top of page

O Último Dia

  • Foto do escritor: SAUDE&LIVROS Fomm
    SAUDE&LIVROS Fomm
  • 31 de dez. de 2025
  • 6 min de leitura

por Isabel Fomm de Vasconcellos Caetano


conto de Virada


Veja o vídeo onde conto essa história - As Bruxas, na TV Paradise


Nuvem Negra
Nuvem Negra

Lea acordou, naquele 31 de dezembro, com o peito oprimido. Fisicamente. Um peso. Não era dor. Era uma estranha sensação e vinha acompanhada de grande ansiedade. Por que? Nada acontecera, estava tudo normal, era a manhã de um novo dia que embutia em si apenas alegres perspectivas. A festa do réveillon, a manhã de sol na praia, a tarde no cabeleireiro e talvez afinal, no momento da virada, quando se abraçassem, ele a beijasse... Seria isso? A expectativa de um novo amor, que ela adivinhava na forma com que ele a olhava, na entonação que a voz dele assumia quando conversavam... Seria uns trinta anos mais velho que ela e talvez fosse exatamente esse fato que o inibira, que fizera com que ele não avançasse o sinal... Pensou, refletiu, e acabou concluindo que não era essa a causa daquela estranha sensação com que acordara.

 

Meteu-se sob o chuveiro, lavou os longos cabelos, secou-os com um secador de mão que o hotel oferecia. Vestiu o minúsculo biquini, jogou um vestidinho leve sobre o corpo perfeito e desceu para o café da manhã. Ele estava lá. Levantou-se da mesa onde se sentara e foi direto para ela, um sorriso revelador, gentilmente a conduziu à mesa, puxou a cadeira para que ela se acomodasse e, notando a sua bolsa confeccionada com o mesmo material das esteiras, disse:

 

-- Também estive pensando em pegar uma praia...

 

Conversaram banalidades, o tempo, a festa da noite, o dia – que sorte! – ensolarado. Era advogado, tinha um grande escritório na Faria Lima, com mais de 20 colegas, já passara dos sessenta, mas nem queria ouvir falar em aposentadoria.

 

Durante todo o café, a tal sensação angustiante (sim – ela percebia – era angustiante) não a abandonava. Seria por que estava atraída por um homem que mal conhecera e, pior, tinha idade para ser seu pai?

 

Lea passara um ano bastante difícil, de uma acirrada e desleal competição profissional na agência de publicidade onde fôra, logo no início do ano, promovida à diretora de criação. Muitos dos seus colegas homens não se conformavam em receber ordens de uma mulher e, a todo instante, pipocavam pequenas sabotagens no andamento das campanhas. Por isso resolvera viajar sozinha para aquele hotel na famosa e distante praia do Porto de Galinhas. Para relaxar. Para descansar.

 

Encontrar aquele homem e sentir-se assim tão atraída por ele, não estava nos seus planos para aquele final de ano. Mas também não a desagradava a possibilidade de ter uma aventura sexual e amorosa. Então porque aquela dona angústia a oprimir-lhe o peito? De repente pensou que talvez a sensação, que tanto a incomodava desde que acordara naquele dia, não dissesse diretamente respeito a ela. Talvez fosse algo maior.

 

Lea sabia bem reconhecer seus pressentimentos. Os tinha desde criança. Com 5 anos de idade, na cozinha: -- Mãe, cuidado, o bule vai cair. -- e o bule caía. No carro, sentadinha na cadeirinha do banco traseiro: -- Pai, se você entrar na próxima travessa vai encontrar um lugar para estacionar. E encontrava...

 

Na escola, sempre sabia o que estudar mais para as provas, adivinhava o tema das redações que seriam propostos, pressentia acontecimentos das vidas dos colegas. Esse poder (que por vezes ela julgara ser uma maldição) muito a ajudara a enfrentar a resistência que encontrara, nesse ano inteiro, no trabalho.

 

Esses pensamentos passaram voando por sua mente, enquanto tentava decifrar aquela estranha sensação que ainda dominava seu peito, desde que acordara. “Deve ser algo maior...”.

 

Então, num repente disse a ele: -- Carlos não olhei o celular, não liguei a TV do quarto... Você sabe se alguma coisa importante ocorreu no mundo de ontem pra hoje?

 

Ele riu: -- A todo momento acontecem coisas importantes no nosso planeta... Mas... por que você está perguntando isso, assim do nada?

 

-- Não sei – respondeu ela, pensativa – Talvez eu esteja com um pressentimento...

 

E ele: -- Sempre admirei nas mulheres essa capacidade intuitiva. Minha mãe adivinhava frequentemente, quando eu era jovem, o que eu estava fazendo de errado...

 

-- Sim – respondeu ela – Todas as mulheres são bruxas...

 

-- Umas mais desenvolvidas que outras – disse ele, estranhamente sério.

 

-- Acho deselegante botar a cara no celular quando se está à mesa com mais alguém – disse Lea – Mas alguma coisa está me perturbando. Você me permite? Vou dar uma olhada no Último Minuto.

