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Transmutação

  • Foto do escritor: SAUDE&LIVROS Fomm
    SAUDE&LIVROS Fomm
  • há 5 dias
  • 4 min de leitura

por Isabel Fomm de Vasconcellos Caetano


Assista o programa "As Bruxas", da TV Paradise, onde conto essa história.


Foi de repente. Maria Amélia estava trabalhando no que seria o seu terceiro livro publicado quando aconteceu pela primeira vez. Escreveu: “E Sandro, quando voltava, a pé, do trabalho, foi atingido por aquele caminhão desgovernado que esmagou seu corpo contra a parede branca da casa.”

 

Ao acordar, na manhã seguinte, ligou a TV do quarto no noticiário e viu, não sem espanto, a reportagem que mostrava um jovem, no Recife, que, ao voltar para casa, vindo do escritório, caminhando pela calçada, fôra atingido por um caminhão que descia a rua, uma ladeira, desgovernado, e teve o corpo esmagado contra o muro de uma casa.

 

Daí pra frente, muito do que ela escrevia, como parte do enredo de seu livro, acontecia na vida real. O casal que discutiu com os policiais porque a viatura deles esbarrara nas costas do rapaz, na viela estreita onde trafegava e esse pequeno acidente gerou uma enorme briga que culminou numa policial abrindo fogo contra o jovem e matando-o instantaneamente. Ela escrevera e, logo depois, acontecera.

 

E assim começaram a se suceder acontecimentos iguais aos que, antes, ela escrevia no enredo do livro no qual estava trabalhando. O que seria aquela loucura? – pensou. – Estaria tendo premonições ou estaria criando fatos de ficção que acabariam por tornar-se realidades?

 

Quando aconteceu lá pela quinta ou sexta vez, muito intrigada, Maria Amélia decidiu ir consultar a sua amiga Circe, a bruxa mais sofisticada de São Paulo. Explicou o que estava acontecendo e Circe disse:

-- Não. Você não está tendo premonições. Você está profetizando. Está criando fatos que se transportam para a vida real e não o contrário. Você não está transcrevendo eventos já ocorridos. Você os está criando.

 

-- Mas como, Circe? Nesse caso, vou ter que parar de escrever. Cada vez que eu escrever algo triste, como um assassinato, esse irá ocorrer? Não! Não pode ser! Devo estar tendo mesmo premonições! O que você está dizendo joga sobre mim uma imensa responsabilidade... Vou ter que renunciar à escrita? Não! Eu sou uma escritora, simplesmente não posso parar de escrever...

 

-- Calma, querida Amelinha, -- respondeu Circe – existe uma forma de evitar que isso aconteça.

 

-- Que forma?

 

-- Olhe, a cada vez que você descrever um fato, assim que terminar de fazê-lo, olhe para o parágrafo que está na tela e diga três vezes em voz alta: Mahtra, Mahtra, Mahtra. São as palavras mágicas de proteção Rosacruz. Elas impedirão que o teu texto se transmute em realidade.

 

Maria Amélia achou aquilo muito louco, mas nada parecia mais louco do que seu texto ficcional gerar uma realidade. E, daí para a frente, a cada vez que descrevia um fato, em seu livro, procedia segundo as instruções de Circe. E nunca mais viu as suas histórias irem parar nos noticiários da TV ou da Internet.

 

Suspirou aliviada. Um dia, porém, veio a notícia inesperada e triste: uma das suas primas mais queridas descobriu um câncer de pulmão. E Amélia pensou: talvez meu texto possa curá-la... Sentou-se à frente da tela de seu computador e começou a escrever a história de uma amiga de sua personagem principal, que se chamava Diva. Digitou: “Diva, naquela tarde distante, recebera uma triste notícia. Uma de suas mais queridas amigas, a Elisângela (mesmo nome da prima da autora) tinha descoberto um câncer de pele. Foram alguns meses de apreensão e tratamentos após a cirurgia e o grupo de Diva mentalizara a cura para Elisângela, em todas as noites, enquanto duraram os procedimentos. Por isso, foi sem grandes surpresas que receberam a notícia de que o câncer de Elizângela fôra totalmente redimido.”

 

Três meses depois desse texto, Maria Amélia recebeu um telefonema da Elisângela verdadeira. Feliz da vida, pois seu câncer entrara em remissão.

 

Daí para a frente, vários novos personagens foram sendo acrescentados ao texto original do terceiro livro de Maria Amélia. Um livro que ela nunca publicou e nunca terminou. Porque ele tinha aquela mágica propriedade: transmutar a narrativa de ficção em realidade. Então, a fábrica do tio que estava à beira da falência, como num passe de mágica, recebeu uma grande encomenda internacional que a salvou do desastre. O namorado da amiga que rompera o namoro porque estava supostamente apaixonado por outra, de repente, se arrependeu, esqueceu a nova paixão e voltou para a antiga namorada, vexado e pedindo desculpas. O primo, há meses desempregado, recebeu uma proposta de emprego e etc. etc. etc.

 

Maria Amélia escreveu outros livros, durante sua longa vida. Mas nenhum deles tinha o poder de transmutar palavras em realidades. Só esse, esse que seria o seu terceiro. Ela nunca descobriu como ou porquê. Assim da mesma maneira que tantas e tantas pessoas de sua convivência jamais souberam que seus problemas haviam sido resolvidos pela mágica e inexplicável interferência do livro nunca terminado da consagrada escritora Maria Amélia Gonçalves de Almeida.

 

Bel, 2026, abril, 13



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