar na mais importante rede de televisão do país, nos anos 2000. Aposentou-se em 2015 e, nos últimos dez anos, mantém um site na Internet onde escreve suas memórias jornalísticas e também alguns contos de ficção.
-- E você – perguntou Joel – nunca quis seguir os passos da sua mãe? Poxa! Ela é uma pessoa importante, hein?
-- Ah... o que ela curte de letras, eu curto de números. Sempre, desde menina, a matemática e as ciências exatas me atraíram muito mais que as humanas. No ano que vem, me formo em TI e sonho ir trabalhar em alguma das big techs. De preferência, no exterior.
-- Estados Unidos?
-- Não. China. O futuro do mundo está na China.
Joel riu. – E a língua?
-- Todo mundo fala inglês – respondeu ela – inclusive eu. Mas já estudo mandarim.
Estavam chegando ao seu destino.
Iam a um show de uma nova banda que estava fazendo sucesso na Internet, composta por garotos e garotas muito jovens, mas que prometiam resgatar antigos sucessos da música brasileira, vestindo-os com uma nova roupagem, ritmos que transformavam sambas-canções em rap, mpb em rock and roll, chorinhos em soul music e por aí afora.
No meio do show, com muitas versões que tanto Joel quanto Adriana já tinham ouvido na Internet, o grupo começa a cantar, em ritmo de balada romântica: “Como vai, como vai, como vai? Muito bem, muito bem, bem, bem. Você vai bem? Eu vou também. E ele como é que vai? Vai muito bem, muito bem, bem, bem!”*
Joel solta uma risada. E diz para Adriana:
-- Você se lembra dessa música?
-- Não. – Responde ela. E ele diz:
-- Era a marca registrada do Palhaço Bom de Bola, um dos “fantasmas” da sua mãe!
E, logo em seguida, a banda começa a tocar, em ritmo de rock:
“Hoje, eu quero a rosa mais linda que houver, e a primeira estrela que vier, para enfeitar a noite do meu bem. Quero a alegria de um barco voltando e a ternura de mãos se encontrando, para enfeitar a noite do meu bem...” **
E Joel exclama:
-- Dora Bastos! Esse foi o maior sucesso da cantora Dora Bastos!
Nossa! O outro “fantasma” da sua mãe! É muita coincidência!
E Adriana, ao ouvido dele:
-- Coincidências não existem. Agora foi o “fantasma” de Armando Faria, o lendário dono do Grupo Natureza, querendo nos mostrar que, por mais que se destruam os prédios, a memória persiste e preserva a nossa cultura.
* Música originalmente do Palhaço Arrelia
* Música originalmente da compositora e cantora Dolores Duran.
Bel, 2025, novembro, 17
Veja também: a história da mãe da Adriana, Flávia, e O Velho Prédio


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