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O General e a Bruxa

  • Foto do escritor: SAUDE&LIVROS Fomm
    SAUDE&LIVROS Fomm
  • 8 de jul.
  • 6 min de leitura

por Isabel Fomm de Vasconcellos Caetano


assista ao vídeo onde conto essa história

Circe, a bruxa mais sofisticada e rica de São Paulo estava acostumada a receber figurões, empresários, políticos, milionários, enfim, gente da elite de todo o país. Também, pudera... a 500 dólares a hora, só mesmo os muito ricos... Mas, justiça seja feita, embora ela não falasse, é verdade que, depois das 22h00, sua porta estava aberta a aqueles que precisavam de sua sabedoria, de sua visão, mas que não tinham recursos para pagar-lhe pela consulta.

 

 O que, no entanto, ela não esperava, era receber um velho general reformado, ativo e famoso nos tempos da ditadura militar brasileira, há meio século passado. Hoje reformado, Circe calculava que ele estivesse beirando os 95 anos de idade. No seu tempo, ele fôra uma das figuras mais brutas e intolerantes do regime, defendendo publicamente a censura e até a tortura.

 

O que será que esse homem quer de mim? – pensou a Circe quando o viu na lista de atendimento do dia. E ele chegou, cumprimentou-a, sentou-se e foi logo dizendo:

-- Olhe aqui, minha senhora. Eu fui uma das autoridades mais cruéis do regime militar brasileiro. Incentivei e promovi aqueles que executavam os mais drásticos métodos de combate aos nossos adversários. Torturamos, muitas vezes até a morte, aquele que considerávamos perigosos e subversivos à ordem estabelecida. Atiramos, vivos, ao mar, dos helicópteros, aqueles que julgávamos absolutamente indesejáveis. Outros, que não resistiram à barbárie dos nossos torturadores e acabaram morrendo, foram enterrados em covas coletivas e secretas. Mas a senhora conhece a história. Em anos mais recentes, as organizações civis ditas humanitárias têm se encarregado de recuperar a memória daqueles que nós eliminamos. Mas fizemos tudo isso com a plena convicção de que estávamos combatendo os inimigos da democracia, a grave ameaça dos então chamados “lacaios de Moscou”, os que desejavam ver implantado no Brasil o regime comunista.

 

A Circe teve um risinho irônico e o general perguntou:

-- A senhora não concorda?

 

-- Não concordo – respondeu ela, com a sua afirmação de que havia uma ameaça à nossa democracia. Pelo que aprendi e pelo depreendi das memórias dos meus pais e de outros da geração deles, o regime militar brasileiro não era uma democracia e sim uma ditadura.

 

-- Sim – rebateu o General. – Uma ditadura implantada para combater a ameaça à democracia.

 

-- Ou seja – disse a Circe – uma ditadura de direita par combater uma supostamente provável ditadura de esquerda...

 

-- Mas a senhora há de convir – rebateu o General – que a ditadura de direita é muito melhor que a ditadura de esquerda!

 

-- Isso eu não posso julgar – finalizou a Circe. – Mas o que eu posso fazer pelo senhor?

 

-- Pois é – respondeu ele – Como hoje eu reconheço que fui bastante cruel naqueles tempos, que endossei os métodos que usávamos no combate aos nossos adversários, como a censura e até a tortura e mesmo a retirada do poder de alguns empresários que não nos apoiavam, através da pressão sobre as instituições financeiras com relação às conceções de créditos e sobre todo o sistema em geral, no sentido de remover essas pessoas de sua posição de poder econômico, já que não colaboravam conosco, enfim, hoje eu reconheço que não estava completamente certo e, de uns anos para cá, eu venho tendo sonhos terríveis; sonho com tortura, gerente pendurada no pau de arara, mulheres em grande sofrimento físico, estupros, gritos de terror... e acordo empapado de suor, em plenos desespero, sufocado, como seu fosse eu o ser torturado.

 

-- É – disse a Circe – Mas hoje, no Brasil, muita gente minimiza todo esse sofrimento que o senhor está narrando. Dizem que não foi bem assim, que os políticos de esquerda exageram, que a ditadura foi um período de paz e tranquilidade e não de terror. Dizem que mortos, desaparecidos, torturados, não foram tantos... É isso o que estamos vendo hoje nas nossas redes sociais. Uma certa negação da própria ditadura militar.

