A Outra Beth
- SAUDE&LIVROS Fomm
- 25 de jun.
- 4 min de leitura
por Isabel Fomm de Vasconcellos Caetano
assista o vídeo onde conto essa história - programa AS BRUXAS, da TV Paradise.

Beth era uma bruxa. Mas nem ela mesma sabia direito disso.
Desde pequena, aquela intuição poderosa a acompanhava. E todos os que conviviam com ela, de uma forma ou de outra, mais dia, menos dia, acabam se beneficiando desse seu poder. Por isso, ultimamente, as amigas viviam dizendo que ela deveria assumir de vez o seu lado bruxa, mergulhar de cabeça nos estudos esotéricos, deixar o seu materialista emprego de assistente de marketing e dedicar a sua vida à espiritualidade.
De fato, ela sabia tudo. Vinha alguém confessar uma angústia e ela tinha uma solução ou, ao menos, um caminho. A amiga que precisa tirar determinada nota numa prova na faculdade, a outra que achava que a mãe tinha um câncer, fosse que questão fosse, a Beth tinha a resposta. E era a reposta sempre certa!
E as amigas insistindo que, pelo menos, ela deveria ter um gato. Afinal, toda bruxa tem um gato.
-- Gato! Que gato? Não quero nenhum gato, não! – respondia a Beth, entre brava e divertida.
-- Bom, pelo menos um passarinho, então – disse a Roseli.
E a Beth riu:
-- Desde que não seja um corvo...
No dia seguinte, ao sair do trabalho, Roseli passou na loja de aves. Pensou numa arara. Ou num papagaio. Mas eram bichos muito grandes para a delicadeza e o porte mignon da Beth. Acabou optando por uma calopsita mesmo. Comprou também uma grande gaiola, muito linda, equipada com brinquedinhos, comedouro com sementinhas, bebedouro e até um ninho.
Foi direto pra casa da Beth e essa acabou achando que aquele era um presente muito lindo, quando viu o pássaro, ainda pouco mais que um filhote, tão lindo e colorido e com um canto tão forte!
-- O nome dela é Filomena! – disse a Beth, já rindo.
A calopsita, aliás, a Filomena, passava o dia quase todo na gaiolinha, embora essa vivesse aberta porque a Beth jamais teria um animal enjaulado. Mas enquanto ela estava no trabalho e a casa aos cuidados da sua diarista Jacinta, a passarinha pouco saía da sua casinha, dando pequenos voos pela casa, indo pousar em algum galho de uma das muitas plantas que a Beth tinha em casa. Só quando ela estava em casa é que a Filomena vinha se empoleirar no seu ombro ou em sua cabeça.
-- Tá vendo? – insistiam as amigas – você já encantou essa passarinha! Você tem que assumir de uma vez esse seu lado bruxa!
Beth apenas ria.
Mas veio aquela tarde em que Adriana, uma das suas melhores amigas, passou em frente a uma loja de produtos esotéricos, no Top Center da Avenida Paulista. E viu as bolas de cristal exibidas na vitrine. Opa! – pensou a Adriana – a Beth precisa de uma bola de cristal! E comprou uma, não muito grande nem muito pequena para levar de presente à amiga.
Beth riu. E colocou a bola, em seu suporte, no parapeito da janela do apartamento.
E o tempo foi passando. As amigas sempre insistindo para que ela procurasse a bruxa Circe*, a mais poderosa e a mais rica das bruxas paulistanas, de quem Beth era amiga também. E fôra a própria Beth quem indicara a Circe à executiva Alcininha** e à Mariana**,* a da “casa” da Avenida São Luiz, a casa que tinha vida... Mariana acabara por tornar-se assistente da própria Circe e as amigas da Beth sempre sugeriam que essa tomasse o mesmo caminho.
Beth apenas ria.
Foi num sábado, algumas semanas depois que Adriana trouxera a bola de cristal. Beth bateu o olho na bola, meio por acaso, e, de repente, todo o entorno, diante dos seus olhos, desapareceu e o seu campo visual se resumira então à bola e, dentro dessa, havia uma figura, havia alguém! Beth chegou mais perto e viu que quem estava dentro da bola era simplesmente... ela mesma!
Então a Beth dentro da bola disse para a Beth fora da bola:
-- Eu sou a outra você! Sou aquela que você passou a vida negando! Sou o seu lado espiritual, sou o seu eu poderoso, intuitivo, divinatório! Eu sou a bruxa que existe em você e que você insiste em ignorar! Eu quero e preciso que você me assuma! Que você, finalmente, admita quem realmente você é!
Aquela visão foi, para Beth, como um soco no peito. A imagem, dentro da bola de cristal, foi se desfazendo e o entorno foi se refazendo, mas Beth já não poderia se refazer. Alguma coisa acontecera em sua alma e em seu coração.
E ela se pôs a pensar. Como poderia assumir seu lado bruxa? Estudando, como queriam as amigas, as sabedorias esotéricas? Largando seu emprego tão bem remunerado para viver, como a Circe, de consultas? Sem a segurança da carteira de trabalho assinada, da aposentadoria, das férias remuneradas, do décimo terceiro?
Roseli e Adriana insistiam:
-- Vá procurar a Circe! Você tem o privilégio de ser amiga da mais famosa e bem sucedida bruxa de São Paulo! Vá trabalhar com ela, naquela casa maravilhosa onde ela atende... com aquele jardim encantado, cheio de árvores, beladonas, orquídeas... Muito melhor do que o seu asséptico escritório de multinacional!
Beth foi. Explicou tudo a Circe, a bola de cristal, a outra Beth, tudo... E Circe convidou para trabalhar com ela, fazendo as pré-consultas, como já fazia a Mariana e liberando mais tempo para a agenda, sempre lotada, da Bruxa Circe.
Num ato de extrema coragem, Beth pediu demissão e deu adeus à segurança de seu emprego marketeiro para trocar pela aventura esotérica da casa da Circe. Foi aprendendo com a Bruxa Mor, foi crescendo, foi ampliando seus poderes mentais e espirituais e, alguns meses depois, sentindo-se feliz como jamais o fôra na vida, entrando em casa, a bola de cristal parecia emitir uma luz muito branca. Beth se aproximou e viu que, dentro da bola, surgia novamente aquela outra ela, que lhe dizia:
-- Agora que você me libertou, vou sair daqui e mergulhar direto na sua alma e no seu coração. E seremos, nós duas, finalmente apenas uma! Uma única pessoa. Uma única bruxa!
Bel, 2026, junho, 24
*Circe - Circe, a Bruxa Chique
**Alcininha - As Cartas Não Mentem
*** Mariana - A Casa e o Vestido
Programa As Bruxas, da TV Paradise


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