 

No entanto, o celular dela estava desconectado. Perguntou a um garçom, que circulava próximo à mesa deles, pelo wifi do hotel e esse desculpou-se: -- Sinto muito, senhora. Mas o nosso sinal de Internet caiu e ainda não voltou.

 

Quando Lea e Carlos passaram pelo saguão principal perceberam uma grande agitação no balcão da recepção. Hóspedes que estavam entrando ou saindo, reclamando muito, telas desligadas, tanto nos computadores quanto nos aparelhos de TV. E Lea disse: -- Não dá mais, de jeito nenhum, pra viver sem Internet.

 

Chegando à praia perceberam que havia algo muito estranho no ar. O céu, até então absurdamente azul, deixava ver lá adiante, no horizonte, uma imensa faixa negra, como se fosse um manto escuro que começasse a se descortinar sobre as esverdeadas águas do Porto de Galinhas.

 

Lea quase gritou: -- Temos que sair daqui, imediatamente. Vamos para longe...

 

Os banhistas se agitaram. Alguns saíram da água, outros levantavam-se das cadeiras. O que seria aquilo? Um imenso bando de pássaros? Nuvem não era. Era uma faixa extensa, que ocupava lá adiante todo o horizonte.

 

-- Carlos – insistiu ela – precisamos nos afastar o mais depressa possível das praias.

 

-- Venha – disse ele- puxando-a pela mão. Eu aluguei um carro no Recife para chegar aqui. Venha.

 

E ele foi dirigindo imprudente e velozmente por uma estradinha tosca que parecia poder leva-los para o interior daquelas terras. Lea olhava para trás e via aquela coisa estranha, preta, se estendendo cada vez mais rapidamente em direção à praia.

 

-- Meu Deus! O que será isso?

 

-- Não sei – respondeu Carlos que olhava pelos espelhos retrovisores do carro – mas quero estar bem longe quando isso chegar aqui.  Se for alguma espécie de tsunami avançará quilômetros além da orla e nem teríamos como nos proteger porque a altitude nessa região não passa de 10 metros. Creio que estamos indo em direção a terrenos um pouco mais elevados, mas nada que possa nos proteger, por exemplo, de um tsunami.

 

-- Aquilo não é um tsunami, Carlos!

 

Logo perceberam que muitos carros se dirigiam na mesma rota deles, alguns muito lotados de gente e trafegando em alta velocidade. Então começaram a sentir aquele cheiro estranho... enxofre?

 

Carlos ligou o rádio do carro, mas sem esperanças porque não havia sequer a tela do gps. Estática. Disse:

 

-- Isso aqui está parecendo aquele filme onde toda a comunicação cai. Aliás, diria mesmo que está igual ao filme.

 

Lea sentiu um arrepio de pavor e respondeu:

 

-- Lamento dizer isso, mas acho que será pior.

 

Repentinamente o céu foi escurecendo. A tal “nuvem” chegara à orla e se espalhara. Em instantes, o dia virou noite, mas todos perceberam que deveriam voltar para o hotel, com os faróis dos carros ligados, mesmo assim com pouca visibilidade. A imensa nuvem de cinzas e de enxofre tornava difícil até a respiração. E Lea disse: -- Depois do enxofre virá a água.

 

Carlos olhou para ela, não sem espanto. E ela continuou:

-- É a Terra, Carlos. A nossa mãe que se cansou de ser tão desrespeitada e vilipendiada por nós, seres humanos, que temos sido com um vírus para ela e para todos as outras espécies de vida, das árvores aos animais, das plantinhas aos insetos... E resolveu nos destruir para que o planeta voltasse a ser, como queria o poeta Vinicius de Moraes, como se o Senhor tivesse ficado com “as vastas mãos abanando”, no Dia da Criação, então “seria a indizível beleza e harmonia do plano verde das terras e das águas em núpcias, a paz e o poder maior das plantas e dos astros em colóquio...”. Eu sei o que houve. Todos os quase mil e quinhentos vulcões que existem entraram em erupção. E depois começarão a chegar até nós os muitos tsunamis que essas erupções causaram.

 

Nem bem Lea acabara de falar e eles ouviram o estrondo das águas e a enorme massa que se aproximava deles, a uma velocidade espantosa. Os carros rodaram arrastados pela imensa onda e Lea sentiu-se sufocar, a água entrando por todos os buracos da sua cabeça e do seu corpo, engasgada, sem conseguir respirar...

 

Foi então que ela, com um pulo assustado, acordou sentada na cama do hotel. Sufocada sim, mas em seu próprio suor, transpirando muito, com calor, apesar do ar condicionado do quarto.

 

-- Nossa! Que sonho louco!

 

Mas logo se refez do susto que o pesadelo lhe causara e lembrou-se da agenda daquele último dia do ano: praia, cabeleireiro e, quem sabe, na virada, ele afinal a beijasse. Saiu da cama, escancarou a janela do quarto e respirou, feliz da vida, a deliciosa brisa do mar.

 

Bel, 2025, dezembro, 23


Comentários


bottom of page