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MADEIRA!!!

  • Foto do escritor: SAUDE&LIVROS Fomm
    SAUDE&LIVROS Fomm
  • há 1 dia
  • 4 min de leitura

por Isabel Fomm de Vasconcellos Caetano

assista vídeo onde conto essa história - programa AS BRUXAS, Tv Paradise


Um raio enorme desceu dos céus, em meio à tempestade e cortou em dois o tronco da árvore centenária, sob a qual repousava a pequena casa de madeira, destruindo exatamente a metade do lar dos pais de Liete, uma criança de apenas seis meses de idade, que acordara com os muitos barulhos da chuva forte e com o estrondo do trinco, galhos imensos e uma profusão de folhas, que esmagaram sem dó o jovem casal que dormia. O berço da bebê, porém, como por um milagre não fôra atingido. Os vizinhos que correram para acudir a família, encontraram Liete quase a se afogar numa caminha cheia d’água, tiritando de frio e de medo.

Os pais dela estavam mortos, esmagados pelo enorme tronco que o temporal derrubara.

 

Magda, Marie e Malena, as três irmãs que moravam um pouco acima do centro da aldeia, numa colina próxima, compadeceram-se da pequena Liete e resolveram adotá-la como filha. Assim, a menina cresceu sem pai, mas com três mães amorosas e dedicadas. Mas não só isso: mães muito sábias, que conversavam com as árvores e com os bichos, que sabiam ler nos caminhos do céu, tanto o das nuvens, quanto o das estrelas, que conheciam o poder de cada erva, de cada fruto e sabiam combinar esses poderes em poções mágicas.

 

Aquele era um povoado construído por aventureiros vindo das terras do sul, fugindo de um frio congelante. Ali o clima era muito mais quente, porém, amenizado pela presença da floresta de grandes árvores centenárias que todos julgavam sagradas.

 

Instalaram sua aldeia às margens do rio. Mais para cima, havia uma tribo de povos originários que, à época da fundação do povoado, descera pela correnteza, em suas canoas, para ver que apito tocavam, afinal, aqueles caras pálidas. Os recém chegados receberam os naturais como gestos de boas vindas e esses apreciaram isso. Caso tivessem sido recepcionados por armas e desconfiança, certamente teriam acabado com aqueles brancos esquálidos.

 

Com os originários, os recém chegados foram aprendendo muitos segredos da natureza e, por sua vez, ensinando também algumas técnicas agrícolas e de engenharia. Assim, os dois povos viviam em paz.

 

Liete já estava com 12 anos de idade quando apareceu na floresta o terceiro grupo. Composto quase que sem sua totalidade por homens, homens brutos, barbudos, cabeludos. Armaram tendas. Vieram com poucas mulheres e muito equipamento dentro das carroças.

 

-- Eles não vão se fixar aqui – vaticinou o Sábio Ancião – Aposto que são madeireiros.

 

É claro que, para construir sua pequena cidade, os aldeões tinham cortado algumas árvores, até porque precisavam também de terra onde plantar alimentos e precisaram desmatar pequenas áreas. Mas faziam tudo com aquele respeito milenar que tinham pela natureza. Abrir clareiras para plantações, derrubar poucas árvores, não prejudicar a floresta como um todo para que essa pudesse continuar a lançar aos céus os seus rios aéreos, para que as árvores pudessem continuar a se comunicar pela extensa rede de raízes e fungos no subsolo.

 

Por isso, alguns dias depois da chegada daqueles homens brutos, toda a aldeia não pôde deixar de lembrar-se da noite daquele iTemporal atípico que acabara por derrubar a casa dos pais de Liete. Porque tão terrível quanto assistir àquela tempestade, fôra ouvir o fabuloso estrondo de várias árvores imensas vindo ao chão de uma só vez...

 

Embora estivessem a mais de um quilômetro de distância, os povos originários também ouviram o pavororso rugido da orquestra formada pelos troncos caindo, as folhas desbastadas, os pássaros em pânico, os pequenos animais em fuga...

 

Era a terra desrespeitada, vilipendiada...

 

E agora? Sabiam o que aqueles seres sem alma e sem empatia fariam: cortariam as toras de madeira e desceriam o rio com elas. Iriam embora, graças aos deuses. Mas... e se voltassem depois, para extrair mais madeira, para desfigurar a floresta, para destruir a harmonia da natureza em sábio colóquio entre o céu e a terra, entre os ventos e as águas, entre os animais e vegetais?

 

Liete ouvia os adultos conversando sobre isso, confabulando com os indígenas, e, de repente, teve uma ideia.

 

Próxima ao acampamento dos madeireiros, uma de suas mulheres lavava roupas à beira do rio. Liete se aproximou dela, puxou conversa e acabou dizendo que ficara muito assustada com a destruição que aqueles homens haviam causado ali.

 

-- Destruição? – riu a moça – Que destruição? Eles apenas cortaram algumas árvores... Todo mundo corta árvores. Elas nascem de novo, ué!

 

-- Pode ser que se cortem árvores por aí, mas não essas. Esse é um bosque sagrado e existe uma maldição para quem destruir qualquer parte dele!

 

A moça riu de novo.

-- Maldição? Que bobagem!

 

-- Não é bobagem não – respondeu Liete. – Eu já vi acontecer. Um homem cortou uma árvore dessas, assim, sem mais nem menos, sem pedir licença à terra, sem um propósito justo e, no dia seguinte, amanheceu doente, vomitando, esverdeado e cheio de berebas na cara...

 

Liete sabia que as suas mães preparavam um remédio para matar as pragas que porventura aparecessem em suas hortas ou jardins. Sabia que aquele remédio causaria exatamente esses sintomas em alguém que, inadvertidamente, o ingerisse. Assim, foi ao armário de poções, roubou um vidro e foi para o acampamento dos madeireiros na hora em que esses fariam a sua refeição do meio dia. Escolheu, entre as toras de madeira que, já mortas, ladeavam o acampamento, uma bem seca e, com duas pedras, fez uma faísca e colocou fogo na tora. Logo, todos saíram das tendas para ir conter o fogo e Liete, rapidamente, despejou a poção no tonel de cerveja que ela sabia que eles beberiam no almoço. E voltou tranquilamente para casa.

 

No dia seguinte, quase todos, no acampamento madeireiro, amanheceram doentes. E a moça que conversara com Liete começou a gritar:

-- Nossa! É a maldição!

-- Que maldição? – perguntaram.

E ela explicou. O chefe disse:

-- Besteira. Comemos alguma coisa estragada, nada mais.

 

Mas, por via das dúvidas, no caminho de volta, o chefe ia pensando que existiam tantas florestas no país e talvez fosse melhor que eles nunca mais voltassem para aquela.

 

Bel, 2026, julho, 15


As Bruxas na TV Paradise n.64

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