 

-- Então – disse o General – e foi a partir do início dessa negação que eu

comecei a ter esses sonhos e é por isso que estou aqui, consultando a senhora e quero saber duas coisas: a primeira é como me livrar desses sonhos, se a senhora pode fazer um feitiço, alguma coisa – eu sei lá o que as bruxas fazem – que me livre desses pesadelos, e a segunda... bem... eu estou muito próximo da minha própria morte, eu que enfrentei todos os fantasmas, as puxadas de tapete, as intrigas e as armações da minha carreira militar, eu vou lhe confessar uma coisa, mas só para a senhora, hein, Dona Circe, a senhora não me abra a boca para dizer isso a ninguém... eu estou com medo, eu estou com muito medo de depois de morto, ser castigado por esses erros cometidos aqui na Terra. Pois, afinal, eu acreditava que estava fazendo o bem, mas hoje os meus próprios filhos, os meus netos, me mostram que eu não estava fazendo o bem... Compreendo que causei muito mal à muita gente, aos presos políticos e às suas famílias, que foram privadas da convivência com alguns de seus filhos, que passaram anos e anos sem saber do paradeiro deles... E fui conivente com tudo isso. Será que a vida cobra um preço da gente depois da nossa morte?

 

E a Circe respondeu:

-- Não. Não é assim que funciona o Universo. O senhor pode ficar mais tranquilo. O Universo não tem conotações morais, não julga, muito menos castiga. Não é punitivo. O máximo que pode acontecer, depois da sua morte, é o Universo lhe mostrar quais foram os seus erros. Mas é por um mecanismo de semelhança. Ou seja, não acontece a uma pessoa o que ela merece, mas sim o que é semelhante a ela. É assim na vida e é assim também na morte. Uma nova vida que sua alma terá, após a morte desse corpo que ela agora ocupa, será, certamente, semelhante ao que o senhor foi nessa vida de agora, nesse corpo.

 

-- Mas como? – perguntou, já nervoso, o General – Quer dizer que numa próxima vida serei eu o torturado?

 

-- Não – respondeu Circe – Como já lhe disse, o Universo não tem esse caráter punitivo. Apenas vai lhe mostrar o que o senhor precisará saber. Assim como os seus sonhos acabaram por lhe mostrar que o senhor errou. O senhor próprio está admitindo para mim que errou.

 

E ele disse:

-- Sim! Mas eu quero me livrar dos sonhos. A senhora ainda não me respondeu como é que eu faço para me livrar dos sonhos!

 

-- Reze! – respondeu a Circe.

 

E o General:

-- Reze? Como assim? A senhora não é uma bruxa e está me mandando rezar? Está me dando um conselho religioso?

 

-- E o senhor pensa – disse a Circe – que nós não rezamos? Que não conhecemos a força e o valor da prece? Então, esse é o meu conselho: antes de dormir, o senhor reze. Peça a Deus ou ao Universo ou ao Criador, como preferir, que o livre desses sonhos angustiantes. Diga que já compreendeu, através desses, o que precisava compreender. O segredo, porém, da prece, é a absoluta concentração naquilo que se está pedindo através da prece. Pode ter a certeza de que, se o senhor tiver um mínimo de fé, o senhor vai conseguir se livrar desses sonhos que já lhe mostraram tanta coisa e que o fizeram, afinal, vir até mim. Quanto ao medo da morte, de uma forma ou de outra todos nós, seres humanos, temos medo da morte, porque ela é absolutamente desconhecida. Mas existem aqueles que nascem aqui na Terra e lembram-se de suas vidas passadas. Na verdade, todos os bebes se lembram das suas vidas anteriores e, mais tarde, aos três ou quatro anos de idade, completam o esquecimento dessas vidas para que possam viver essa nova vida sem trazer ressentimentos, ódios ou mesmo amores de uma outra existência. Para, enfim, poder viver plenamente e limpos de qualquer sentimento, emoção ou lembrança, essa nova vida que ora se inicia. Então é só quando bebês que nos lembramos das vidas passadas, para que essas memórias permaneçam apenas em nossos inconscientes e que possamos iniciar a nossa nova vida na plenitude do absolutamente novo. E, como eu lhe disse, nessa sua nova vida futura, aqui ou em qualquer outro lugar, o Universo não será punitivo. O Universo apenas lhe mostrará os caminhos necessários para que sua alma possa evoluir.

 

-- E evoluir pra onde? – perguntou, já meio nervoso, o General.

 

-- Ah... – respondeu a Circe – Isso eu não sei!

 

Bel, 2026, julho, 07


Veja também: Circe - Circe, a Bruxa Chique

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